Modernidade

maçã bruxa

Modernidade é aquilo que permite você ter banho quente ao lado do seu quarto e comida quentinha a qualquer hora da madrugada (sabe aquela fome incontrolável que surge às 3 da manhã?). Mas ela permite também que você se torne dependente de chuveiros, de lojas de conveniência (como esse nome é moderno…), de fornos de microondas e da rede elétrica. O fato de você pagar por todas essas coisas não o conecta decentemente a elas. Ao contrário, à medida que sua ligação com a modernidade se dá cada vez mais através de práticas estritamente financeiras, à medida que o dinheiro consolida-se como linguagem universal de todas as trocas (que por definição são sempre humanas), perdem-se todas as etapas que levam da necessidade ao produto que a atende.

Em breve você não saberá do que é feita a comida congelada e como são feitos os fornos de microondas e os chuveiros. Provavelmente você já não sabe dessas coisas. No fim, você não saberá como e de quê é feita sua própria vida. Logo, você se satisfará com a modernidade e ao mesmo tempo não perceberá que se tornou mortalmente dependente dela. É curioso o contraste entre a irritação causada pelos intermináveis congestionamentos e a insistência delas em usar carros.

É bem fácil envenenar-se assim. A palavra que melhor explica a modernidade é exatamente «envenenamento». No passado, Sócrates e Sêneca envenenaram-se e puseram fim às próprias vidas por amor ao conhecimento. Hoje envenenamo-nos por abominá-lo. A modernidade faz com que morramos envenenados e abraçados à nossa ignorância.

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Original da imagem aqui.

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7 comentários sobre “Modernidade

  1. “No passado, Sócrates e Sêneca envenenaram-se e puseram fim às próprias vidas por amor ao conhecimento. Hoje envenenamo-nos por abominá-lo.”

    Perfeito!!!

    E pensar que todo o problema era não saber como eram feitas as salsichas… ehhehe

  2. Sou seu fã, mas fico um pouco com o pé atrás nesse seu estilo “revista vida simples”, essa obcessão “fugere urbem”.

    O progressismo é uma lástima, mas rejeitar as benesses do progresso é dar um passo atrás. Graças ao microondas, posos estudar mais.

  3. Acho que um bom exemplo na alimentação é o famoso “Chester” no Natal. Quantas pessoas nem sabem o que é isso. Simplesmente comem, acham gostoso e vamos tomar champagne!

  4. Luis,

    eu achei que o fato de eu expressar idéias desse tipo através de um computador, na internet, constituía contradição suficiente para não deixar dúvidas sobre o que penso realmente sobre tecnologia e sobre abandonar as cidades. Trata-se — para que não haja dúvida — de deixar para trás tudo aquilo que torna a vida urbana e tecnológica tão abominável. Por mim, tudo o mais deve ser mantido. Longe de mim rejeitar benesses.

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