Sem pretensões

esqueleto

Sinto-me como se tivesse envelhecido 15 anos em uma semana e ainda não vejo a perspectiva de que certas texturas e cores retornem aos seus lugares de origem. As mãos estão lentas, o teclado parece um corpo estranho sobre a mesa, o que entra pela janela é vento frio e a luz é cinza.

Mas aos poucos a sensação de deslocamento se desfaz. Até mesmo Deus retorna ao lugar de onde jamais deveria ter sido tirado. A respiração retorna. O paladar já não é tão estranho e a água perde o sabor aos poucos. O apetite se normaliza e é possível caminhar daqui até ali sem desejar desfalecer. Suspiro por coisas que não vivi, não por aquelas que vivo todos os dias. Busco acréscimo, não repetição. Quero realizar, não insistir.

Tudo é muito estranho.

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Pior do que a constatação de ter passado três dias deitado sob febre branda e respiração ruim é a sensação de que deixar a juventude para trás é exatamente isso, perda de tempo. Nada mais, nada menos. Não há nada de genial nessa descoberta, apenas obstáculos e um apreço todo especial por um bom pijama, pelos cuidados maternos e por uma visita doce e inesperada.

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Nossa cachorra morreu, depois de 15 anos conosco — 15 anos de alegrias. Eu continuo preferindo gatos aos cachorros e cachorros vira-latas aos de raça. Mas Wendy, que não era gato e tinha traços de alguma raça que eu nunca me preocupei em saber qual era, deixou saudades.

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Eu não pretendo mais discutir. Isto é conseqüência inevitável da ausência de jornais, mas também é conseqüência inevitável de algum realismo. Eu não discuto porque eu não sei. Eu não discuto porque eu não quero. Eu não sei porque não quero saber. O que sei é que fiquei tempo demais na cama, que preciso me curar, que já me curei e que preciso me alimentar direito, que preciso dar aulas à noite, proteger-me do vento frio, por melhor que ele pareça ser no rosto, enquanto pedalo. Sei que preciso dormir e ter bom descanso. Todo esse conhecimento é simples e deveria bastar a qualquer pessoa. Esse conhecimento dispensa discussões. Eu não discuto com vírus, com termômetros, com o pratos de comida quente e com camas macias. Eu não discuto com pernas fracas e com a chuva lá fora. Eu discuto com coisas e pessoas de que não preciso e isso me faz pensar que não existe maior ofensa do que discutir: toda discussão traz em si a idéia de que você prescinde de muitas coisas e de muitas pessoas. Você sabe que não precisa das pessoas quando é capaz de discutir com elas ao menor sinal de contrariedade. E isso é um troço bem ruim, porque discordar falando baixo e escrevendo pouco é bom, humano, amistoso e, melhor do que tudo isso, respeitável.

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Uma das músicas mais adoráveis e despretensiosas já feitas chama-se «Jesus is a dying bedmaker», de John Fahey, um cara que apenas tocava um violão.

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Num de meus delírios febris, desejei que a explosão de ofertas das Casas Bahia fosse um fenômeno literal. Eu já não agüento mais o sobressalto dos decibéis toda vez que a TV anuncia mais uma «nova» explosão de ofertas. O mesmo vale para aquelas propagandas muito demoradas de máquinas de tortura exercícios milagrosas e para aqueles arrombados da Tecnomania que anunciam câmeras digitais vagabundas como quem anuncia a cura do câncer.

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É provável que eu me torne uma pessoa cada vez mais apagada pela necessidade de cumprir obrigações acadêmicas urgentes e pelo fato de só encontrar tempero ao lado dela. Mas eu aceito quem me escreva demonstrando a importância de discutir assuntos pertinentes como os crimes hediondos no Brasil e a ligação entre eles e a indústria do luxo e dos sistemas de segurança; o aquecimento global e o frenesi crescente por SUVs; o fetiche de jogadores de futebol pelo mau gosto puro e simples etc. etc. Prometo não morrer de tédio, mas adianto que ultimamente tenho encontrado mais valor e prazer numa xícara de chá do que nestes temas. Se você não pode me oferecer algo melhor do que uma xícara de chá, cale a maldita boca.

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Original da imagem aqui.

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4 comentários sobre “Sem pretensões

  1. Tentei, juro q tentei ser a enfermeira mais perfeita. Mas a única coisa q pude oferecer foi o meu carinho e as minhas broncas (q contradição, não?!?).

    E eu nem fiz o lencinho com álcool… :o(

    Amo vc. Espero q esteja melhor.

  2. A enfermidade tende a mudar nossas perspectivas a respeito da vida em si. Claro, para muitos isso não passa apenas de um estágio temporário no qual todos devemos passar.

    Creio que seja apenas uma medida coercitiva. Às vezes relacionado às nossas atitudes e outras em razão de nossos próprios pensamento. O mais importante, sem sombras de dúvidas, é entender a mensagem intrínseca e meditarmos a respeito pois a evolução decorre da autoconciência (ou autoconhecimento, se assim preferir.)

    Independente do grau, as coisas ruins (se podemos dizer que existe tal coisa…) sempre vêm para um bem maior. Nos confortemos neste pensamento.

    Abraços

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