Banalidades

thoreau cabin

Deve-se partir do pressuposto de que até mesmo a mais banal das histórias poderá interessar a alguém. Com nomes corretos e o tempero de adjetivos adequados, você pode contar a história de uma cicatriz ou de um pão-de-ló ou de um tomateiro e ainda assim poderá ser admirado por sua habilidade para a escrita. Não tem nada a ver com mediocridade, seja ela fingida ou honesta, afetada ou espontânea. Também não tem nada a ver com naturalismo ou regionalismo, ainda que só possamos perceber as escolas literárias quando é tarde demais. Tem a ver com escrever e dosar a humanidade da própria escrita: em excesso, o texto torna-se mediocridade poética ou powerpoint; em doses insuficientes, torna-se filosofia ou artigo de jornal.

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Thoreau encontrou um lugar como grande escritor quando teve a idéia de fazer algo que em seu tempo já havia se tornado exótico: viver no mato (ou, em inglês, bosque). Conseguiu terra emprestada, construiu sua cabana às margens de um lago e viveu por lá durante dois anos caçando, observando pássaros, escrevendo e conversando com agricultores e lenhadores. Para quem vivia numa cidade, foi uma vida muito boa. Não consta que lhe tenha faltado pão quente.

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Sempre julguei que a vida ideal mesclava o isolamento do campo com os confortos das cidades. A distância ideal da cidade mais próxima é aquela que o desanima caso tenha que ir a pé, mas que pode ser facilmente coberta de riquixá movido a pedal — sem pressa.

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A gritaria dos cachorros mescla-se com o violão das caixinhas de som deste PC e com o papo insosso dos vizinhos — é a falta de discrição que os faz assim. Se falassem baixinho, poderiam conversar sobre a série C do Brasileirão que o papo soaria cavalheiresco e elegante, poderiam enfiar o dedo no nariz e comer de boca aberta que ninguém notaria.

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Original da imagem aqui.

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4 comentários sobre “Banalidades

  1. Essa foi mesmo a cabana onde ele morou por 2 anos? Parece muito sueca, principalmente os moveis. Da vontade, nao da? Bora morar no mato, nas montanhas… Ilhabela esta ficando cada vez mais perto de Sao Paulo, mesmo que nao de pra ir de bicicleta ;-)

  2. Se não me engano, esta é uma reprodução da cabana original. Parece-me que há hoje um parque ou um museu (ou ambos) dedicados a Thoreau nos arredores do lago Walden, em Concord.

    Dá muita vontade. Nos meus arroubos anti-arquitetônicos, costumo pensar que a casa ideal é mais para fora do que para dentro. Essa coisa minúscula que a foto mostra esconde algo gigantesco e monumental — um lago, uma vida.

    E vida… cada vez mais isto se torna raro em cidades como São Paulo, Ilhabela e lugares que estão sob os efeitos da urbanidade — como se a vida pudesse estar em algum lugar ou condição que dispense o suor, o pé no chão, o esforço próprio.

    Namaste.

  3. Eu andei pesquisando sobre as ruínas da cabana de Thoreau e li que um arqueólogo chamado Roland Wells Robbins descobriu em 1945 os vestígios da cabana, escavou o local, retirou objetos enterrados, documentou os achados e em 1947 ele publicou um pequeno livro sobre o assunto.

    Achei no Flickr algumas fotos das ruínas:
    http://www.flickr.com/photos/mbentley/533760978/in/set-72157600320121227/
    http://www.flickr.com/photos/braincamp06/199859254/in/set-72157594214265999/

    Só fiquei em dúvida sobre as duas fotos… Uma mostra apenas o solo e a outra madeira… Qual é a verdadeira?

    Comentando sobre o tópico, quando li o livro pensei exatamente a mesma coisa que você, que pode-se escrever sobre qualquer assunto quando se tem ‘paixão’ suficiente por ele. Ao final do livro ele diz que poderia viver como uma aranha em um sótão, sobre o que escreveria? :)

  4. Kiki,

    pelo que pude notar, a verdadeira é aquela que mostra apenas o solo e as bases da antiga cabana. Pesquisando no mesmo Flickr você descobre várias fotos do lugar original.

    Como aranha, decerto ele escreveria sobre tecelagem, flutuação e solidão.

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