Janelas abertas

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A vantagem de escrever coisas cada vez mais pessoais é livrar-se da obrigação de mentir. Eu não preciso inventar assuntos, fingir interesse por coisas que na melhor das hipóteses tornam a passagem do tempo mais suportável, aplaudir coisas sérias demais que só interessam a pessoais sérias demais.

Os riscos de mostrar-me como sou, um sujeito ordinário, são compensados pela chance e pela alegria de poder dedicar-me às coisas de que realmente gosto e de tornar-me um pouquinho menos ordinário, s’il vous plaît.

Eu disse, por exemplo, que não mais trataria de notícias aqui. O Governo Federal merece tanto espaço aqui quanto em minha casa ou em meu subconsciente. O mesmo vale para atualidades atuais demais ou quase tudo aquilo que reluz artificiosamente, como páginas de revistas, a imagem das TVs e carros recém-saídos das concessionárias. Esse brilho não existe em pessoas autênticas, porque elas não se importam com a sujeira delicada das estradas de terra e das imperfeições alheias — porque elas não escondem as delas próprias e não têm nojinho de andar (descalças ou com charmosos chinelos de dedo vermelhos) em estradas de terra e se você lhes pede para andar uma milha, elas andam contigo duas, três ou mais.

Diante disso tudo, é razoável que eu fale da única coisa que eu realmente conheço: eu mesmo. Não há nisso a presunção de que sou tão interessante quanto os assuntos realmente importantes que têm aparecido neste site. Há nisso uma verdade simples: a única forma de não mentir e de não falar de assuntos que eu não conheço é falar de mim mesmo, esperando naturalmente que o leitor a quem eu não interesso seja tolerante e sinta-se à vontade para ler outra coisa — és bem-vindo a qualquer momento, sabe.

Em essência, o que faço aqui é o que faço todos os dias: deixo a porta e as janelas abertas. Às vezes chove dentro e o vento já entrou quebrando coisas preciosas, mas há pássaros que pousam sobre a minha mesa e de meu posto sempre dá para ver o céu.

Eu não vou escrever em miguxês (o que seria ofensivo) e também não vou mostrar minha gaveta de cuecas (o que seria grotesco). Mas não vou esconder e fingir, insinuar e ironizar («Seja o seu sim, sim, e o seu não, não; o que passar disso vem do Maligno»), não vou esconder coisas importantes se a única razão para escondê-las for vergonha (que também é egoísmo) — o que não implica expô-las por puro exibicionismo ou por orgulho bobo de fazer algo que milhões de pessoas sabem fazer melhor do que eu.

Eu sei que valho pouco, mas sou tudo que tenho.

A graça de expor coisas pessoais é expor-se ao risco de aperfeiçoá-las e com isso aperfeiçoar a própria vida. Não são poucas as chances de que passe aqui alguém que sabe muito mais do que eu das coisas que estudo e às quais me dedico. Logo, há chances de torná-las melhores para mim mesmo.

Também há chances — menores, é claro — dessas palavras servirem para outras pessoas da mesma forma que descrevi acima. Já houve quem encontrasse aqui uma boa leitura, uma boa imagem, uma boa idéia, uma boa orientação. É raro, mas acontece. E nestes casos, mesmo tão poucos, este site fica automaticamente justificado e ficam automaticamente perdoadas as bobagens que fiz meus oito leitores fiéis tolerarem. Minha gratidão, portanto.

Bom, tem muito mais aí embaixo.

*
Tenho dedicado boa parte das semanas que passaram a duas atividades. A primeira é o mestrado. Como se trata de processo em andamento, cheio de juízos de valor e indefinições de minha parte, prefiro não falar muito desse assunto. Basta dizer que desde 2006 faço mestrado na FAU-USP, desenvolvo pesquisa na área de Paisagem e Ambiente e estudo os condomínios fechados de Ilhabela, cidade em que vivo.

A academia é um lugar interessante. A maioria das pessoas tem aquela paixão que conduz ao fanatismo, mas a obrigação da ciência as impede de gritar e estourar bombas. A academia pede compostura e serenidade, o que na maioria dos casos significa engolir em seco a vontade beligerante de arrebentar os miolos alheios. Não que compostura e serenidade — características bastante comuns nos corredores antigos da FAU-USP — sejam sempre falsos, mas quem decide continuar estudando, depois de ter concluído uma graduação, precisa (must) ter uma dose mínima de paixão e voluntarismo. Estas qualidades são comuns em adolescentes e estudantes de pós-gradução não são adolescentes. Toda a dor da pós-graduação está aí. Mas trata-se de dor pequena, mínima se comparada com as obrigações dos prazos, relatórios, trabalhos, levantamentos, leituras e viagens constantes entre esta cidade e a capital paulista. Quando todas essas coisas se acumulam — como conseqüência de meu antigo apreço pela arte de procrastinar — simplesmente não há tempo de pensar em paixão e em voluntarismo, em querer mudar o que quer que seja através de sua (minha) pesquisa. Porque, é claro, nada mudará no mundo porque você escreveu uma dissertação.

Quando fui entrevistado para a seleção da pós, eu disse, com alguma propriedade, que o objetivo principal de toda pesquisa era compreender, não modificar. Eu não menti, eu realmente acredito nisso. Mas não existe pesquisa sem um traço de heroísmo, sem aquela sensação de estar derrotando dragões com uma lança enferrujada. Todo o problema é não ver dragões e não ter lanças, não se ver como herói do que quer que seja, não perceber algo além daquilo que ficará guardado no papel e nas estantes da biblioteca da FAU-USP.

Por hora não há motivos para levar a sério essas questões. Elas são importantes na medida em que percebo o valor de minha pesquisa para além dela própria. É um exercício de fé pesquisar e escrever com a idéia firme de que a dissertação terá uma utilidade além de tornar-se combustível para a autofagia ruminante da academia («uma pesquisa que se baseia numa pesquisa que se baseia numa outra pesquisa que condensou elementos de uma outra pesquisa…»).

Nas últimas semanas, dada a urgência de etapas importantes de meu curso, essas questões simplesmente foram empurradas para dentro de uma gaveta distante. Elas estão lá ainda. Estas linhas não são elas próprias, são as memórias que tenho delas. No momento oportuno elas voltarão («momento oportuno» significa que ainda falta muita coisa para concluir meu mestrado e que muito suor correrá até que isso aconteça).

*
Suor me lembra da segunda atividade a que tenho me dedicado. Ela já foi citada aqui, discretamente, porque tudo relacionado a ela exige discrição e silêncio. Confesso que tem sido difícil ser discreto e sereno diante das benesses proporcionadas pela prática do yoga (ou da ioga, nunca sei, por isso vou usar «o yoga»). Vale a pena repetir aqui o que escrevi antes:

Três são os sinais indiscutíveis de que uma prática lhe proporciona felicidade consistente. O primeiro sinal é a vontade constante de que chegue logo o momento da próxima prática. O segundo é a percepção constante dos benefícios que essa prática traz à sua vida, em todos os seus aspectos. O terceiro sinal é a gratidão constante pela simples existência da prática e de pessoas dispostas a perpertuá-la.

(Se «panacéia» lhe vem à mente, prossiga a leitura e tire suas próprias conclusões.)

Felicidade é a palavra mais adequada para definir tudo que obtive com a prática regular e disciplinada do yoga. O yoga limpou minha respiração, tornou-me mais flexível e leve, mais equilibrado e atento e proporcionou-me a disciplina necessária para querer sair da cama antes das 6 da manhã para transpirar sobre uma esteira de borracha sintética. Logicamente isto é o começo — o começo de uma prática e o começo do dia — e falando assim tudo pode parecer superficial demais. Mas não é. As práticas e transformações são reflexos de práticas e transformações interiores e invisíveis. Não se trata aqui de uma presunção sobre o próprio progresso (algo que raramente pode ser avaliado desde dentro), mas da constatação de algo obrigatório: a prática dos asanas (as posturas do yoga) exige atenção constante sobre o próprio corpo e esta atenção estende-se para além dos limites físicos do indivíduo. É impossível, portanto, praticar o yoga como algo meramente físico.

Embora pratique sozinho e com regularidade, sei pouco — leio muito, colho informações aqui e ali, recebo orientação valiosa de uma amiga que domina a arte, observo as reações de meu próprio corpo a cada exercício e assim tento construir um repertório para que não haja repetições enfadonhas demais e para que a prática traga mais benefícios do que o simples desenvolvimento muscular e articular.

Não sei ao certo há quanto tempo estou praticando. Faz pouco tempo. Trata-se de uma descoberta recente. Não estou contando o tempo que passou, mas o tempo que falta para a próxima manhã e para mais um treino. Durante a prática também não conto o tempo que falta para encerrar a sessão, apenas percebo o sol nascendo e a luz da manhã se modificando lentamente. E assim tem sido nas últimas manhãs e assim será nas próximas.

*
Estudo acadêmico e yoga não são necessariamente opostos. A felicidade que o yoga me proporciona é consideravelmente maior do que aquela proporcionada pelo estudo acadêmico. Às vezes, confesso, sinto dificuldades em associar o estudo acadêmico à palavra «felicidade». Há satisfação, sem dúvida, porque satisfaz concluir um trabalho extenso e de longo prazo. Mas dizer que algo «satisfaz» é o mesmo que dizer que é «satisfatório», que por sua vez é o mesmo que dizer que esse algo é «medíocre».

Você deve se lembrar da época — em seus primeiros anos escolares — em que as provas eram avaliadas com conceitos, não com números. Sua professora escrevia «muito bom!» ou «precisa melhorar!», sempre com um ponto de exclamação e com letras redondinhas. «Satisfatório» era uma das anotações possíveis nas provas dos primeiros anos escolares.

Mas, como eu dizia, as duas atividades a que me dedico com mais freqüência atualmente não são necessariamente opostas. A academia me fala de superfície, de dedicar-me a algo que não sou eu, que pouco tem a ver comigo. O yoga me ensina o oposto: eu sou meu próprio laboratório, eu sou o aço bruto que deve ser temperado todos os dias sob o calor da prática disciplinada e intensa. Estudo acadêmico e yoga, assim, complementam-se e revelam duas faces de uma única coisa. Esta «coisa» sou eu mesmo. Sou eu que desenvolvo a pesquisa — que, afinal, não é para mim, mas que ao mesmo tempo exige o meu trabalho, a minha dedicação e o meu esforço; a ela devo me dedicar com alguma atenção e com aquela fé a que me referia uns parágrafos antes. Sou eu que pratico yoga todas as manhãs, mas a prática não é um capricho ou uma vaidade, um desejo simples de manter-me em forma; torno-me melhor através da prática do yoga de forma a tornar-me melhor para outras pessoas.

Embora o estudo e o yoga não tenham qualquer semelhança, eles têm diferenças que permitem aproximá-los de modo a que uma coisa complemente a outra ou, ao menos, de modo a que um mostre no outro aquilo que lhe falta ou que lhe sobra.

Ao estudo acadêmico falta — por sua própria natureza — a consciência individual que move o yoga. A consciência individual nas ciências consiste em tornar-se permeável àquilo que a realidade mostra e reportar isto através da pesquisa. A consciência individual no yoga consiste em ver tudo o que acontece — dentro e fora de si — e usar essa visão na prática dos asanas (posturas) e princípios do yoga e na vida diária. Na pesquisa científica deve-se evitar dizer «eu acho que…». No yoga é quase uma obrigação fazer juízos de valor e usar este juízo como um dos elementos da prática diária, investigando-o em seus detalhes em vez de tomá-lo como base para o que quer que seja. No yoga é pequeno o risco do juízo tornar-se ou originar preconceitos ou conduzir o sujeito a um maremoto de empáfia e vaidade. O yoga é muito mais humano do que a pesquisa científica, na medida em que reconhece a inclinação da maioria das pessoas no sentido de julgar — outras pessoas, o mundo todo — e toma essa inclinação como ferramenta de um processo maior do que o simples juízo. O estudo acadêmico pretende para si uma isenção irreal e impossível.

Mas é bom lembrar, neste ponto, que tudo o que digo aqui é sobre mim, não sobre o estudo acadêmico do lugar onde estou, muito menos sobre o estudo acadêmico e as ciências de um modo geral. E o que sei de yoga são sensações de uma prática e de um estudo incipientes. Para mim, um pressuposto do estudo acadêmico é acreditar na existência de pessoas capazes de conciliar coisas tão diferentes como a prática do yoga e a necessidade de cumprir prazos numa instituição de ensino superior, ou práticas superiores e ascéticas e a necessidade de pagar contas e posicionar-se socialmente. Eu busco isso, mas por enquanto não vejo como encontrar uma boa solução para esse impasse sem recorrer à simplicidade estúpida de eliminar um dos lados. Talvez por isso tenha decidido abrir janelas. Talvez por isso tenha decidido compartilhar parte de minha vida aqui.

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(imagem obtida aqui)

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7 comentários sobre “Janelas abertas

  1. Que texto inspirador, ensina como é difícil e ao mesmo tempo simples esse alinhamento que você busca e já está encontrando. Parece que além, ou junto da prática de yoga e do mestrado vai se revelando uma paisagem de muita luz.
    Valeu por dez postagens!

  2. Olá Christian,
    Muito obrigado por compartilhar.
    “O estudo acadêmico pretende para si uma isenção irreal e impossível.”
    Sempre me pergunto isso. Na área jurídica, então, a busca por uma suposta neutralidade e imparcialidade absoluta é de uma infantilidade intelectual extrema. Apesar disto, são “qualidades” pregadas pelos quatro cantos.
    Julgar sem julgar. Vai entender…

  3. Parabéns pelas palavras e sensações que você coloca em seus textos, em especial este. É realmente interessante como nos simples detalhes das nossas ocupações conseguimos obter tamanho aprendizado. Através de introspecções e reflexões, é possível que nos tornemos capaz de aprender a cada dia.

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