Mente, corpo e o exercício da atenção

o-sensei

Conversamos no treino de ontem a respeito das relações entre corpo, mente e centro. Nosso sensei destacou a importância do uso do centro nos movimentos e nas técnicas e um de meus amigos perguntou-lhe se o que se move é o corpo ou o centro.

Pedi licença a nosso sensei e respondi que as diferenças entre mente, corpo e centro surgem por razões muito didáticas, surgem porque simplesmente não entenderíamos esses elementos se não os tomássemos dessa forma, como elementos estanques. É uma necessidade muito humana a de esmiuçar coisas que só existem inteiras. Não existe, por exemplo, corpo e mente separados. Não existe centro e corpo como partes distintas, mesmo que de uma única coisa, pois o centro do corpo jamais pode ser visualizado ou vislumbrado como tal, como um ponto geometricamente perfeito e passível de reprodução por outras vias (gráficas, por exemplo). E, portanto, não existe o movimento do corpo e o movimento do centro: quando um se move, o outro também move-se porque os dois são uma única coisa.

Colocações semelhantes podem ser feitas a respeito do par corpo-alma. A não ser em histórias de fantasmas, não existem o corpo e alma como coisas ou entidades separadas. Ter alma significa ter corpo. E mesmo que se assuma a existência de fantasmas, não se sabe ao certo o que eles são, se são “almas sem corpo” ou se são alguma outra coisa, já que tanto se fala de lençóis brancos esvoaçantes e visíveis e, portanto, com alguma existência física.

Neste sentido, a união mente-corpo, tal como proposta por artes como o aikido e o yoga, é um erro semântico perdoável. À medida que crescemos e nos desenvolvemos, assumimos e cristalizamos a idéia que diz que somos um corpo dotados de mente e de espírito. E assim não vemos problema em comer apressadamente comida ruim, desde que sejamos justos e bons; ou não vemos problema na ruindade e na má-fé, desde que possamos sempre dedicar uma hora diária a exercícios físicos intensos. Quem vive dessa forma de fato possui um corpo, uma mente e um espírito — mas separados, desunidos e freqüentemente conflitantes.

O que o aikido, o yoga e outras artes e práticas propõem não é a perfeição física ou o simples domínio de técnicas admiráveis, mas o desenvolvimento da atenção permanente. Reconhecendo as imperfeições do corpo, o indivíduo pode corrigi-las e perceber as imperfeições da mente. Ao corrigir as imperfeições da mente, ele perceberá as imperfeições do espírito. Ao corrigir as imperfeições do espírito, ele perceberá que não existe corpo, mente e espírito, mas uma única coisa, o próprio indivíduo, íntegro e em permanente comunhão com Deus.

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Imagem obtida aqui.

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3 comentários sobre “Mente, corpo e o exercício da atenção

  1. Comentário de meu amigo Gilvan, que infelizmente não havia sido publicado por algum problema técnico neste site:

    “aikidô e yoga são caminhos para retornarmos à natureza da qual nos perdemos. a prática do aikidô, para mim, é uma ferramenta para retomar algo que eu não precisava ter perdido: a unidade.”

  2. É bastante conforme a o que eu li recentemente no blogue do Padre Zhulsdorf: não somos “meat machines with a soul”. A alma e o corpo são indissociáveis, isso é óbvio. Assim como o branco e o duro do arroz.

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