Coligações e outras sujeiras

coligação

Não fossem cômicas, seriam um pouco trágicas para o município as coligações e parcerias que têm sido formadas para as eleições deste ano. Não digo com isso que certas inimizades políticas devam ser mantidas eternamente ou que não possa haver convergência de interesses. As pessoas mudam, os objetivos mudam e a conjuntura muda e indica direções diferentes daquelas observadas nas eleições anteriores.

O que impressiona é perceber que não houve mudanças conjunturais significativas. As pessoas continuam as mesmas e os objetivos são iguais aos da eleição passada. A despeito disso, os dois sujeitos que ontem não se bicavam, hoje aparecem nas fotos como melhores amigos — unidos para conquistar o poder público municipal. Aqueles outros dois sujeitos, que já trocaram ofensas pessoalmente ou através da imprensa, hoje trocam alianças e seguem de mãos dadas para o pleito de outubro.

Estas coisas acontecem não porque essas pessoas perceberam afinidades irresistíveis que as obrigam a unir forças. O que realmente impressiona não são as coligações, mas o oportunismo descarado, a facilidade com que políticos — alguns razoavelmente inteligentes e esclarecidos — afrouxam princípios e abandonam ideais em nome de uma conquista que pode se revelar tão suja quanto suas próprias intenções neste momento.

Ora, se a afinidade que leva às coligações fosse genuína não haveria razões para a existência de 27 partidos políticos e de outros 19 ainda em processo de registro. Eu duvido que possa haver 46 formas diferentes de lidar com os problemas brasileiros. Diante de questões como a violência urbana e a poluição ambiental é praticamente impossível encontrar 46 soluções divergentes desde a raiz. E se há convergência de idéias, ideais e soluções, sobram motivos não para coligações, mas para uniões mais completas e permanentes — e, claro, menos partidos. Afinal, o interesse público é um só. Nestas condições, a democracia seria feita de diálogos inteligentes, não de eleições, de votos e da impessoalidade de urnas eletrônicas e zonas eleitorais.

Se não há qualquer afinidade entre políticos e partidos, os 46 partidos estão automaticamente justificados e estão automaticamente anuladas as razões que levam às coligações. O político dotado de um mínimo de ética e bom senso teria razões de sobra para manter-se fiel a seus princípios — e deixar o partido ao menor sinal de que suas bases éticas se desfizeram.

Eu não sou ingênuo a ponto de acreditar que as coisas podem ser assim, radicais, sérias, com uma espécie de rigor, honra e ética só vista em samurais, iogues e cavaleiros medievais — não aqui no Brasil, não aqui em Ilhabela. Mas não custa sonhar com a possibilidade de surgir um sujeito assim, que se pronuncie em favor da coerência; que, mesmo considerado teimoso e repudiado pela opinião pública, leve até o fim aquilo em que acredita; que, caso mude de idéia, seja capaz de justificar suas mudanças não pelos interesses de ocasião, mas pela súbita percepção da Verdade, que será mostrada em linhas e cores claras e notáveis; que não hesite em cortar a própria carne, não porque isso causará boa impressão para os eleitores, mas porque sua fidelidade à nobre Verdade assim o obriga, mesmo sob o risco de tornar-se politicamente nulo.

Mas nenhum político quer encontrar a Verdade e tornar-se politicamente nulo. Os objetivos são bem outros e eles serão levados a cabo, mesmo que em detrimento de interesses públicos que ultrapassam com folga uma simples carreira política. Para essas pessoas, nomes, legendas e coligações valem muito mais do que Ilhabela.

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Artigo publicado no jornal Canal Aberto em 27 de junho de 2008. Imagem obtida aqui.

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