Place to be

serra minas gerais
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Passar alguns dias numa pequena cidade da região serrana de Minas Gerais é o que algumas pessoas chamariam de “choque de realidade”. A expressão não é adequada porque pressupõe que a vida nas cidades grandes não é real ou é “menos real” (descontada a imprecisão desta expressão) do que aquela que pode ser vivida em cidades pequenas. Por mais presa ao mundo dos negócios, por mais escravizada pelo medo e pelos congestionamentos que uma pessoa esteja, ela vive — e não me ocorre nada mais real do que pressa, trânsito, assaltos, multidões, prazos, carreiras e ônibus lotados.

Apesar disso, existe algo na realidade daquela pequena cidade mineira que a torna especial diante da realidade monocromática de algumas cidades grandes. A comparação não é totalmente injusta; basta olhar para as pessoas, não para o tamanho das avenidas. Duas cidades irremediavelmente diferentes assemelham-se naquilo que têm de mais simples e essencial: pessoas. Basta olhar para elas e para si mesmo e perceber o comportamento, as expressões do rosto, a respiração e, talvez, os pensamentos em cada um desses ambientes. Acordar com barulhos de bois, com as araucárias ao vento, com a luz fria e acolhedora das manhãs — tudo isso é naturalmente bom, mas melhor é perceber cada uma dessas coisas em si mesmo e nas outras pessoas.

O que torna um lugar especial é justamente a forma como ele estabelece uma ligação com aquilo que realmente está vivo no indivíduo — e que quase sempre permanece escondido ou entorpecido. Cidades grandes demais são lugares ruins porque quase tudo obriga as pessoas a usar armaduras e a andar como se estivessem num campo de guerra. Em lugares assim, as pessoas mais atentas são capazes de ouvir o espírito da cidade sussurrar “saia logo daí” cada vez que dobram uma esquina ou sobe num ônibus.

Vivos todos somos. Sentir essa vida ao redor e expressá-la pelos poros como eco daquilo que foi sentido e absorvido não são coisas que acontecem sempre. São momentos especiais, vividos em lugares especiais, que deixam dúvidas sobre nossa trajetória até hoje e daqui para diante.

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O título do post é o mesmo de uma música de Nick Drake, cuja letra pode ser lida aqui. Não costumo pensar em trilha sonora quando e para o que escrevo, mas “Place to be” soa bem a qualquer momento, inclusive agora.

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6 comentários sobre “Place to be

  1. Parabens Christian, você conseguiu expressar o que é a Gonçalves que sinto no fundo da alma .
    Falou tudo sobre a cidade, se referindo muito pouco sobre ela.
    Coube a nós pessoas e a loucura de onde vivemos expressar a cidade.

  2. Bom demais, tudo o que vc sentiu foi bom demais, e nos sentimos confortados com suas palavras em nome da nossa cidade, Parabens e Feliz Natal , aqui é realmente a “Pérola da Mantiqueira”

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