O bife do churrasco eleitoral

berrante
Chamando para a festa da democracia. (link da imagem)

Eu emburreço em ano eleitoral. Na verdade eu emburreço um pouco todos os anos, sinto-me cada vez mais idiota, incompetente e inútil. Vejamos: ando numa praia e vejo um sujeito passeando com seu delicado pitbull; peço a ele para deixar o cão em casa e obtenho como resposta uma palavra tão delicada quanto o animal de coleira; informo as autoridades competentes sobre o fato e obtenho como resposta um silêncio constrangedor; informo a mim mesmo sobre a inutilidade dos meus pedidos e obtenho como resposta do subconsciente o imperativo “desista, não é tão sério assim”. Processo semelhante ocorre quando vejo praias sujas, o trânsito cada vez mais maluco e infestado de imbecis, a indiferença conveniente de muitos veranistas e a boçalidade que predomina nos debates do lado de cá do Canal de São Sebastião. As etapas e os processos são os mesmos e todos me dizem que não existe problema sério ou importante demais que mereça os vincos da minha testa. Afinal, se tantas pessoas ignoram o que é errado, talvez o erro não seja assim tão sério.

Ano eleitoral é um caso à parte. O que mo torna especialmente emburrecedor é perceber o erro como regra e a impossibilidade de manter-me longe dele. Panfletos e carros de som estão em toda parte. Com freqüência odiosa as carreatas e os comícios alteram a rotina da cidade, espalhando um discurso que nem de longe ecoa as palavras de um Ruy Barbosa, de um José Bonifácio, de um Monteiro Lobato — para citar apenas três pessoas que de fato conheciam este país. Aos poucos desisto de cobrar com meu discurso e com meu voto a sabedoria dos antigos e agradeço o fato simples da maioria dos candidatos ser alfabetizada; torno-me cada vez menos exigente e não tardarei a adotar critérios muito pessoais para escolher um candidato. Daí a trocar meu voto por um punhado de telhas e meia dúzia de apertos de mão, é um pulo. Se me ajudou ou ajudou minha família, está eleito.

O abismo político em que a maioria das cidades brasileiras se encontra constrói-se desse jeito. O primeiro passo é deparar-se com a ineficácia dos nossos atos diretos. O segundo passo é perceber a incompetência e a mendacidade dos órgãos competentes e o vazio onde nossos pedidos são lançados. O terceiro passo é anestesiar o senso crítico e em seguida jogá-lo no lixo. O quarto passo é achar tudo isso normal, desistir de cobrar qualidades e votar no “menos ruim” ou naquele que me beneficiou diretamente.

Os rebanhos eleitorais formam-se dessa forma. Somos bois, não somos eleitores. Ainda que a moda dos currais eleitorais tenha enfraquecido, os candidatos continuam procurando rebanhos e fazendo promessas que soam como música para os ouvidos daqueles que ainda prestam atenção nas campanhas. Os berrantes eleitorais mudaram de nome e de tom, mas continuam marcando o compasso das eleições, sobretudo as municipais. Eu emburreço quando percebo que pouca coisa mudou desde o retorno das eleições diretas, mais de duas décadas atrás.

Há quem acredite que a ignorância é uma bênção e vote apostando que o futuro prefeito e os futuros vereadores saberão pensar por nós. Se tudo convida ao emburrecimento, melhor é refestelar-me na escuridão e confiar naqueles que tanto querem cuidar desta cidade. O problema é que, mesmo que eu dispusesse daqueles três potentados (Barbosa, Lobato e Bonifácio) entre os candidatos, eu não saberia reconhecê-los, tampouco teria a certeza de que eles estariam me conduzindo na melhor direção. Eu não saberia nada — e a ignorância é o caminho mais curto para aceitar bovinamente qualquer golpe de chicote e tomar qualquer matadouro como doce lar. Graças à minha crescente burrice como eleitor, meu destino mais provável é virar bife no churrasco que os vitoriosos darão logo após o resultado das eleições.

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