Acima de tudo

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Na faculdade uma das lições mais interessantes e instigantes que tive foi aquela que falava da importância de elaborar um conceito para o projeto. Você não podia apenas desenhar uma casa. Ela poderia ser linda, interessante, diferente, mas precisava ter um conceito. Não que fosse sempre necessário justificar as opções de projeto, mas, se o professor perguntasse o porquê delas, as piores respostas seriam “não sei” e “porque eu quis”.

Ter uma justificativa razoável revelava que o estudante compreendera o exercício de projeto que lhe foi proposto e possuía um conceito norteando as escolhas e a forma como as diferentes partes do projeto podiam se conectar e se harmonizar num conjunto que, afinal, seria bem sucedido.

Lembro que alguns alunos na ocasião traduziram “conceito” como “coerência” ou “coesão”. O conjunto é coeso quando suas partes se comunicam, isto é, falam o mesmo idioma. Esse idioma comum é precisamente o conceito.

Fora da arquitetura esse raciocínio é igualmente válido. Mesmo que você não pretenda fazer da sua vida uma obra de arte, não é difícil perceber como a idéia de conceito se manifesta através dela, através das diversas coisas que você faz ou planeja fazer. A diferença importante é que “conceito” remete a algo metafísico, muito distante das questões práticas do dia-a-dia, como se a vida não fosse vivida 24 horas todos os dias e tivéssemos algumas horas especialmente reservadas para ficar fora dela e pensar. Por isso existe a palavra “princípio”, que, pela sua própria etimologia, remete a algo que vem antes, que está no começo de tudo, antes mesmo de ações elementares e essenciais à vida.

Os problemas começam a surgir quando nos esquecemos da existência e da importância dos princípios ou quando os confundimos com regras. Regras não são princípios. Regras geralmente derivam de princípios. Se adoto o princípio que diz que a verdade é um bem, esforço-me para aplicá-lo em qualquer momento de minha vida e estabeleço uma regra: se me fizerem uma pergunta, não direi mentiras e só direi a verdade. As exceções a esta regra serão estabelecidas em função daquele princípio que julga que a verdade é um bem; a partir daí, diante da possibilidade de mentir, devemos ponderar qual o bem maior naquela circunstância. Por exemplo, quando a expressão da verdade pode custar a vida de uma pessoa, a mentira torna-se uma obrigação*. Isto ilustra a diferença entre tomar a verdade como um bem e tomá-la como um valor absoluto. Tomá-la como um bem exige avaliar qual é o bem produzido pela expressão da verdade; tomá-la como valor absoluto significa submeter até mesmo o bem à verdade.

Podemos pensar da mesma forma acerca de outros problemas que envolvem princípios, valores e códigos morais. Um exemplo comum é o senso de justiça, que é fortemente abalado quando é aplicado a nós mesmos. Se, por princípio, a justiça é um bem e é importante que nossas ações sejam justas (v. Aristóteles: dar a cada um aquilo que lhe é de direito), as coisas ficam um tanto complicadas quando somos vítimas de um crime; nestas circunstâncias é comum sacrificar a verdade e a justiça para obter compensações. O instinto de sobrevivência, que não chega a constituir um princípio, pode levar o indivíduo à vingança, para além dos limites racionais que a justiça propõe.

A adoção de uma regra só traz benefícios se houver um princípio definindo e sustentando essa regra. De outra forma, as regras criam déspotas irracionais, que não sabem reconhecer nelas os princípios que devem ser defendidos. Perdem-se assim os princípios e restam apenas regras que são aplicadas irracionalmente.

Isto ajuda a explicar o país em que vivemos. Já se disse que temos leis excelentes, mas que elas não são aplicadas. Todo o problema está em ter dedicado esforços excessivos para estabelecer regras (leis) sem que os princípios estivessem definidos e solidificados. Resulta disso um conjunto de leis vazias, inexeqüíveis ou danosas para a sociedade. Por exemplo, isto ilustra como os políticos brasileiros fazem as leis e como se destróem certos princípios, porque o que estava em jogo neste exemplo não eram vidros escuros. A partir disso as leis são criadas aos montes para defender segmentos específicos da sociedade; isto ocorre porque não se sabe o que ou quem é essa sociedade, tampouco quais devem ser os princípios comuns seguidos por todos. Um país com princípios jamais poderia adotar critérios raciais para estabelecer políticas públicas ou tratar com brandura quem afronta o direito de propriedade.

A maleabilidade de princípios não é apenas um problema social. Várias pessoas defendem o valor da honestidade mas não pensariam duas vezes antes de jogá-la pela janela caso essa defesa pudesse atrapalhar os próprios interesses. São raras as pessoas que admitem um erro, mas todas defendem que a responsabilidade é um valor fundamental.

Os exemplos são intermináveis. Todos ilustram uma mesma coisa: a importância dos princípios e a importância de se criar uma atmosfera de visibilidade sobre eles. O Brasil não possui uma cultura de princípios, mas de regras. O Japão possui o budo, o código de ética dos samurais; embora antiqüíssimo, serve de referência para os japoneses até hoje. Os Estados Unidos possuem sua Constituição, que, diferentemente da nossa, estabelece os princípios que regem o país, não regras ou leis. Obviamente, nestes dois casos, os conjuntos de princípios foram elaborados por gente que sabia do que estava falando e que de fato os compreendia e os aplicava em suas vidas.

O Brasil não tem princípios, é claro, porque as pessoas não os têm para si mesmas. As poucas pessoas que reconhecem o valor dos princípios são incapazes de tomá-los para si e aplicá-los em suas vidas. A idéia é ser implacável e rigoroso para consigo mesmo para só depois ser implacável e rigoroso com os outros. Os exemplos ensinam e educam mais do que as punições. Faltam, no entanto, pessoas que possam encarnar esse exemplo e ensinar com as próprias vidas e com as próprias ações. Faltam heróis.

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*Obs.: Que os espertalhões não me acusem de fazer apologia da mentira. Refletindo por alguns instantes sobre Verdade e expressão da Verdade pode-se entender do que é que estou falando. Em algumas circunstâncias dizer uma mentira pode ser uma forma de declarar a Verdade. Fundamental é ter consciência do que é a Verdade e, como dito ao longo do texto, saber quais são os princípios que regem sua vida e de que forma eles estão vinculados à Verdade.

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Um comentário sobre “Acima de tudo

  1. Muito bom mesmo…
    Eu sempre tentei escrever sobre isso e nunca encontrei o “fio da meada”. Fiquei feliz ao ver que você conseguiu. Sua “inspiração” foi iluminada…Parabéns.

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