Politicamente atrofiados

urna eletrônica
(link da imagem)

Apesar da massa comum que disputa as eleições a cada dois anos — gente como eu ou você, ou um pouco menos —, é comum também a idéia de que o sistema político é complexo, insondável e incompreensível. Até hoje eu não sei de quê são feitas as leis, de onde elas vêm, do que se alimentam, e raramente encontro quem possa me explicar todas essas coisas. Eu vejo o noticiário político e imediatamente me vêm à cabeça todas as profecias sobre o surgimento do Anticristo, que, afinal, não é uma pessoa, mas um sistema, uma massa ou um labirinto. O nome desse labirinto é política. Candidaturas são a expressão do desejo de encontrar a saída desse labirinto e depois cobrar ingressos para que outras pessoas possam refazer o caminho dentro dele. O voto é uma espécie de aposta que se faz na capacidade daquele sujeito encontrar a saída do labirinto, mesmo quando ele está visivelmente mais perdido do que todos nós.

O fato da política ser muito complexa é um estímulo para que mantenhamos distância dela. Só nos aproximamos da política através da única forma universalmente acessível: apertando botões, à maneira dos imperadores romanos que erguiam ou baixavam os polegares para condenar cristãos. Eleitorado é claque, veja só: você vaia, eu rio, ele aplaude, ninguém se entende e ninguém entende que raios, afinal, é uma democracia.

A miséria intelectual das eleições é tão antiga e tão marcante que eu corro ao dicionário para conferir o que diz o verbete para “eleição”. Surpreendo-me por não encontrar nenhuma associação entre “eleição”, “estupidez”, “mendacidade” e “songamonguice” — estas três palavras fazem parte da essência mesma das eleições. Além disso, o que me preocupa nas eleições é a certeza de que a participação política se encerra poucos dias depois do resultado oficial. Apertar botões numa urna eletrônica é o máximo da participação política que a maioria das pessoas aceita. É claro que essa preguiça crônica é causada também pela complexidade da democracia, da política, das eleições. Há tantas e tantas variáveis envolvidas na condução dos interesses públicos que para manter-se mentalmente saudável a maioria das pessoas aceita bem a idéia de participar apenas apertando botões. O problema é que isso dura alguns segundos; as conseqüências dos botões apertados estendem-se por quatro anos.

A desproporção entre as poucas semanas do período de campanha eleitoral e os quatro anos que vêm depois me leva a perguntar se o TSE pretende colocar a Lavínia Vlasak na TV fazendo campanha pró-consciência política durante os dois anos que nos separam da próxima eleição, em 2010. Eu duvido. Duvido que alguém faça uma campanha sobre a importância de ir à Câmara Municipal de sua cidade, de manter contato com os vereadores e fiscalizá-los, de acompanhar cada ação do prefeito de sua cidade, de buscar informações sobre a administração pública e sobre a elaboração e a execução de leis. Disso ninguém fala e ninguém vai falar, nem a mídia, que adora patrocinar a festa da democracia.

No que diz respeito às questões que afetam a cidade onde moro, eu não gosto de esperar. Mais dois anos para exercitar a consciência política novamente? Me poupe. Experimente deixar uma engrenagem dois anos sem funcionar. Experimente deixar um músculo dois anos sem se mover. Se depender das campanhas do TSE, dos próprios políticos e da imprensa, ficaremos todos mental e politicamente atrofiados, apostando na terrível idéia de que o máximo que podemos fazer é votar e esperar a próxima eleição para mudar algo que pode ser mudado aqui e agora.

Publicado no jornal Canal Aberto em 24 de outubro de 2008.

Anúncios

3 comentários sobre “Politicamente atrofiados

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s