Porque é bom

Para ser bom não basta querer ser bom. É necessário querer ser melhor, percebendo sua própria insuficiência. Não é necessário tratar a si próprio como se fosse um imprestável; basta perceber que você ainda não chegou lá e que estar lá é bom.

Você pode achar que chegou lá. Você pode satisfazer-se momentaneamente com aquilo que diz, pensa e faz, mas só momentaneamente, porque no minuto seguinte você precisa despertar e perceber as próprias imperfeições, pegar novamente na marreta e voltar a quebrar pedras.

Obviamente os referenciais precisam ser bons — perfeitos, se possível. E nem é preciso perder tempo discutindo perfeição blablabla, porque num mundo que tem soap operas, motocicletas pá-pá-pá e requeijão em copos de plástico não é muito difícil saber o que é perfeito e o que não é.

Não adianta comparar-se com a versão de você nos anos 80, porque nos anos 80 nada era bom de verdade:

mullets
(Não é possível, além de tudo o cara é daltônico)
(link da imagem)

No passado você sempre era pior e o mundo era melhor. Hoje você sempre é melhor e o mundo é pior. O problema é que essa lógica abestalhada ajuda pouco em nossa (nossa sim, cara pálida) trajetória rumo a uma melhor versão de você. A crença de que o mundo era melhor décadas atrás nos torna nostálgicos. A crença de que hoje somos melhores do que éramos décadas atrás nos torna cretinos. Nos dois casos terminamos no sofá — vendo a VH1 ou rindo de nojo da desgraça alheia em qualquer telejornal.

Encontre coisas que você admira e que você sabe que nunca conseguirá ser ou fazer. Por exemplo:

krishnamacharya
(Perceba que não adianta dizer: “ah, vai, a foto está de cabeça para baixo!”)
(link da imagem)

Ou ainda:

morihei ueshiba
(O velhinho aí já passou dos 80)
(link da imagem)

Ou mesmo:

jardim das aflições
(Se você não entende o mundo, é porque não leu este livro e não conheceu as idéias desse pensador)
(link da imagem)

Assim como você é imperfeito, ó pagão, sua inteligência também é imperfeita. Quando você pensa que sabe, na verdade existe uma brecha nessa afirmação que lhe permite pensar, mesmo que movido por lapsos de auto-piedade (cuidado, seu fresco), que nem tudo está perdido. E, sim, um dia você não só pode como vai chegar lá, porque essas obras são humanas e você, afinal, também é gente (ok, não tanto quanto a iogue, o samurai e o pensador).

E assim, com alguma esperança de que dê tempo de fazer 1/10 daquilo que você tanto admira nos mestres, você segue. Você fala algumas asneiras, você se engana muito, você diz a si mesmo que disciplina e indisciplina são abstrações (ah, os eufemismos…), mas mesmo assim você segue.

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Um comentário sobre “Porque é bom

  1. por menor que seja cada coisa deste mundo sabe seu lugar, sem temer sem pensar, sem tentar mudar sendo o que é, menos nós.
    ai esta nossa angustia e sofrimento.
    não sabemos quem somos, nosso lugar e nem do porque de vivermos ou porque devemos morrer.
    Assim na maior cara de pau do mundo cheios de incertezas ficamos certos de tudo, não importa a idade nem a quem seguimos, a inconstância de nossa alma nos fere e nos revela.
    cada exemplo bom que tentamos seguir somente teve aceitação como o velhinho nunca quis ser o aikido mas sim viver sendo.
    Quando conseguirmos ser de verdade qualquer coisa encontraremos a verdadeira paz e felicidade, porque procuramos tão longe e ela esta dentro de nós.
    isso tudo pode não servir para nada a quem lê mas serve para quem escreve.
    vejo que na bondade também se esconde muito egoismo, o perigo não é quem rosna e sim quem acaricia.

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