Razões para praticar

aikido
(link da imagem)

O principal problema de seguir artes ou caminhos espirituais é também sua principal qualidade e o que leva muitas pessoas a procurá-los: a falta de compromisso com a realidade. Não quero dizer com isso que essas artes — como por exemplo o aikido, o yoga ou o kung-fu — sejam alienantes; é fácil reconhecer um praticante alienado: normalmente ele é aquele sujeito que fala o tempo todo da arte que pratica, e fala como se nada mais importasse para sua vida e para vida dos outros. Estes casos são excepcionais e, geralmente, patológicos. O que importa aqui são as pessoas normais, sensatas e atentas à realidade, pessoas às quais não associamos desvios como alienação e arrogância. O que quero dizer é que mesmo nestes casos, mesmo para estas pessoas, essas artes trazem alguma dose de alienação e de deslocamento da realidade.

A maioria dessas artes surgiu numa época em que elas eram necessárias. As artes marciais, por exemplo, surgiram como uma resposta a uma questão de sobrevivência e seu valor residia justamente no fato de que eram uma boa resposta. Esse valor ainda existe, mas a importância de uma arte marcial para a sobrevivência de uma pessoa mudou bastante ao longo dos séculos. Embora haja muitos casos em que o domínio de técnicas de defesa pessoal tenha ajudado uma pessoa a escapar de situações de grande risco, o número de pessoas que se beneficia delas de formas completamente diferentes é muito maior.

O sentido original das artes marciais mudou, o que não impede que elas sejam praticadas com as justificativas de outrora. Fala-se na importância da eficiência em combates como se a vida do praticante sempre dependesse disso; este discurso apenas esconde a importância que se dá ao poder de derrotar um oponente ou a troféus e medalhas, ou esconde o prazer de se meter em enrascadas para se auto-afirmar. Não é a vida do praticante que depende da arte marcial, é seu ego e sua pequenez que dependem.

Há sentido em praticar uma arte marcial com base em argumentos que nada têm a ver com a realidade de hoje? Pode haver, porque muitas vezes as escolhas são uma questão de gosto; mas vale a pena investigar melhor a distância entre essas escolhas, as motivações que levam a essas escolhas, as exigências do mundo atual e a oferta que a arte realmente representa para o mundo e para o indivíduo.

Olhando atentamente essa distância sou levado a crer que ela é muito maior do que a maioria de nós imagina. Ela é grande a ponto de as relações entre escolhas, exigências e ofertas serem abstratas demais para serem levadas a sério. Em outras palavras, o que relaciona as escolhas pessoais, as necessidades e aquilo que as artes realmente têm a oferecer é filosofia vã ou discurso extravagante — vulgarmente conhecidos como papo de boteco.

Há pessoas que justificam suas práticas com o argumento do bem-estar. Com isso esquecem que poderia ser mais fácil e simples evitar o que lhes causa mal-estar. Nestes casos a arte é praticada como uma compensação para as pessoas que estragam suas vidas na maior parte do dia, com uma vida regada a sedentarismo, poluição e outros padrões degradantes de vida.

Há pessoas que justificam suas práticas com o argumento da espiritualidade, o que é muito contraditório: reconhecer a dimensão espiritual da vida e o valor espiritual da arte implica dedicar-se a ela até que ela o conduza para além dos limites da superfície (mente e corpo). Não podemos buscar algo cujo valor nem mesmo intuímos. Quando falamos de espiritualidade, referimo-nos na verdade a um tipo muito específico de bem-estar — um friozinho na barriga, uma sensação de relaxamento anormalmente agradável ou um silêncio interior que também torna a visão mais clara e iluminada. Não sei se isso é espiritualidade; o problema é que quem busca essas artes para encontrar espiritualidade também não sabe.

A espiritualidade pode ser a causa de nossa ligação com uma arte marcial da mesma forma que a promessa de ir para o Paraíso pode nos levar a unirmo-nos a uma igreja. Pode ser a causa — e geralmente é –, mas não explica muita coisa e, além disso, frustrações sérias ocorrem quando o indivíduo desconfia de que aquele pode não ser o caminho desejado.

Muitas dessas artes não se propõem a gerar bem-estar, embora gerem. Muitas também não pretendem levar o indivíduo à Iluminação (Ascese, Nirvana, Paraíso etc.), embora possam levar e expressem esse potencial em seus discursos.

Entre o desejo de aprender técnicas devastadoras e a promessa de atingir patamares mais sublimes, percebe-se que muitas pessoas treinam e ensinam artes marciais pelas razões erradas. O caso do aikido é emblemático neste sentido.

O aikido surgiu na década de 1940, fruto da pesquisa e do treinamento pessoal de Morihei Ueshiba. Depois de treinar diversas artes marciais, Ueshiba desenvolveu uma arte marcial fluida, não-competitiva e baseada no ki, a energia vital presente em todos os seres vivos. Uma das propostas do aikido é a dissolução de conflitos. Solucionar conflitos envolve basicamente três elementos:

1) Sobreviver diante deles, preservando a saúde, entendida aqui de forma ampla e útil
2) Controlar os conflitos da maneira mais rápida, econômica e segura possível
3) Finalmente, eliminá-los, também de forma rápida, econômica e segura, inclusive para o causador do conflito.

De um modo geral o aikido é bem sucedido nos três itens. Ele fornece um conjunto de técnicas para o desenvolvimento pessoal, que efetivamente permitem a sobrevivência do praticante em situações de risco — seja no combate físico real, seja em situações que precedem o combate, seja em situações mental e fisicamente estenuantes. O aikido também dá a possibilidade de compreender mais amplamente o que é o conflito, permitindo ao praticante preparar-se também de forma ampla para conflitos diversos, o que facilita a prevenção desses conflitos e a reação a eles. Por fim, o aikido também fornece um conjunto de técnicas de combate propriamente ditos, que permitem resolver os conflitos com eficiência quando todas as opções anteriores não forem suficientes.

Trata-se, de fato, de uma arte completa — física e mentalmente falando.

O que é estranho no aikido é a inclinação que muitas pessoas têm de ver somente aquilo que lhes é mostrado ou de procurarem somente aquilo que desconfiam ser verdade. Ora, o aikido não é feito apenas das técnicas mostradas em vídeos e mais vídeos no YouTube. Estas imagens, como as demonstrações dos mestres, enchem os olhos e alimentam o voyeurismo de muitos aspirantes e praticantes. É natural que se queira ser como aquele mestre e fazer o que ele faz, mas não é adequado tomar isso como único motivo para dedicar-se a uma arte.

Ao mesmo tempo, o aikido não chega a ser a promessa de serenidade, equilíbrio e harmonia presente em muitos livros e discursos, pois o treino envolve riscos e responsabilidades, que são constantes em todo o treinamento, independentemente do grau do praticante. A obrigação permanente de resolver questões elementares, como esquivar-se de um soco na cara, faz com que a dimensão espiritual do aikido permaneça adormecida em livros e discursos, ou reservada para aqueles momentos particulares demais para terem alguma influência importante naquilo que a arte realmente é.

Quem busca no aikido apenas um rol de técnicas de defesa pessoal fixa-se numa senda que afastará o praticante daquilo originalmente concebido por Morihei Ueshiba. Quem busca no aikido apenas a promessa de paz, harmonia e iluminação, fatalmente se verá insatisfeito com a infinidade de treinos em que as principais questões pouco ou nada têm a ver com esses três elementos. Por fim, as poucas pessoas que percebem essa ambigüidade — eficiência marcial versus valor espiritual –, jamais a resolvem: ou abandonam a arte ou praticam-na deixando o dúvida em segundo plano e adotam o discurso do momento, convertendo a ambigüidade em versatilidade, que evidentemente é falsa.

Processo semelhante ocorre com o yoga, que possui modalidades físicas que parecem ter pouco a ver com aquilo que normalmente se associa a um yogue. Não me estenderei sobre o yoga, pois sei pouco sobre o assunto. A impressão que tenho é que algumas ambigüidades presentes no aikido aparecem também no yoga, podendo esta arte ser praticada como exercício físico, como religião ou como filosofia.

Tanto no aikido como no yoga e em outras artes que possuem valores físicos, intelectuais e espirituais, o problema é a redução da arte a apenas um aspecto ou ênfase e a admissão de que a simultaneidade de aspectos distintos é uma característica dada, não uma ambigüidade a ser resolvida com a prática, o estudo e a pesquisa. Existem grandes diferenças entre o treinamento que aceita características dadas e aquele que encara essas características como elementos de um quebra-cabeça que o praticante deve resolver por si.

É claro que um dos objetivos do treinamento é resolver esse quebra-cabeça e a maioria dos instrutores tende a oferecer respostas prontas — aquelas que eles mesmos obtiveram. Mas o treinamento inclui também reconhecer que não existem respostas prontas ou que, quando parecem existir, elas não servem para as necessidades e interesses do praticante. Isto não prova nada contra a arte, ao contrário, prova que estamos tratando de criações preciosas, de artes que efetivamente podem conduzir o praticante a um maior conhecimento de si. Assim, ao conhecer a arte, ao pesquisá-la e estudá-la de diversas formas possíveis, o praticante não obtém apenas maior conhecimento sobre esta arte, como também sobre si mesmo. Ele percebe a universalidade daquilo que a arte propõe, mas percebe também a contribuição da arte para cada indivíduo, ao perceber a contribuição da arte para ele próprio.

O erro, no fim das contas, está em acreditar que o que arte propõe é mais uma atividade social, mais um recurso para lidar com conflitos externos, mais um meio de combate ao stress ou uma alternativa pouco ortodoxa às religiões tradicionais. Na verdade não é nada disso, embora a maioria dessas artes possa ser praticada e estudada dessas formas. Na verdade trata-se de compreender sua verdadeira natureza, de sintonizar-se com os princípios que permitiram que as coisas belas e boas existissem e florescessem e, enfim, de comunicar-se com Deus.

Naturalmente, não há sentido em dizer que há razões erradas na prática dessas artes — que o digam os milhares de estudantes de aikido e yoga, entre outras artes. O sentido está em não reduzir essas artes a uma de suas partes, em extrair delas aquilo que elas de fato têm a oferecer e em saber exatamente se o que o liga a essas artes não é algo que perecerá diante de pequenos obstáculos.

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2 comentários sobre “Razões para praticar

  1. É verdade Christian, este é um problema nem sempre reconhecido, e que pode ser a causa de um considerável conflito interior. Mas vejo por um outro ângulo: por exemplo, existem professores ( e praticantes ) de yoga que puxam muito nas práticas, e o efeito disso pode ser como um rapto, um afastamento da realidade cotidiana, dos valores até então bem estabelecidos. Se você pratica mesmo, este processo é inevitável. Mas eu não chamaria isso de alienação, ao contrário, uma prática efetiva torna a realidade ( sua e do mundo circundante ) nua e crua, e é nesse ponto que a maioria dos professores falha, pois é um momento sensível que exige muita integridade e clareza na orientação. Acredito que os maiores responsáveis pelos desvios são os próprios professores. Dar aulas de yoga é uma grande responsabilidade. Veja, existem sim casos patológicos, mas estes não se apresentam como você imagina. A pessoa pode se confrontar com bloqueios intransponíveis e representar uma dificuldade imensa para um professor.
    Alguns professores, evitando conscientemente tais riscos, dão aulas amenas e orientações bem terra à terra – o que de certa forma é uma sabedoria… Os maus professores vão querer trabalhar seus pontos fracos ( o que é diferente de mostrar as zonas adormecidas ) de um jeito francamente constrangedor. Isso causa embaraço e competitividade, o enfoque ficando muito aquém do verdadeiro objetivo – que acontece em níveis profundos, e é pessoal e intransferível. Um bom professor sabe disso, sua aproximação é sensível, sua prática é exigente e seu ensinamento inspira o estudo aprofundado.
    Não sei em relação às artes marciais, mas acredito que a prática de yoga tem muito a ver com a realidade de hoje. O nosso meio ambiente tem se tornado cada vez mais negativo e opressor, o yoga te recoloca em estado de abertura, de fluência – é sempre terapêutico e é nesse sentido que devemos nos orientar.

    Abraços,

    Eliane

  2. Muito obrigado, Eliane. Era tudo o que eu queria — e precisava — ouvir/ler.

    Eu sinto que no aikido essas coisas são mais difíceis, pois há ainda uma dúvida, uma ambigüidade entre “evitar o conflito” e “criar o conflito para dissolvê-lo”. Embora a maioria das pessoas venha para o aikido com diversos desequilíbrios e conflitos internos, há ainda a obrigação de simular esse desequilíbrio externamente, para então lidar com ele através do treinamento. Não parece uma atitude muito inteligente; trata-se de uma daquelas heranças do tempo dos samurais…

    No aikido os níveis pessoais e mais profundos ficam diluídos nos poucos momentos em que o praticante pára e respira conscientemente, entre uma técnica e outra. No geral e por muito tempo o que prevalece é uma superficialidade com lampejos de profundidade.

    Eu ficaria feliz se o aikido pudesse beber em fontes como a yoga.

    Obrigado, Eliane.

    Abraços.

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