Sólida instituição ilhabelense

fofoca
(link da imagem)

Não é a Prefeitura, não é a Câmara ou o Fórum. Também não são as rarefeitas tradições caiçaras ou a família ou o casamento ou o veranismo. A mais sólida instituição ilhabelense é o boato — também conhecido como fofoca, mexerico, fuxico, babado, tramóia, intriga ou, no jurídico, difamação.

Você certamente já ouviu um. Talvez já tenha ajudado a passá-lo adiante. Talvez até tenha feito isso sem perceber que se tratava de boato, apostando na veracidade do que ouviu e na possibilidade daquilo ser útil e bom. Só que tem um problema. Um não, vários. Entre provavelmente ser verdadeiro e útil e realmente ser verdadeiro e útil há uma grande distância. Se você não é um especialista, não testemunhou os fatos ou não ultrapassou o limite entre saber e ouvir falar, a única certeza que você tem é de que você não sabe de nada, ou sabe muito pouco. É impossível conhecer a verdade apenas pelos ouvidos; no máximo tem-se uma vaga noção do que é a verdade. E se o que você tem é vaga noção — não conhecimento genuíno —, resta ouvir em silêncio e cuidar da própria vida. Qualquer pessoa pode falar qualquer coisa e jurar com os pés juntos que aquilo é a pura verdade, mas isso não prova nada.

A eleição deste ano foi recheada de boatos; ela mostrou que a certeza é item secundário para muitas pessoas. Houve apenas uma certeza, revelada pelas urnas — a única certeza que importava e que efetivamente determinará o futuro da cidade. E mesmo assim os boatos continuaram e continuarão.

As pessoas esquecem que repassar um boato significa subscrevê-lo, tornar-se responsável por ele, acreditar em sua veracidade ao ponto de poder sustentá-lo diante de um tribunal. Trata-se de uma questão moral complexa e importante. Quando você aceita o boato e o repassa, você automaticamente está assumindo que o estudo e o conhecimento valem menos do que o telefone sem fio que fez o boato chegar até você — e, claro, valem menos do que o próprio boato. Repassar um boato é um passo para deformar moralmente a sociedade, pois a mensagem é clara: não é necessário estudar, não é necessário avaliar a realidade, não é necessário sequer ter experiências próprias ou testemunhar a realidade, basta ter os contatos certos, basta estar “antenado”. O problema é que essa antena só funciona com bombril, o telefone está sempre grampeado ou clonado e a conexão cai toda hora. Você não aceita imagens com chuvisco na TV, falhas nos downloads e interferências no celular, mas aceita o boato e o passa adiante. O boato é a realidade com chuvisco, falhas e interferência.

Você não precisa ser um cientista para provar a veracidade de uma informação obtida de forma irregular ou informal. Basta ter atenção, bom senso e princípios morais — o que me faz lembrar um dos textos mais antigos distribuídos na Internet. A história é mais ou menos assim: certo dia um discípulo veio até seu mestre para contar algo sobre outro discípulo. O mestre interrompeu o rapaz antes que ele começasse a contar sua história e perguntou se ele havia submetido a história ao teste das três peneiras: verdade, bondade e necessidade. O texto integral pode ser encontrado facilmente na internet, mas vale a pena reproduzir aqui o que o mestre diz sobre a primeira peneira: “A primeira é a peneira da verdade. Tens certeza de que isso que queres dizer-me é verdade?”. E você, leitor, tem certeza de que o que você ouviu é verdade? Tem certeza de que o que você pretende dizer é verdade?

Todo mundo confere troco quando sai do caixa e confere o tempo antes de sair de casa, mas não confere informações antes de passá-las adiante. Num mundo que tanto depende da informação, surpreende que sejamos tantas vezes enganados pelos boatos e o valorizemos tanto. O que acontece com uma cidade que dá mais valor aos boatos do que àquilo que está bem debaixo do nariz?

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