Cidadão pró-ativo

pró-atividade

No jargão do mundo corporativo, pró-ativo é aquele sujeito que se antecipa às ordens de seu chefe. O empregado pró-ativo (ou colaborador, eufemismo que alguns insistem em usar) está atento ao seu ambiente de trabalho, aos objetivos de sua empresa e não se limita às suas próprias responsabilidades. Ele pensa, ele fala, ele age. Ele se pergunta constantemente sobre como melhorar as coisas ao seu redor e planeja as ações nesse sentido. O empregado pró-ativo é o sonho de todo empresário.

Fora do mundo corporativo o indivíduo pró-ativo é bastante raro. Nossa cultura privilegia pouco os indivíduos pró-ativos — no colégio, você certamente já hostilizou o aluno CDF que perguntava tudo o tempo todo; ele era um pró-ativo. Nossa cultura premia a preguiça e o jeitinho, o que é o mesmo que punir a pró-atividade. Numa empresa ainda há quem duvide que todos os problemas são do diretor e tenha a iniciativa de trocar uma lâmpada ou sugerir soluções simples para problemas crônicos. Numa cidade poucas pessoas encontram motivos ou espaço para a pró-atividade; é muito mais fácil espernear do que contatar o poder público, agir por conta própria (dentro da lei, claro) e disseminar a idéia da pró-atividade entre seus amigos e colegas. É muito mais fácil ficar deitadão no sofá reclamando dos problemas da cidade do que ser um cidadão pró-ativo. Você reclama dos congestionamentos mas não é capaz de deixar o carro na garagem e usar uma bicicleta; você reclama das praias poluídas mas não é capaz de dizer para onde vai o esgoto da sua casa; você reclama de pessoas mal educadas mas não é capaz de agir com calma e civilidade quando se vê diante de um exemplar da espécie.

Por que o cidadão pró-ativo é tão raro? Primeiro porque ele não sente sua ligação com a cidade. A cidade é para ele um corpo estranho, incompreensível, não raro uma ameaça aos seus próprios interesses, um obstáculo a ser vencido. A maioria das pessoas não vive na cidade, vive apesar da cidade — e deseja viver em outra cidade, o que é muito comum onde há mais migrantes do que nativos.

Segundo, a cidadania pró-ativa é rara também por razões culturais: as pessoas não foram habituadas a questionar as próprias atitudes e não se vêem como causa dos problemas que as atingem. Logo, elas não se verão também como solução para esses problemas. Sabe aquela frase que diz “o problema não é meu”? Ela explica muita coisa.

Terceiro, historicamente o poder público achou muito bom que as coisas tomassem esse rumo. Cidadão pró-ativos são questionadores por natureza, são politicamente ativos, discutem, perguntam, agem. Qual governo — federal, estadual ou municipal — tem interesse em ver seus atos questionados e criticados publicamente com inteligência e coesão? Para prevenir isso o poder público recorre a diversos expedientes, alguns previstos em lei, outros elaborados sub-repticiamente: impostos altos que dão a impressão de que tudo será resolvido pela prefeitura, uma burocracia exagerada demais para resolver assuntos simples e importantes, uma gorda estrutura legislativa que confunde mesmo os mais atentos, a inacessibilidade a informações e às pessoas que efetivamente tomam as decisões. A lista de obstáculos oficiais é interminável.

Eu acredito que o primeiro passo para modificar esse estado de coisas (alguém tem dúvida de que isso precisa ser modificado?) está em admitir que sim, com toda a certeza, o problema é meu — e seu e nosso. Todas as pessoas que vivem nesta cidade deslocam-se pelas ruas e avenidas, fazem compras nas lojas e mercados da cidade, usam bancos e enfrentam filas, precisam manter os filhos na escola e pagar contas, gostam de ter praias limpas para lazer e diversão, querem transparência no trato das questões públicas. Embora muitas destas coisas dependam de ações do poder público, o cidadão pró-ativo sabe que estas ações dependem de sua própria influência, de sua atenção e de seu questionamento — e por isso influencia, presta atenção, questiona e age.

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Artigo publicado no jornal Canal Aberto em 21 de novembro de 2008. Link da imagem.

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