Feliz 1989

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Chega o fim do ano e inevitavelmente as pessoas fazem planos e balanços, que incluem uma análise dos meses que passaram, das ações e realizações. Realismo é sempre bem-vindo; não é possível querer já no próximo ano tornar-se o presidente de uma grande corporação se ao longo deste ano você nem sequer concluiu os estudos. As pretensões podem ser grandes, mas tudo tem seu próprio tempo. Entre concluir os estudos e tornar-se presidente de uma grande corporação existem etapas que precisam ser cumpridas necessariamente. O que diferencia o zé ninguém do sujeito bem-sucedido é essa noção de ordem dos fatores, de crescimento progressivo, de dependência daquilo que se realizou antes.

Quando vejo Ilhabela, penso que esta cidade está mais para o zé ninguém do que para o presidente de corporação. Mas somos um zé ninguém saudável, que faz três refeições ao dia, dorme bem e está em forma – falta a este lugar apenas o estudo, o bom senso, o pé no chão. Falta analisar com serenidade os meses e os anos que se passaram. Falta reconhecer as etapas não cumpridas e reconhecer nosso presente e nosso futuro como conseqüência inevitável daquilo que fizemos antes. Falta, é claro, a disposição para resolver o que foi deixado para trás.

Se para uma pessoa basta recuar no tempo um ou dois anos para perceber erros, acertos e lacunas, para uma cidade este número aumenta consideravelmente. Podemos recuar vinte anos, talvez, e relembrar como era esta cidade em 1989. Fique à vontade para pensar em como ela era antes ou depois disso. O que importa é perceber as diferenças entre Ilhabela de hoje e Ilhabela de antes. Não quero parecer nostálgico e não gosto de suspirar pelo que já foi, mas quando me lembro do lugar que vi em 1989 é impossível não perceber que estamos mal e não desejar estar lá, em 1989. Nossa trajetória claudicante contaminou as águas do Canal de São Sebastião, nos fez perder o título de cidade campeã de preservação e nos integrou definitivamente às estatísticas do crime no Estado de São Paulo. Algo se perdeu ao longo dos últimos vinte anos e não foram apenas as tradições caiçaras.

Dizem que a passagem de ano é um período de renovação. Eu ficaria satisfeito se os novos ares viessem do passado, se pudéssemos começar 2009 em algum momento de 1989, se pudéssemos buscar nessa época a inspiração para aquilo que faremos nos próximos meses ou anos. Logicamente, muitas condições eram diferentes. Em 1989, Ilhabela possuía menos da metade da população que tem hoje — o que significa menos da metade dos carros e das casas que possui e menos da metade do esgoto e do lixo que produz hoje. Mas seria um erro pensar que nossa única falha nestes últimos vinte anos foi crescer demais. A falha não é “o quê”, mas “como”. Uma população de mais de 25 mil pessoas pode ser uma bênção se a maioria delas estiver disposta a trabalhar árdua e decentemente por esta cidade, se a maioria delas tiver consciência dos problemas decorrentes do espírito explorador que se instalou no arquipélago há várias décadas, se a maioria delas desistir de garantir o seu, a qualquer custo, e começar a pensar nesta cidade e no que se pretende verdadeiramente para ela. Infelizmente — ou felizmente — não dá para garantir o seu e esperar que o restante continue bem.

Eu espero, sinceramente, que 2009 represente para esta cidade um olhar em direção do passado, um resgate daquilo que foi deixado para trás, uma atitude reverente em relação às coisas boas que se perderam ao longo dos últimos anos. Não é necessário abandonar as modernidades que a cidade conquistou, mas é interessante pensar no preço pago para ter estas coisas. Não é só dinheiro que gastamos nelas. Em muitos casos, gastamos coisas que não nos pertencem, coisas que dificilmente serão recuperadas.

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Artigo publicado no jornal Canal Aberto em dezembro de 2008.

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