Bons ventos


Nem a super-balsa agüentou o tranco desta vez.

Longe de mim amaldiçoar quem vem para Ilhabela para descansar ou se divertir — todo turista educado é sempre bem-vindo —, mas há pelo menos um lado bom em eventos como o que ocorreu logo após o Réveillon deste ano, quando a suspensão do serviço de balsas causou longas esperas para chegar ao continente.

Como todos sabemos, o problema na travessia surgiu em decorrência de um fenômeno natural. Foi uma coincidência infeliz: ventos fortes obrigaram o serviço de balsas a parar justamente numa das épocas de maior movimento, resultando em filas inacreditáveis e esperas de mais de oito horas. Algumas pessoas voltaram aos hotéis e pousadas onde estavam hospedadas; conformadas, perceberam que um dia sem balsa significa um dia a mais em Ilhabela e aproveitaram isso de alguma forma, mesmo com mau tempo.

Talvez isso tenha lembrado a essas pessoas que Ilhabela é uma ilha. Este fato — óbvio por si — lembra também que Ilhabela tem uma série de peculiaridades e fragilidades. Vez ou outra nós, moradores, ficamos ilhados. Estar aqui é lidar todos os dias com as oscilações do clima — e também com um custo de vida ligeiramente mais alto, com borrachudos, com os longos períodos de chuva, com algazarras de periquitos pela manhã, com jacas moles que explodem sobre carros mal estacionados, com uma certa lentidão ao lidar com questões que nas cidades grandes são urgentes. Estas coisas não afetam somente os moradores. A chuva incessante despenca igualmente sobre a pousada, a mansão e o antigo casebre caiçara — o que muda é a forma como o turista, o veranista e o caiçara vêem e sentem a chuva. Para alguns a chuva “castiga” ou “estraga o feriado”; para outros a chuva “abençoa”.

Sujeitar-se a estas coisas não implica uma submissão asinina aos mandos dos céus e dos ilhéus. Significa apenas despojar-se dos vícios metropolitanos, deixá-los do lado de lá e vir para Ilhabela com a xícara vazia — como dizem os budistas. Apreciar este lugar e reconhecer nele seu (cada vez mais raro) lado paradisíaco exige que se abandone o vício que sempre leva o sujeito a pensar em como seria bom construir uma pousada com a vista que ele vê naquele momento. Há variações nesse pensamento, mas todas elas começam com “como seria bom se eu fizesse/tivesse/construísse” e tomam Ilhabela como palco, cenário ou lote, nunca como berço, ninho ou lar. É uma pena. Ilhabela não precisa de pessoas geniais e voluntariosas. Ilhabela não precisa de música alta, de correrias (a não ser por esporte), de empreendedorismo, de crescimento e crescimento e crescimento. Ilhabela não precisa de quem pensa demais no futuro ou em si mesmo. A verdadeira genialidade consiste em esquecer-se de si e permitir que o lugar encha sua xícara. A verdadeira genialidade consiste em pensar no presente e respeitar o passado. É possível viver assim? É possível e fundamental.

No primeiro fim de semana de 2009, a solução mais genial para a fila recorde foi dar meia volta e aproveitar mais um dia em Ilhabela — em outras palavras, simplesmente estar no arquipélago. Quem permaneceu na fila já estava longe de Ilhabela, em algum lugar do continente.

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Um comentário sobre “Bons ventos

  1. Esse Al Bore …
    Deve estar em alguma ilha paradisíaca (eu queria escrever isso hoje …), usufruindo da grana que os trouxas (não muggles, por favor!) lhe repassaram, por conta daquela “verdade inconveniente” …
    Convenhamos, nem nosso verão está assim aquela brastemp, né? Não que eu esteja brava com isso, au contraire! ODEIO verão forte. Mas como está, tá bom prá mais de metro!

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