Preparando a própria forca

Esquerdistas acertam ao criticar os excessos de certos representantes do capital — que eles chamam de burgueses —, mas há algo nessa crítica que não é típico das esquerdas: a moral.

Não há nada errado em querer faturar alto, principalmente em épocas em que o dinheiro é escasso e as possibilidades de ganhá-lo são numerosas. Temporada de verão é uma dessas épocas cheias de perspectivas de alto faturamento, principalmente para quem vive do turismo (isto é, 99% da população de Ilhabela). Depois do Carnaval, como todos sabem, virá mais uma temporada de faturamentos mirrados e moscas. Obviamente, a condição para que se possam aproveitar as temporadas de verão é a existência de um mercado livre, onde monopólios, cartéis e concorrências desleais não existem ou pelo menos são evitados.

O problema é querer faturar alto de qualquer jeito. Aqui entra a moral. No caso de Ilhabela, é a moral que leva o empresário a explorar o turismo; a falta de moral leva-o a explorar o turista. A diferença é evidente, mas a confusão entre essas duas atitudes é possível quando o empresário não tem (ou não quer ter) a noção do que a moral representa para seu negócio. Ignorando a moral, o empresário não verá diferença entre explorar a atividade e explorar pessoas; logo estará explorando não só seus clientes, mas também seus funcionários e todos aqueles que de alguma forma poderiam ajudar seu negócio. No início isto poderá elevar o faturamento; com as burras cheias de dinheiro, o empresário pensará que está no rumo certo e continuará a explorar as pessoas. Eventuais problemas com clientes e funcionários serão tratados com a frieza necessária para enxotar e demitir, respectivamente — afinal, todos são livres para buscar outro estabelecimento para consumir ou trabalhar. Não haverá limites para enganar funcionários, modificar salários e contratos e, claro, sapecar calotes a três por dois. Com o tempo, as opções do caloteiro explorador diminuirão e o bom nome tornar-se-á cada vez mais rarefeito. Mas é surpreendente a tolerância que a sociedade tem com esses indivíduos.

A exploração e o calote, instituições sólidas para muitos empresários de Ilhabela, solapam a confiança que se pode ter no próprio mercado. Sem o senso moral e sem confiança, o mercado torna-se incapaz de organizar-se por si próprio. Logo, a única força capaz de manter essa organização e de organizar a sociedade será o poder público. O problema é que confiança e senso moral não se constroem desde fora, através da interferência política, e muitos políticos que se incumbem dessa tarefa não são exatamente exemplos de moralidade. Sob o pretexto de proteger o mercado é fácil entregá-lo a cartéis, oligarquias e ao poder público. Lênin dizia: “A burguesia tece a corda com que nós a enforcaremos”. Eis então a burguesia — empresários, comerciantes, profissionais — tecendo a corda e preparando a própria forca ao esquecer que a moral deve conduzir os negócios.

Há casos em que empresários justos são prejudicados por empresários absolutamente sem escrúpulos e também há casos em que estes se dão bem. O mundo nem sempre é justo. Mas é fácil perceber o tipo de mundo que resulta da combinação de justos injustiçados com canalhas premiados. A imoralidade envenena a sociedade ao ponto desse veneno se espalhar para setores que nada têm a ver com o livre mercado. Se setores elementares como o trabalho e os negócios são marcados pela imoralidade, qual o problema em abandonar a moral em setores considerados menos essenciais? Por exemplo, o que haveria de errado em cortar um punhado de árvores, em favorecer os amigos nas questões públicas, em despejar esgoto num córrego, em burlar impostos e números, em furtar miudezas?

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Publicado no jornal Canal Aberto em 6 de fevereiro de 2009. Link da imagem.

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