O ralo de Ilhabela

esgoto praia

Encha um copo com água, vá até o quintal de sua casa e derrame o conteúdo no chão. Observe o que acontece com a água. Dependendo do piso, parte da água é absorvida por ele, outra parte escorre e se acumula na parte mais baixa, se houver um desnível significativo; outra parte simplesmente permanece no chão e se evapora em pouco tempo. Se você fizer a mesma experiência com um balde cheio de água, a quantidade de líquido possivelmente será suficiente para escorrer para fora de seu quintal, chegando à rua. Se você fizer a mesma experiência com toda a água usada em sua casa diariamente ou com todo o volume de uma piscina, notará que o líquido escorrerá abundantemente para além de sua rua. Todo líquido naturalmente procurará as partes mais baixas de uma superfície.

A experiência proposta não causa problema algum se feita com água limpa — à parte o desperdício, que não deve se tornar um hábito. Se a água estiver suja, tudo fica diferente. A única coisa que não muda é a tendência que o líquido — sujo ou limpo — terá de procurar as partes mais baixas da superfície sobre a qual ele escorre. É exatamente isto que acontece com o esgoto. Não importa se se trata da água quase limpa que sai de sua cozinha após o enxágüe rápido de um copo ou dos líquidos fétidos que um banheiro produz. O que importa é que todo o esgoto de sua casa — quase limpo, sujo ou terrivelmente sujo — necessariamente sairá de sua casa e procurará lugares mais baixos. O que há nesses lugares? Valas, córregos, rios, praias e o mar.

Onde há rede, o esgoto é colhido e acumulado em uma estação, onde recebe tratamento e em seguida é lançado ao mar. Onde não há rede, sistemas domésticos (fossa séptica, sumidouro etc.) recebem o esgoto, retêm as partículas sólidas e deixam o líquido passar para o solo, o que oferece riscos de contaminação ao lençol freático, às nascentes, aos córregos e, em última instância, ao mar. Onde não há rede nem sistema doméstico, o esgoto é simplesmente lançado na rua, numa vala ou num córrego próximo, emporcalhando tudo ao redor.

Em Ilhabela quase todo o esgoto tem um destino único: o Canal de São Sebastião. Nem todo o esgoto que chega ao Canal de São Sebastião é dissipado em mar aberto; parte dele retorna às praias, outra parte nem se afasta delas.

É comum a idéia de que o mar suporta tudo que é lançado nele. De fato, se você derramar um balde de esgoto no mar perceberá que a sujeira desaparecerá depois de algum tempo, dissolvida na água salgada. Mas experimente fazer isso de hora em hora, por alguns anos; multiplique esse hábito pelo número de pessoas que vivem em sua casa e pelo número de casas existentes em Ilhabela e você terá uma noção do volume de esgoto lançado ao Canal de São Sebastião. Ou imagine todo o esgoto que você produz num dia acumulado num recipiente que você terá de guardar em sua própria casa.

O mar não suporta tudo. O Canal de São Sebastião, dadas suas características geográficas, suporta menos ainda. A ausência de mar aberto no lado mais povoado de Ilhabela nos leva a depender do regime de marés para dissipar o esgoto que chega ao mar. Nem sempre ele se dissipa; às vezes o esgoto fica passeando entre as praias banhadas pelas águas do Canal de São Sebastião. A única vantagem desse estado de coisas é que aqui o cocô sempre bóia e o mar sempre fede, denunciando os maus tratos constantes. O Canal de São Sebastião é um ralo sem sifão. No lado urbano de Ilhabela não há mar aberto que permita dissolver o esgoto antes que ele seja notado; ele sempre será notado — visto, aspirado, engolido, sentido na pele. Não há miopia, ignorância ou incompetência que impeçam o sujeito de notar a decadência das praias ilhabelenses ou que possam torná-lo imune à micose.

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Artigo publicado no jornal Canal Aberto. Link da imagem.

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Um comentário sobre “O ralo de Ilhabela

  1. Tenho uma lembrança ruim de uma “praia ralo” (em São Vicente)…

    Puxa, me lembrei agora de uma reportagem na televisão, uma mulher, em momento totalmente carpe diem, resfolegando em uma praia imunda e ao lado a placa de praia imprópria para banho. O repórter então pergunta: “Mas você não se preocupa com a poluição da praia”. A resposta: “Mas parece tão limpinha e está tão gostoso aqui”.

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