O fundamentalismo da imprensa

camisa de força
Eu sabia que essa imagem seria útil um dia…

Então, né, todo mundo revoltadinho porque o arcebispo excomungou os médicos que fizeram o aborto na menina. Donde a surpresa? Queriam que o arcebispo fizesse sinal de jóinha para eles? Aborto é aborto, sem nuances, sem talvez ou discussão. A regra é clara: fez, tá fora da Igreja, seu projeto de cristão.

Acusar o arcebispo de fundamentalismo — entre outras coisas piores — é fácil pacas. Difícil mesmo é a imprensa admitir o fundamentalismo de sua própria reação.

Na prática a excomunhão impede que o excomungado receba alguns sacramentos da Igreja: batismo, comunhão, crisma e casamento. Ele não terá a porta de sua casa caiada; não terá um emblema costurado em sua roupa; não será alvo de piadinhas na rua; não será vítima de homens-bomba; não será atacado por uma praga de gafanhotos. Por que a histeria? Essa turma realmente se importa com batismo, comunhão, crisma e casamento? Me poupem.

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10 comentários sobre “O fundamentalismo da imprensa

  1. Um fato interessante neste segundo texto que você linkou é que o autor cita uma passagem de Abraão para contestar a ação do bispo.

    Ora, mesmo sendo da mesma raíz, tratam-se de religiões totalmente distintas. A religião de Abraão não é o Judaísmo; assim com o Cristianismo não é nenhuma dessas duas.

    Não tem cabimento citar Abraão para questionar uma lei cristã – ou mesmo as leis judáicas. No caso em questão, não se conhece a posição da religião de Abraão quanto ao aborto. Já o Judaísmo baseia-se no Êxodo 21:22 (o Código da Aliança dos judeus, não dos cristãos!) para se posicionar de forma semelhante ao nosso Código Penal (admitindo o aborto numa gravidez resultante de estupro ou para salvar a vida da gestante). Porém, é totalmente diversa do Cristianismo que, na Encíclica Casti connubii, do Papa XI, fica claro que o direito à vida de um feto é igual ao da mulher. Enfim, são dois seres humanos com direito ao viver, já que para a Igreja uma vida se inicia na concepção. Portanto, não há nada de errado no fato do bispo excomungar quem praticou o aborto se é assim que ordena a lei católica, afinal ele está apenas no estrito cumprimento do seu dever.

    Não sei até que ponto as pessoas entendem que o Deus é o mesmo, mas a forma como ele se relacionou com as pessoas dessas quatro religiões é totalmente distinta.

    Agora chega até a ser engraçado ver os crentes da religião estatal, do deus presidente, acusando aos outros de ser fundamentalistas.

  2. Talvez o bispo estivesse de saco cheio…

    Não há gentios no mundo que menos repugnem à doutrina da fé, e mais facilmente a aceitem e recebam, que os brasis; como dizemos logo, que foi pena da incredulidade de Santo Tomé o vir pregar a esta gente? Assim foi — e quando menos, assim pode ser — e não porque os brasis não creiam com muita facilidade, mas porque essa mesma facilidade com que crêem faz que o seu crer, em certo modo, seja como o não crer. Outros gentios são incrédulos até crer; os brasis, ainda depois de crer, são incrédulos. Em outros gentios a incredulidade é incredulidade, e a fé é fé; nos brasis a mesma fé ou é, ou parece incredulidade. São os brasis como o pai daquele lunático do Evangelho, que padecia na fé os mesmos acidentes que o filho no juízo. Disse-lhe Cristo: Omnia possibilia sunt credenti (Mc. 9,22): Que tudo é possível a quem crê. — E eles respondeu: Credo, Domine, adjuva incredulitatem meam: Creio, Senhor, ajudai minha incredulidade. — Reparam muito os santos nos termos desta proposição, e verdadeiramente é muito para reparar. Quem diz: creio, crê e tem fé; quem diz: ajudai minha incredulidade, não crê e não tem fé. Pois como era isto? Cria este homem, e não cria; tinha fé, e não tinha fé juntamente? Sim, diz o Venerável Beda: Uno eodemque tempore his, qui nondum perfecte crediderat, simul et credebat, et incredulus erat: No mesmo tempo cria e não cria este homem, porque era tão imperfeita a fé com que cria, que por uma parte parecia e era fé, e por outra parecia e era incredulidade: Uno eodemque tempore, et credebat, et incredulus erat. Tal é a fé dos brasis: é fé que parece incredulidade, e é incredulidade que parece fé; é fé, porque crêem sem dúvida e confessam sem repugnância tudo o que lhes ensinam, e parece incredulidade, porque, com a mesma facilidade com que aprenderam, desaprendem, e com a mesma facilidade, com que creram, descrêem.
    Assim lhe aconteceu a Santo Tomé com ele. Por que vos parece que passou Santo Tomé tão brevemente pelo Brasil, sendo uma região tão dilatada e umas terras tão vastas? É que receberam os naturais a fé que o santo lhes pregou com tanta facilidade e tão sem resistência nem impedimento, que não foi necessário gastar mais tempo com ele. Mas tanto que o santo apóstolo pôs os pés no mar — que este, dizem, foi o caminho por onde passou à Índia — tanto que o santo apóstolo — digamo-lo assim — virou as costas, no mesmo ponto se esqueceram os brasis de tudo quanto lhes tinha ensinado, e começaram a descrer ou a não fazer caso de quanto tinham crido, que é gênero de incredulidade mais irracional, que se nunca creram. Pelo contrário, na Índia pregou Santo Tomé àquelas gentilidades, como fizera às do Brasil: chegaram também lá os portugueses dali a mil e quinhentos anos, e que acharam? Não só acharam a sepultura e as relíquias do santo apóstolo, e os instrumentos de seu martírio, mas o seu nome vivo na memória dos naturais, e o que é mais, a fé de Cristo, que lhes pregara, chamando-se cristãos de Santo Tomé todos os que se estendem pela grande costa de Coromandel, onde o santo está sepultado.
    E qual seria a razão por que nas gentilidades da Índia se conservou a fé de Santo Tomé, e nas do Brasil não? Se as do Brasil ficaram desassistidas do santo apóstolo pela sua ausência, as da Índia também ficaram desassistidas dele pela sua morte. Pois, se naquelas nações se conservou a fé por tantos centos de anos, nestas por que se não conservou? Porque esta é a diferença que há de umas nações a outras. Nas da Índia, muitas são capazes de conservarem a fé sem assistência dos pregadores; mas nas do Brasil nenhuma há que tenha esta capacidade. Esta é uma das maiores dificuldades que tem aqui a conversão. Há-se de estar sempre ensinando o que já está aprendido, e há-se de estar sempre plantando o que já está nascido, sob pena de se perder o trabalho e mais o fruto.

    Trecho extraido do Sermão do Espírito Santo,
    de Padre António Vieira.

  3. O Reinaldo Azevedo lembrou de algo que passou desapercebido, talvez por ser óbvio demais. Mas chega a ser um pouco constrangedor ele ter de lembrar: “(…)O bispo não excomungou ninguém”, até porque o aborto é um dos caso em que a excomunhão é automática. Ele apenas oficializou um fato!

    Aliás, permita-me, Chris, indicar a leitura da íntegra do texto do Reinaldo Azevedo que é muito interessante, aliás. Afinal, como ele diz, os católicos estão realmente se tornando os novos judeus. Só acho que poderia ser trocado o tempo verbal, pois a religião já há algum tempo tornou-se saco de pancada para os males do mundo – enquanto essa gente esperta ainda tenta implantar o paraíso estatal do deus presidencialista a custo de muito sangue e milhares de inocentes em campos de concentração e valas comuns:

    Domingo, Março 08, 2009
    OS CATÓLICOS ESTÃO SE TORNANDO OS NOVOS JUDEUS DO MUNDO
    http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/2009/03/os-catolicos-estao-se-tornando-os-novos.html

  4. Oi, Chris!

    Acho louvável que ele cumpra suas obrigações de bispo, o que deixa cada vez mais claro a todos o que é a Igreja Católica.

    Entretanto…

    1. Ele comparou o aborto da guria ao Holocausto. Para seu senso de proporção, 1 morte é igual a 6 milhões de mortes.

    2. Ele disse que o estupro “nem é tão grave assim”, sendo o aborto algo infinitamente pior. Seria ele um malufista?

    Abraços,

  5. Raphael, pelo que eu entendi, o Holocausto que o bispo mencionou diz respeito a todas as vítimas que as campanhas mundiais pelo aborto fazem. Nos EUA, onde é legalizado, quantos não morreram? Ninguém fala nada, por isso mesmo um Holocausto silencioso.

  6. É verdade Christian, nada disso vai acontecer a quem fez o aborto na menina de 9 anos estuprar. Mas não graças ao acerbispo, pois se dependesse dele e da cambada o defende, os médicos já estariam fritos em alguma fogueira.
    Então, dê uma agradecida ao Voltaire, quem sabe?

    Prazer e até.

  7. Rodrigo,

    uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Esse papo de “se fosse X, então Y” é matemática ou malícia. Não importa o que a cambada faria. Importa o que foi feito.

    (Aliás, qual cambada é maior e tem mais poder: a que defendeu o arcebispo ou a que o malhou?)

    Mantenhamo-nos no plano dos fatos. Quando esgotarmos as discussões neste plano, daí podemos passar para o mundo do faz-de-conta.

  8. o papel da imprensa nacional é no minimo ridículo e se fosse só nesse aspecto estaríamos bem, o Bispo esta fazendo o que lhe cabe e da forma como condiz dentro daquilo que professa, podemos dizer isso dos sensacionalistas estúpidos da imprensa? vejam o que o Bispo diz sobre o estupro :
    Ele cometeu um crime enorme, mas não está incluído na excomunhão”, afirmou Sobrinho. “Esse padrasto cometeu um pecado gravíssimo. Agora, mais grave do que isso, sabe o que é? O aborto, eliminar uma vida inocente.”
    ele continua defendendo aquilo que estabelece dentro dos padrões que atua , se concordamos ou não é outra coisa, mas não disse da forma como o comentário acima descreve.
    O comentário acima, uma morte é igual á 6 milhões SIM , estatísticas nos tornam frios, desde que não seja alguem próximo ou a si próprio tudo é numero.
    A banalização nos afeta em cheio, e sem notarmos somos conduzidos e passamos por um processo de entorpecimento de nossa indignação e de sentir a dor de outros, alguem foi assaltado ? quantas vezes? foi ferido? não? há isso acontece todos os dias é normal.
    Agora muitas pessoas ficam presas em casa pelo trauma, mas é frescura né? sempre é nos olhos da pimenta.
    Sobre o estado (de coisa ruim) e a imprensa, um já esta lá, só quimioterapia pra tirar, a imprensa do lado dizendo que é benigno e até bonitinho, é charmoso ter câncer dá status. Tá escrito acreditamos, passou na tv é galã de novela.

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