Novilíngua ou O demônio das pequenas coisas

optical illusion

Se Mies van der Rohe estava certo quando disse que Deus estava nos detalhes, é provável que o demônio também esteja, porque diz a lenda que Deus e o demônio duelavam constantemente — o que só seria possível numa arena comum. Talvez a línguagem seja uma dessas arenas.

Hoje há poucas coisas mais demoníacas do que a linguagem. Não há território em que o Mal é mais facilmente travestido de Bem do que a linguagem.

Este pequeno glossário, por exemplo, não se limita somente ao âmbito petista, é fácil notar.

Recentemente o filósofo Olavo de Carvalho teve sua coluna “ampliada” no Jornal do Brasil — no novíssimo jargão jornalístico isto quer dizer que o espaço de sua coluna passou a ser compartilhado por outros autores, o que na realidade significa o oposto do que o termo sugere.

“Empregado” torna-se “colaborador”, à maneira do Starbucks e do Pão de Açúcar, como se o sujeito estivesse fazendo o troco ou lavando o chão do estabelecimento por caridade ou por amor às vassouras e aos frascos de desinfetantes. Outro exemplo escabroso aqui.

Alguns insistem na troca dos termos, mas ao menos são sinceros sobre suas reais motivações.

Casos já clássicos — e patológicos — são os dos termos politicamente corretos, que chegam a criminalizar a linguagem que substituem. Tente imaginar isto na TV hoje.

Estas coisas me fazem lembrar de uma piada — spam antigo — que dizia mais ou menos assim:

    Acusado de difamação por chamar uma mulher de porca, o homem é processado e considerado culpado.
    — Isso quer dizer que não posso chamar a Sra. Johnson de porca? — ele perguntou ao juiz.
    — Isso mesmo — respondeu o juiz.
    — Isso também quer dizer que eu não posso chamar uma porca de Sra. Johnson? — indaga o homem.
    O juiz responde que ele pode, de fato, chamar uma porca de Sra. Johnson sem precisar temer qualquer tipo de problema jurídico.
    Ao ouvir isso o homem olha diretamente para a Sra. Johnson e diz:
    — Boa tarde, Sra. Johnson.

Piada ruim, mas de gosto melhor do que aquela que fala do “direito inalienável” e da “contribuição compulsória”.

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2 comentários sobre “Novilíngua ou O demônio das pequenas coisas

  1. Imagine se Mel Brooks conseguiria fazer o Blazzing Saddles hoje …
    “Estendo os louros e tenho a honra de apertar a mão do nosso … crioulo”.
    Imaginem só …!!

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