Ilhabela sem Ilhabela

pequea ilhabela

Na faculdade, um de meus professores dizia que o Rio de Janeiro era uma cidade muito feia instalada num lugar muito bonito — era e continua sendo. Desconfiei que isso pudesse valer para outras cidades. A partir daí comecei a submeter todas as cidades que eu visitava à frase de meu professor. Este exercício não é simples; você deve olhar um lugar e tentar imaginar como ele seria sem as construções, sem as casas e ruas, até mesmo sem as pessoas. Quando é possível ver esse lugar de um ponto afastado, o exercício fica fácil. Por exemplo, se você observar a cidade de Santos a partir de um de seus morros ou da orla da praia, poderá visualizar a ampla curva da baía e imaginar o manguezal que existia antes que se erguesse aquele mar de prédios. É também este o caso de São Paulo quando vista do pico do Jaraguá ou do edifício Itália. Você visualizará os rios e córregos, os espigões e as curvas da topografia acidentada, alguns morros e, naturalmente, todas as alterações realizadas para que a cidade fosse construída.

É bem simples submeter as cidades do Litoral Norte a esse exercício. As cidades do continente são bem limitadas pela Serra do Mar e pelo oceano. Em cada baía é possível distinguir uma massa amorfa de construções que se espalha pela pequena planície até chegar aos limites da praia. Nas encostas, algumas construções insistem na vista para o mar — e nos dão em troca o “mar com vista para a casa”.

Em Ilhabela essa observação é ainda mais fácil. Na pausa obrigatória da travessia marítima é possível observar boa parte do arquipélago de Ilhabela desde o Canal de São Sebastião. Você verá o Pico do Baepi e o Pico de São Sebastião, verá também o Ilhote das Cabras e a longa faixa de areia da Praia do Perequê. Se for época de chuvas, também verá a Cachoeira da Água Branca. E, claro, verá a cidade de Ilhabela, que se estende horizontalmente por toda a orla e verticalmente até onde a lei permite. Você notará o que é a cidade e o que é o lugar. E quando estiver em terra notará mais coisas. Primeiro: a cidade de Ilhabela é um processo, o arquipélago de Ilhabela é um fato. Não existe harmonia possível entre dois elementos radicalmente desiguais; a feiúra de alguns bairros de Ilhabela reforça essa idéia.

Segundo: a cidade é um processo que sempre traz problemas para o lugar; são raros os casos em que o resultado dessa soma é positivo. Nem mesmo Brasília, modelo de planejamento urbano, conseguiu tornar o cerrado melhor. O que dizer de cidades não planejadas? Alguma cidade do Litoral Norte conseguiu melhorar a Mata Atlântica? Alguma cidade conseguiu melhorar a natureza ao seu redor?

Terceiro: a exemplo do Rio de Janeiro e de tantas outras cidades, Ilhabela também é uma cidade extremamente feia instalada num lugar espetacularmente bonito. É uma dupla injustiça. A primeira injustiça está em transformar este lugar usando concreto e muros de arrimo — o que corresponde a 90% das construções de Ilhabela. A segunda injustiça está em fazer as pessoas acreditarem que Ilhabela são as águas cristalinas da Baía de Castelhanos ou a Mata Atlântica preservada. Estas coisas não são a cidade de Ilhabela, mas exatamente aquilo que sobrou depois que a cidade começou a ser construída — é o que existe apesar da cidade.

O leitor talvez queira perguntar qual a importância dessas observações. Além de ser um processo, a cidade também é uma necessidade para quem vive nela. As atividades humanas continuarão enquanto houver gente vivendo aqui. Mas talvez a importância dessas observações esteja na possibilidade de imaginar Ilhabela sem Ilhabela, isto é, imaginar o arquipélago sem a cidade, sem mim, sem você. Qualquer lugar é melhor sem construções e sem pessoas: diante deste fato virão dilemas e perguntas que poderão apontar novas direções para o crescimento desta cidade. Se a cidade que existe hoje é exatamente a cidade que queremos, não é necessário pensar, perguntar ou fazer qualquer coisa. Basta cruzar os braços e deixar que a cidade engula o lugar, porque é o que vai acontecer.

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Publicado no jornal Canal Aberto em 20 de março de 2009.

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4 comentários sobre “Ilhabela sem Ilhabela

  1. Eu acho sua preocupação sem nenhum sentido, ja estamos pensando de habitar marte, mas algumas centenas de anos podemos viver lá, deixamos essa terrinha sem graça e viveremos felizes nas afrodisíacas paragens de Marte.
    Ops não tem nada lá? bem daqui mais cem anos então vai ser tudo igual lá e aqui.
    Viu nem precisamos ir a Marte, podemos fazer daqui um grande e belo deserto.
    continua sendo uma preocupação sem sentido.
    Uma outra forma de escondermos essa paisagem suja é um óculos com imagens maravilhosas de outrora verde. azul terra e um nebulizador com odores de flores e maresia, maresia esta da água do mar é claro.
    fique tranqüilo tudo se resolve ou se disolve.
    enquanto isso é só comer granola.

  2. Eu até imagino como deve ser viver em marte. E quanto tempo levaria para que as pessoas abusassem de viver por lá. Amigo, o homem ainda vive muito no mundo da fantasia e do faz-de-conta sem levar em consideração que só nesse seu exercício mental bobo ele faz um monte de bobagens.

    Tsc… granola…

  3. Com relação a imagem. Nossa! um paraíso isolado! Pronto para ser explorado, se a imagem fosse real.

    Mas já que vivemos aqui, e somos realistas, e é fácil imaginar o futuro da cidade, e um pouco triste pensar no futuro do lugar.

    A real é, crescimento sozinho não é benefício.
    Já que a cidade existe e não dá pra expulsar populações e deixar o lugar em paz, pelo menos o que existe de cidadade, podia ter um ‘tratamento’ mais adequado.

    Outro dia eu tive um pesadelo, uma super avenida norte-sul pelos lados das montanhas passando aqui pelo pico de Sebastião, com gigantes prédios em toda borda, transportes do futuro mais rápidos, uma paisagem bem urbana e cinza, como uma cicatriz em um lugar puro.

    Eu poderia até dizer que sonhei com o futuro, se meus sonhos/pesadelos não costumassem ser tão ‘imaginativos’…Será?

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