Bom dia, boa tarde, boa noite

Uma das memórias mais vivas que trago da infância era a de meu avô indo de moto de sua casa até o trabalho. Na garupa eu observava, surpreso, o fato dele cumprimentar muitas pessoas em seu caminho. Às vezes um aceno simples, às vezes um sonoro «bom dia» ou um toque na buzina. Em todos os casos o contato se estabelecia e, mesmo breve, era suficiente para registrar o reconhecimento da pessoa que passava. Mesmo sendo um simples comerciante, meu avô era pessoa pública e, na maioria dos casos, as pessoas pelas quais ele passava e a quem acenava e cumprimentava também eram.

Era um tempo, não muito remoto, em que todos se conheciam em Ilhabela. Cidade pequena, era fácil identificar os moradores, os veranistas recém-chegados e os turistas. O modo de se vestir, o rosto, a fala, as informações transmitidas e buscadas — tudo isto ajudava a definir a pessoa e sua condição no arquipélago. A confirmação dessa definição se dava através da saudação cotidiana. Olhar nos olhos da outra pessoa de uma forma cortês e respeitosa e cumprimentá-la desejando a ela um bom dia era uma espécie de senha através da qual essa pessoa era reconhecida como parte de uma cidade que depende desse tipo de reconhecimento para ir adiante com civilidade e alguma harmonia entre os cidadãos.

Naturalmente, esse costume dependia da lentidão no deslocamento e da proximidade das ruas estreitas e das calçadas, eventualmente também da caminhada ou de outros meios que abrem o indivíduo à vida em sociedade. Meu avô, mesmo em sua moto, sempre se deslocou lentamente, numa velocidade que lhe permitia reconhecer os rostos nas calçadas e ser reconhecido. Quando a Vila era o centro comercial e administrativo de Ilhabela havia nesse lugar a circulação constante de pessoas que realmente moravam em Ilhabela — comerciantes, bancários, servidores públicos, estudantes, donas de casa. Mesmo com interesses e ocupações distintas, essas pessoas estavam reunidas sob a condição comum de conhecer o lugar em que viviam — e assim também se reconheciam. Acima de tudo, esse costume dependia também de senso de comunidade.

Esse senso e esse reconhecimento não existem mais porque, claro, a população aumentou e é virtualmente impossível saber quem vive aqui e quem é de fora. Mas o principal motivo é a adoção crescente de um jeito muito metropolitano de viver. Por exemplo, a resposta ao crescimento da violência urbana tem sido a construção de muros cada vez mais altos, a instalação de grades, câmeras e cercas elétricas, a contratação de seguranças, enfim, o acondicionamento das relações humanas em ambientes controlados e o afastamento de tudo aquilo que desagrada e que não interessa. É bem simples perceber que o isolamento causado pelas modernas soluções de segurança criam campo fértil para que a violência urbana se propague — «tão seguro que nem o Estado de Direito consegue entrar», dizia um amigo meu. Quanto menos contato houver entre vizinhos, quanto mais frágeis forem os laços sociais, mais fácil será circular anonimamente em qualquer lugar — espécie de invisibilidade urbana, o sonho de qualquer criminoso. Mesmo abarrotada de pessoas, Ilhabela tornou-se terra de ninguém. Ironicamente, a especulação imobiliária, que pretende que toda terra seja «de alguém», só conseguiu tornar os laços sociais ainda mais frágeis.

Parte da solução, se há alguma, é dizer «bom dia», «boa tarde» ou «boa noite», olhar nos olhos da pessoa que vem na direção oposta e cumprimentar-lhe, reconhecer-lhe como indivíduo e como cidadão. Se se trata de pessoa de bem, ela certamente reconhecerá em seu cumprimento o desejo de reconstruir os laços sociais de outrora — e corresponderá. Se se trata de pessoa de má índole, o olhar, o cumprimento, o peito aberto e a oferta de uma dose cavalar de urbanidade serão um convite para integrar-se irremediavelmente ao mundo civilizado ou para encolher-se e ir gazetear em outras praias.

Não há câmera de vigilância que supere o olho no olho. Não há muro que seja mais forte que um cumprimento firme, gentil e sonoro. Que as pessoas prefiram câmeras e muros e ignorem cada vez mais a civilidade elementar das saudações cotidianas e sua importância na construção dos laços sociais, é um lamentável sintoma de nosso tempo.

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Artigo publicado no jornal Canal Aberto em 3 de Abril de 2009 (link da imagem).

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4 comentários sobre “Bom dia, boa tarde, boa noite

  1. muito acurado o teu texto. insisto em cumprimentar as pessoas, ao menos dentro do condomínio ou dentro da empresa. olho no olho. em canoinhas, onde cresci, era assim. não sei porque deveria ser diferente na “cidade grande”, mas é.

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