Político não vai à praia

dante hell
Câmara Municipal de Jiripoca do Norte em dia de sessão.

Uns dirão que político não vai à praia porque não tem tempo, o que é verdade. O trabalho político costuma ser bem exigente e raramente deixa algum tempo para o lazer. Além disso, alguns eleitores considerariam uma tarde na praia um luxo descabido, um desperdício do tempo precioso do homem público — tempo este que custa caro aos cofres públicos. Eu não penso assim; em muitos casos, uma tarde na praia pode ser uma excelente oportunidade de confrontar-se com certas realidades que ultrapassam os limites de um gabinete.

Uma coisa é ouvir as queixas dos moradores do (fictício) Jardim Sassafrás num gabinete ou nos corredores de uma repartição pública. Outra coisa bem diferente é ir até lá e sentir a catinga do esgoto a céu aberto ou arrebentar o próprio carro em um dos buracos que transformaram as ruas do bairro em trincheiras da Primeira Guerra. Uma coisa é reunir-se com técnicos para discutir soluções para o trânsito. Outra coisa é dar o exemplo, ir ao trabalho de bicicleta todos os dias, com chuva ou sol, e encarar uma ciclovia claudicante, cachorros que se alimentam de canelas, hordas de moleques irresponsáveis apostando corrida e ameaças homicidas de caminhões enferrujados.

Não pretendo dizer que pedalar ou estragar o carro nos buracos das ruas são experiências mais reais do que conversar com técnicos ou ouvir as reclamações dos munícipes no conforto de uma sala refrigerada. As diferenças importantes estão menos nessas ações particulares do que em seus pressupostos e em suas conseqüências. Pedalar, desviar de buracos, sentir o cheiro do esgoto nos córregos, irritar-se com filas de bancos, ir à praia e buscar espaço entre mesas e cadeiras de plástico — todas estas coisas são as experiências do indivíduo comum. Se o político não passa por estas mesmas experiências ou as evita tão logo se torne político, ele deixou de ser cidadão e deixou de lado a condição original que o elegeu — e, portanto, não merece mais ser aquilo que é, porque, veja bem, ninguém é eleito para fazer política. Se ele abdica de sua condição de cidadão comum, ele deixa de pensar como tal e passa a filtrar a realidade com uma lente que vê política em tudo e que vê tudo como política, embora as coisas continuem sendo aquilo que sempre foram, simples e substanciosas como bolo de avó.

Um exemplo tornará estas idéias mais claras: recentemente o Governo Federal decidiu manter a isenção de alguns impostos para carros e motos e determinou a redução do preço do diesel. O que isto significará para o futuro das cidades brasileiras? Quem decidiu estas coisas não fica preso em congestionamentos, não respira quilos e mais quilos de fumaça negra todos os dias, não se expõe com freqüência aos perigos constantes do trânsito brasileiro — em outras palavras, quem decidiu estas coisas só lê jornais, vê apenas um ou dois lados da equação e ignora solenemente todo o restante. Não é difícil prever as conseqüências de uma decisão política tão rasteira.

A mim é especialmente incômodo ver políticos trabalhando dessa forma, como se o trabalho de gabinete e os projetos de lei precedessem a realidade, como se fosse absolutamente incabível dispensar o status político e o uso de veículos oficiais e pedalar, tomar um ônibus ou caminhar, como fazem diversos trabalhadores todos os dias. Todo político deveria fazer estas coisas e também ir à praia (inclusive para ver com os próprios olhos como anda a qualidade da água), estudar (porque princípios precisam ser alimentados e são eles que sustentam ações e leis de qualidade) e ter aquela espécie de inteligência que permite perceber a relação entre as miudezas que lhe são trazidas todos os dias e os assuntos que realmente decidem o destino de uma cidade, de um estado ou de um país. No universo político, a politicagem toma o lugar da decência e da eficiência quando essas experiências são definitivamente abandonadas. Um bom começo para não abandoná-las é manter os dois pés no chão — e de preferência descalços.

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Publicado no jornal Canal Aberto em 17 de abril de 2009 (link da imagem)

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2 comentários sobre “Político não vai à praia

  1. reparou que a solução encontrada pelo governo brasileiro para a crise foi baixar ipi, garantindo que as empresas continuarão tendo seu quinhão? ora, a grande encrenca é a massa de demitidos por conta da crise, pessoas que poderiam ter sido mantidas se, apenas durante as intempéries, o governo tivesse diminuído os impostos que incidem sobre a contratação de pessoas, entre outros encargos. mas a gente quem tem o lobby mais poderoso na frente do gabinete com ar-condicionado do nosso político.

  2. Economicamente talvez haja poucas diferenças entre baixar a tributação sobre a produção ou sobre os empregos. O problema é o que vem depois dos números. O estímulo à produção (com a redução do IPI) traz subjacente a mensagem oficial de que o lance é produzir e consumir, sem preocupações importantes com o custo — social e ambiental — dessas coisas. No que diz respeito aos danos reais e potenciais à sociedade, a indústria automobilística (o principal alvo da redução do IPI) só perde para a indústria do cigarro.

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