Proibido vender coxinha

coxinha

O Governo do Estado de São Paulo proibiu o cigarro em estabelecimentos particulares — até mesmo as áreas reservadas para fumantes foram proibidas. Em seguida proibiu a venda de coxinhas, refrigerantes e salgadinhos em cantinas escolares. No caso do cigarro, o Estado pretende reduzir os danos relacionados ao cigarro e ao fumo passivo. No caso das cantinas escolares, o objetivo é combater a obesidade infantil e estimular a alimentação saudável. O problema não está nas intenções declaradas, que são sempre lindas, mas nos pressupostos e nas conseqüências de leis desse tipo.

Entre os pressupostos das duas leis está a idéia de que o cidadão é incapaz de cuidar de si próprio. Ora, os problemas relacionados ao cigarro são bem conhecidos e qualquer pai ou mãe sabe que coxinhas e refrigerantes não podem ser a base da alimentação de uma criança. Em outras palavras, há informações suficientes para que qualquer pessoa possa evitar esses produtos — cigarros, guaraná e coxinhas — ou consumi-los responsavelmente. É claro que sempre haverá pessoas dispostas a defender que cigarro faz bem ou que coxinhas são alimentos saudáveis e sempre haverá quem acredite nestas coisas. Mas há uma grande distância entre informar as qualidades e os riscos desses produtos e bani-los definitivamente.

As conseqüências de leis desse tipo são ainda mais preocupantes. No caso do cigarro, amplia-se a marginalização do fumante, como se ele não estivesse suficientemente marginalizado. O que antes era uma questão de bom senso e entendimento entre pessoas adultas — fumar ou evitar fumar ao lado de não-fumantes — agora tornou-se caso de polícia, como se não houvesse coisas mais importantes para a polícia fazer. No caso dos alimentos vendidos nas cantinas escolares a situação é ainda pior. O que era assunto para comerciantes, donos de escolas e pais de alunos passa a ser assunto do Estado e, como no caso do cigarro, da polícia também. E nas entrelinhas lemos que o Estado é competente para definir o que as crianças comerão no recreio, os pais não são.

Cigarros, coxinhas, batatas fritas, guaraná e os consumidores e comerciantes desses produtos são elevados à categoria de vilões. Enquanto isso, os verdadeiros vilões permanecem livres. Certamente é mais fácil proibir o consumo de coxinhas do que o consumo de maconha e cocaína; assim, o Estado constrói uma imagem de bom-mocismo e competência às custas da liberdade do cidadão. Só que o Estado não está genuinamente interessado em defender o cidadão. O Estado está interessado em aumentar o próprio poder, em invadir a vida do cidadão com restrições cada vez maiores e mais numerosas e em livrar-se das responsabilidades que não foi capaz de cumprir até hoje, pois o que é visto ajuda a esconder o que não é visto.

O mais preocupante é que a imagem de bom-mocismo realmente conquista a simpatia de muitas pessoas. Mesmo as mais inteligentes são capazes de concordar com o cerco ao cigarro e aos alimentos gordurosos, sem ver nisso qualquer traço de totalitarismo ou de atropelamento dos próprios direitos. Cegas para isto, aceitarão mais e mais deveres impostos desde cima e, naturalmente, se tornarão fiscais de um Estado que permanece à vontade para descumprir suas obrigações mais importantes e elementares. Quem não lembra dos «fiscais do Sarney»?

Levado adiante (porque mais proibições virão, é claro) o resultado deste processo é a dissolução da sociedade. Entre os alquimistas era comum a divisa «solve et coagula», que significa dissolver as substâncias antes de reuni-las em uma nova substância. Entre os esquerdistas, totalitários e estatólatras, «solve et coagula» significa dissolver a sociedade para transformá-la e reuni-la de uma outra forma, controlada e mais adequada às aspirações estatais — afinal, para os camaradas da nova era, direitos individuais não podem ser obstáculo para a criação de um «mundo melhor», sem cigarros, guaraná e coxinhas.

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Publicado no jornal Canal Aberto em 1º de maio de 2009 (link da imagem)

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12 comentários sobre “Proibido vender coxinha

  1. Realmente, fiquei impressionada com a coxinha, daqui a pouco o estado vai decidir tirar todos os salgadinhos, pizzas e pasteis de circulação. Claro que ele não vai fazer isso, ele não pode fazer isso. Isso é tarefa da população escolher os alimentos que serão consumidos.

  2. Christian,
    isso dá uma gastuuuuuura …!
    O pessoal vai cedendo, vai cedendo, até que vai chegar um momento que não vai ter nada mais para ceder – a não ser sua alma.
    Será que vão chegar naquele ponto de dizer: não, não leia livros, pois eles trazem muita tristeza!
    ou
    – Não passeie à noite!
    ou
    – Não ouça música clássica! Isso é coisa dos vilões das novelas! (isso, eu já reparei. Todo vilão, psicopata, aquele um que vai ter uma morte horrível no último capítulo, gosta de música clássica)

    Eu detesto essa intromissão em nossas vidas.

  3. Ha muita mentira em relação aos males do cigarro, e qualquer intelectual honesto não pode deixar de apontá-la. Hitler adorava pessoas saudáveis ao seu redor e se preocupava com sáude do povo alemão.
    Mas caminhamos em direção ao Brave New World, de fato.

  4. Mórbido, mas o raciocínio tem sentido. Penso às vezes que as coisas estão como estão porque as pessoas gostam, porque a maioria busca, quer e aceita. Logo, pode ser sensato deixar como está.

    Em terra de cegos, quem tem um olho logo o terá arrancado de si.

    E que Deus nos proteja.

  5. Salve, Christian!

    O mais curioso, a meu ver, foi a declaração dada por Serra, à época da polêmica com os livros paradidáticos com palavrões. Chamado ao SPTV, da Rede Globo, ele disse “detestar” coxinhas. E, tempos depois, temos a lei anticoxinhas aprovada e em vigor. Ser-lhe-ia instrutivo (re)ver a entrevista, que está no Youtube.

    Não pretendo incorrer num casuísmo fácil, porém. Serra não proibiu as coxinhas apenas porque as detesta: ele está amparado, como sabemos, por um movimento mundial que pretende impor certos comportamentos tidos por desejáveis a todos – e à força. O que me espantou foi ver a segurança com que ele pronunciou o seu gosto (ou desgosto) em rede estadual, na certeza de que o seu pendor tirânico não seria nem sequer notado. Não há dúvidas de que ele se sente muito à vontade ostentando, impune, a sua hipocondria militante. A falta de a reações a essa declaração, que deve ter escandalizado todo e qualquer democrata, demonstra que talvez não tarde a época em que apenas uma manifestação do gosto de determinado líder será suficiente para fazer passar uma lei. E vieram-me à mente aqueles excelentes livros finais d’A República, em que Sócrates analisa a tirania em relação com a alma tirânica, afirmando que ambas são dominadas pelos apetites. Há muita verdade aí.

    Excelente blogue! Voltarei mais vezes.

    Vale!

  6. Eu acredito que já estejamos numa época em que o gosto dos líderes é o fator determinante das leis. Por enquanto a maioria dos líderes ainda consegue ser discreta ao defender essas leis e comentar as causas. Por enquanto. Serra é exceção e eu realmente desconheço o motivo disso.

    Não consegui localizar o vídeo no YouTube. Caso você saiba onde encontrá-lo, por favor deixe o link aqui nesta área de comentários. Seria uma boa adição para este post.

    Obrigado pelo comentário, DD. E seja bem-vindo.

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