Pense pequeno

small house

Você, morador de Ilhabela que raramente sai do arquipélago ou que, quando sai, raramente vai além de São Sebastião ou Caraguatatuba, deveria assumir o compromisso cívico de deixar a cidade uma ou duas vezes por ano com o objetivo estrito de visitar uma grande cidade, olhá-la com atenção e, pelo contraste, tentar entender o lugar em que vive, vislumbrar virtudes, problemas e perspectivas.

Para mim, as duas cidades que servem de referência para este exercício são Santos e São Paulo. Não vou perder meu tempo falando de São Paulo — os problemas da capital paulista são bem conhecidos, assim como suas poucas virtudes que ainda resistem ao caos de edifícios e automóveis. Costumo dizer que «caos» já não serve mais para definir São Paulo; esta cidade chegou a um nível em que o termo não dá conta do que acontece por lá.

A cidade de Santos merece um olhar mais atento. Outrora uma cidade estagnada, Santos vive hoje uma efervescência no mercado imobiliário como nunca se viu, nem mesmo nos anos 70, quando a Baixada Santista vivia seu auge turístico e imobiliário. Grandes incorporadoras paulistanas descobriram a cidade de Santos, desceram a serra com toda a estrutura imobiliária, logística e tecnológica e começaram a erguer verdadeiros arranha-céus. Depois deles, Santos nunca mais será a mesma.

Alguns santistas dizem que a cidade deixou de ser o que era, que perdeu o charme que possuía (supondo que Santos era uma cidade charmosa), que perdeu sua identidade (supondo que este conceito não seja absurdamente confuso). Não sei se concordo com isso, mas é fácil notar que Santos realmente está passando por transformações intensas e é difícil prever como será a cidade daqui cinco anos, quando todos os lançamentos imobiliários estiverem concluídos, vendidos e ocupados: mais imóveis, mais moradores, mais veranistas, mais automóveis — tudo isso numa ilha já densamente ocupada.

O que isso tem a ver com Ilhabela? Vejamos: a cidade de Santos não transmite uma lição, mas um aviso. Este aviso é bem parecido com o aviso repetidamente ignorado que vem de São Paulo: pense pequeno. São Paulo passou décadas pensando grande: grandes avenidas, grandes edifícios, grandes eventos. Deu certo?

Santos segue caminho semelhante. Casas e ruas de bairro não resistem à falta de sol e ao estrago no regime de ventos, mas a porcaria foi encomendada quando leis municipais decidiram liberar a construção de edifícios cada vez mais altos.

Ilhabela, mesmo sem edifícios, mesmo sem avenidas, segue a trilha rasgada por cidades como Santos e São Paulo. Mesmo que não se construam arranha-céus no arquipélago, arquitetos, engenheiros e proprietários dão um jeitinho e aproveitam até o limite do suportável a riqueza da topografia ilhabelense — e a tornam miserável, claro. Mesmo que não se abram largas avenidas na malha viária de Ilhabela, hordas de motoqueiros, caminhoneiros, motoristas e até mesmo ciclistas fazem sua parte circulando a toda velocidade, em todas as direções, sob o olhar míope da fiscalização caolha e intermitente. As construções podem ser pequenas e com poucos pavimentos, mas é grande o apetite pelo consumo dos recursos naturais e pelo uso do solo. A cidade pode ter apenas uma avenida, mas sempre haverá mais veículos do que gente nas ruas.

Seja qual for o ramo, assunto ou objetivo, Ilhabela caiu há tempos no conto do «pense grande» e, mesmo que continue sendo uma cidade pequena, mesmo que consiga o milagre de manter intactos os limites do Parque Estadual, mesmo que não esgote completamente a beleza que ainda resiste em seus limites urbanos, já deixou de ser uma cidade pequena, já se alinhou com aquilo que de pior existe nas cidades grandes. Pode ser pequena, mas pensa grande há muito tempo.

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publicado no jornal Canal Aberto em 19 de junho de 2009. link da imagem

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2 comentários sobre “Pense pequeno

  1. Felicidades e muito obrigado pelo acesso ao vosso pensamento no “Insular”. Votos de saúde integral, de bem-estar geral. Prof. Dr. Luiz R. M. Belculfiné, médico – Vila – Ilhabela (e também Salto-SP).

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