O design como ferramenta totalitária

Algumas palavras sobre a imagem do post anterior. Ou sobre como o design e a iconografia são usados como ferramentas totalitárias.

A imagem que tomou conta do Estado de São Paulo não é o símbolo de uma simples proibição. Não é uma iniciativa dos estabelecimentos, dos não-fumantes ou dos médicos paulistas. É uma iniciativa do Estado. Logo, era fundamental transmitir essa mensagem.

O círculo vermelho com o risco diagonal era comum demais, quase neutro. “Você não pode fumar aqui”, diz ele, sem dizer nada além disso.

O contorno do Estado de São Paulo simbolizando essa proibição foi a solução genial para informar a proibição e ao mesmo tempo dizer quem é que manda. Não são os não-fumantes, não é a medicina, não são os donos dos estabelecimentos, tampouco os sindicatos dos garçons — é o Estado que determina a proibição. Você olha o aviso da proibição universal (i.e. paulista) do uso do cigarro e sabe que ele está de olho em você. Não há fuga, não há alternativa.

Com o dono do estabelecimento você pode conversar, ele pode até oferecer um espaço para fumantes. Com os garçons também é possível conversar e, a não ser aquele que aparece ao lado do Dr. Drauzio Varella, a maioria parece não se incomodar por atender fumantes. Com o Estado não tem conversa. Quer conversar com ele? Contrate um advogado e reze para ter a sorte de estar vivo quando a discussão terminar, porque vai demorar pacas.

Pior do que isso: observe o rodapé da imagem (clica para ampliar).

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Lê-se: “Para informar o descumprimento da lei, ligue 0800 XXX XXXXX ou acesse http://www.xxxxxxxxxx.sp.gov.br”

Em outras palavras, o Estado não se contenta em ocupar todas as trincheiras — ele quer sua cumplicidade nisso, ele quer que você se torne um fiscal. Ele não quer que você dialogue com o fumante ao lado, ele quer que você denuncie o leproso que insiste em acender um cigarro num espaço fechado.

*
Há outras duas coisas curiosas nessa proibição.

Primeiro, o fato de que 500 fiscais foram escalados para verificar o cumprimento da nova lei. Imagine 500 policiais a mais nas ruas combatendo crimes de verdade. Imagine uma campanha maciça como esta para tornar o cidadão menos tolerante com os crimes de verdade.

Segundo, há pessoas que, mesmo torcendo o nariz para a nova lei, acham que é sensato apoiá-la em alguma medida e observar sua evolução. Isto significa que há pessoas que ainda acreditam que o Estado sabe o que é melhor para elas mesmas e, portanto, saber o que é bom para si mesmas depende de políticos dizendo isso a elas. Para elas, o que determina a qualidade dos hábitos de saúde não são a liberdade e a autoconsciência, mas a submissão, a legislação, o Estado e a mídia (que é antifumo há muito tempo).

Mais uma vez, o Estado descumpre obrigações muito mais sérias e elementares e se empenha em encher o saco dos cidadãos que realmente cumprem as leis e pagam impostos. A máquina estatal é movida a carne moída.

*
Update: hoje percebi uma face ainda mais assustadora da lei antifumo. Ela inclui os condomínios, como muitos já devem saber. Nas guaritas dos prédios da cidade onde moro pode-se ver o malfadado cartaz que ilustra este post.

Condomínios não são espaços privados de acesso público (como os estabelecimentos comerciais) e obviamente não são espaços públicos — logo, os fiscais antifumo não podem acessar esses lugares sem ordens judiciais. Quem elaborou e aprovou a lei sabia disso, claro, e portanto espera sinceramente que os próprios moradores fiscalizem-se uns aos outros. Até então a única presença estatal nos condomínios era a lei dos elevadores (“antes de entrar no elevador verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar”, também conhecida como “a lei do mesmo”) e mesmo assim trata-se apenas de uma recomendação, não uma lei passível de punição e fiscalização. Com a lei antifumo, o Estado coloca um pé dentro de um território que pertencia apenas aos moradores. E quem ele convoca para essa tarefa? O seu vizinho, os funcionários do condomínio, o síndico.

Este é o resultado mais medonho da nova lei: quase sem querer, pessoas comuns são elevadas (reduzidas, na verdade) à condição de fiscais a serviço do Estado. Se você fumar um cigarro no corredor do seu prédio e o faxineiro vir você, ele terá duas opções: denunciar você ao Estado ou cometer o crime de prevaricação, tornando-se assim ele próprio sujeito à punição estatal. Em tempos de submissão e tecnologia, não é nada difícil ele tirar sua foto com o celular, enviar para o Estado via internet e ainda se orgulhar disso.

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8 comentários sobre “O design como ferramenta totalitária

  1. Verdadade, verdade, verdade, e o pior de tudo é que as pessoas denunciam! A hipocrisia começa a sair pelos poros da população, que aliás é tratada como merece.

    frase da semana do blog do Davi Bor :

    O dado que melhor define a peculiaridade de um povo é o perfil dos modelos que ele elege”.
    Ortega y Gasset (1921)

  2. se por um lado, o estado não cumpre o seu dever em certos lugares, por outro ele tá zelando pelo bem-estar das pessoas.

    se elas não sabem se comportar em ambiente fechado, é necessário o estado intervir. acho válido.

  3. Aí é que está, Léo.

    O Estado não cumpre seu dever naquilo que é fundamental e fica enchendo o saco dos cidadãos naquilo que é supérfluo, miúdo, assunto de boteco.

    Se pessoas não sabem se comportar em ambientes fechados, elas que se entendam ou que procurem outros ambientes. Esperar ou desejar que o Estado resolva até mesmo o comportamento social significa:
    1) ajoelhar-se diante desse Estado e aceitar tudo que vem dele (incluindo proibição do fumo, controle da Internet e muitas outras coisas) e
    2) ignorar que o Estado é feito de gente, que também fuma e que também não se entende em ambientes fechados. Se eles não sabem se comportar (você vê telejornais, não é?), como esperar que eles saibam intervir quando cidadãos comuns se desentendem?

    Cabeça de legislador é igual bunda de nenê: você não sabe a merda que vai sair de lá. A solução é menos Estado.

  4. continuo discordando disso. “menos estado” e “as pessoas que não se entendem em ambientes fechados que resolvam entre si” é o mesmo que as pessoas com fome e satisfeitas que resolvam entre si quem é que vai comer melhor. ou quem é que vai ter mais bens, ou quem é que vai ter um carro (comprado ou roubado).

    acaba sendo a lei do mais forte e isso pra mim não é certo. se a idéia de política é ter organização mínima, então concordo que o estado tenha que intervir. porque é como pensar na lei maria da penha: se o marido não sabe se comportar dentro de casa com a mulher, o estado tem sim que meter o dedo.

  5. Léo,

    pense nos exemplos que você deu: fome, violência. São casos extremos. Neles a intervenção estatal faz sentido. Perceba que eu falei “menos Estado”, não falei “nenhum Estado”. É óbvio que deve haver alguma regulação. O Estado é necessário para algumas coisas e absolutamente desnecessário para outras. E, como eu disse, a situação começa a ficar bem ruim quando o Estado se ausenta dos assuntos realmente importantes (como fome e violência, por exemplo) e se mostra super-atuante em assuntos em que ele deveria ser ausente (como cultura, comportamento social, hábitos de saúde etc.).

  6. Emendando o meu comentário: a meu ver placas podem ajudar a sinalizar muitas coisas, inclusive a interdição de fumar. Eu não vejo problema nenhum nisso, e depois já temos que resolver por conta própria coisas demais por aqui. Claro que digo isso entendendo a proibição em lugares como escolas, pronto socorros, correios, bancos… jamais em bares, restaurantes, áreas úteis de edifícícos, etc. Obviamente o mais grave de tudo é a sugestão da denúncia, não dá para acreditar numa coisa dessas.

  7. Seu texto é de uma coerência admirável, como quase tudo que vc. escreve.
    Parabéns!
    Quanto ao tema em si, tenho algumas colocações.
    Há tempos que não é permitido fumar em lugares fechados e/ou públicos. Supermercados, hospitais, bancos, elevadores, salas de espera de consultórios, etc.. Não sei se essa não permissão (diferente de proibição???) existia por força de lei. O fato é que a maioria das pessoas respeitava.
    Por que essa lei anti-fumo está rendendo tanta polêmica?
    Na verdade, o que parece, é mais uma lei “eleitoreira”, como foi a lei que criou os medicamentos genéricos.
    Desconheço como a lei anti-fumo foi implantada e aplicada nos países onde essa prática é uma rotina (não fumar em lugares fechados). Gostaria muito de saber.
    Se o Estado quer mesmo acabar com o hábito de fumar, por que não criminaliza o cigarro e vai brigar com as Indústrias de tabaco e abrir mão dos impostos que o cigarro rende?

  8. Léo, me perdoe, mas vc é uma anta batizada de pai e mãe! Quero saber o que vc faz com a fumaça emitda pelos automóveis que são a causa principal da poluição atmosférica de muitas cidades. Acho que vc acredita que o Estado deve dizer até o que vc deve comer, se vc deve peidar, a hora de se deitar, com quem vc deve casar, quantas horas diárias vc deve se exercitar bem a lista seria infinita. Se dermos mais poder a esta Grande Besta que é o Estado, todos estaremos ferrados literalmente, daqui alguns dias o Estado nos oferecerá antolhos creio que vc ficará muito feliz em receber os seus.
    Senta e vai ler 1984 e Admiravél Mundo Novo e Nicolas Gomez Dávila.

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