Graduação em babaquice

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Que me perdoem os jornalistas por este post. Os mais sensatos saberão recusar a carapuça.

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Meses atrás ouve uma grita geral entre os jornalistas porque o STF decidiu derrubar a exigência de diploma para o exercício da profissão de jornalismo.

Ligo a TV para assistir a um telejornal. Vejo repórteres que definitivamente não estrearam esta semana na TV. Uma dessas pessoas estende o microfone para um pai de família cuja casa foi levada pela enxurrada e pergunta a ele:

    Sentimento de desolação, não é?

Em outro telejornal vejo um repórter cuja locução é temperada com uma pontuação absolutamente bizarra. Não lembro exatamente a frase, mas tome qualquer frase de qualquer reportagem de qualquer telejornal. Por exemplo:

    As bulas dos remédios genéricos e similares deverão conter informações semelhantes às apresentadas nas dos medicamentos de referência.

Conforme a técnica de locução atualmente utilizada pelos repórteres, a frase deve ser lida assim:

    As bulas dos remédios genéricos e similares deverão conter informações semelhantes às apresentadas nas dos medicamentos. De referência.

De duas uma: ou todos os repórteres são asmáticos e não conseguem sustentar frases longas sem pausas esdrúxulas ou as faculdades de jornalismo estão desenvolvendo técnicas revolucionárias de pontuação…

O exemplo mais evidente desse estado de coisas é o G1, o portal de jornalismo da Rede Globo. Nele as matérias dos telejornais da Rede são repetidas ad nauseam e a enxurrada de textos ruins, manchetes ruins e enfoques ruins é regra áurea. O G1 já foi objeto deste post do Saboya. Outra amostra recente da incompetência do G1 está na cobertura dada ao caso do italiano acusado de assediar a própria filha. O texto é modificado aparentemente sem critério algum — por mais delicado que seja o fato (grifos meus):

    Italiano é preso por beijar a filha na boca em barraca de praia no CE. (título da matéria do dia 3/9/2009)

    O advogado do italiano preso desde terça-feira (1º) sob a suspeita de ter estuprado a filha de 8 anos, na Praia do Futuro, em Fortaleza. (início da matéria do dia 4/9/2009)

Há ainda exemplos hilariantes, como este, do Ego (que faz parte da Globo.com, que engloba o G1).

É evidente que pessoas que falam errado, publicam fotos (mal) alteradas ou fazem perguntas absolutamente boçais têm diploma, porque começaram a trabalhar antes de junho deste ano, isto é, quando ainda era obrigatório ter diploma para atuar na área. Para estar num telejornal de uma rede de TV importante, certamente não tiveram uma formação acadêmica ruim.

Isto me faz crer que a babaquice é uma regra do jornalismo dito sério. Algumas pessoas se esforçam para argumentar que as redações estão recheadas de estagiários, o que é bem provável. Há também a antiga e notória necrofilia do jornalismo — que muitos associam à própria condição humana. Há ainda, a exemplo do que fazem os autores teatrais, a necessidade de criar tensão e expectativa com o texto jornalístico, porque a notícia precisa receber tempero para tornar-se atraente. E há também a velocidade que a Internet impôs às redações, que obviamente é inimiga da perfeição.

Seja qual for o motivo, alguns podem explicar, mas nenhum justifica o limbo das redações e nenhum explica os protestos pró-diploma entre estudantes e graduados do jornalismo. Na dúvida, mantenho distância segura dos noticiários e divirto-me com o Probably Bad News, sem me surpreender ao descobrir que babaquice não é exclusividade do jornalismo brasileiro.

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3 comentários sobre “Graduação em babaquice

  1. estava eu tomando meu café da manhã no jardim bonfiglioli quando vejo uma manchete de jornal, algo como “bandidos roubam mulheres na avenida tal”. informei aos colegas presentes que havia uma forma simples e insupeita de se livrarem das respectivas esposas. um dos colegas, muito feliz, reparou que os tais “roubos de mulheres” ocorriam na liberdade, o que explicava muita coisa.

    no final das contas, eu prefiro pensar que os jornalistas (sic) estão se divertindo e nos divertindo, e que, não, eles não podem ser tão incompetentes!

  2. A situação dos jornais está pior a cada dia. E olha que na Globo você precisa passar pelo vestibulinho, ou o programa “Estagiar”. Só não sei o que eles cobram. Gramática, redação, interpretação de texto não é…

    PS: Depois da reforma ortográfica, eles desligaram o corretor ortográfico no G1 e muita coisa sai errado todo santo dia. E continua errado no outro.

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