Graduação em babaquice II

tamofu
Há remédio contra o mau jornalismo?

Aqui não se trata propriamente de babaquice, mas de outra coisa igualmente comum e grave no jornalismo brasileiro: falta de isenção. A diferença é que desta vez a coisa é assumida e descarada.

Ouvindo a rádio CBN terça passada tomo conhecimento de um evento que aconteceu na Basiléia (Suiça), promovido pela Roche, a respeito do Tamiflu e do combate à gripe suína. No evento foram apresentadas estatísticas da produção e da distribuição do medicamento e basicamente a reportagem da CBN girou em torno disso. No final da matéria a repórter encerra a transmissão direta da Suiça e o âncora do jornal conclui com o seguinte comentário:

“A correspondente [nome da repórter] viajou para a Suiça a convite do laboratório Roche”.

Como muitos já sabem, o laboratório suiço Roche é o fabricante do Tamiflu. Até o momento este é o único medicamento com alguma eficiência comprovada no combate à gripe suína. Naturalmente, numa situação de pandemia e de monopólio da fabricação e de distribuição do único medicamento capaz de atenuar essa pandemia, o fabricante terá muito interesse em controlar também as informações que são distribuídas a respeito de seu produto e de sua atuação no combate à pandemia. Qual a solução? “Convidar” jornalistas para participar do evento que os informará sobre o remédio.

Em outras palavras, o noticiário da CBN estava completamente viciado. Não digo com isso que as informações que a repórter trouxe da Suiça são falsas — realmente não tenho condições de fazer tal avaliação –, mas é fácil perceber que naquelas condições a repórter e a CBN não teria nenhum motivo para divulgar algo que pudesse ir contra os interesses da Roche. Logo, não havia a menor chance de confiar nas informações transmitidas, por mais verossímeis que elas fossem.

A confiabilidade de um noticiário é diretamente proporcional à liberdade que o jornalista tem para elaborar a notícia e reportar os fatos, sejam quais forem os enfoques. Se você percebe, pelo próprio contexto da notícia, que certos enfoques são impossíveis ou mesmo proibidos, então vem a certeza de que aquele jornalismo não é isento.

Considere ainda que CBN = Rede Globo (O Globo, G1, Jornal Nacional etc.) e que o conglomerado jornalístico já deu diversas provas de que tem poucos interesses na imparcialidade jornalística. Obviamente, o episódio da rádio CBN não prova nada sobre o jornalismo como um todo, mas quando a parcialidade é assumida descaradamente ao ponto do próprio jornalista encerra a matéria dizendo algo como “esta matéria foi paga”, é porque o jornalismo abandonou há muito tempo os princípios que o tornaram bom e necessário.

*
Retomando o tema do post anterior, eu me pergunto se é para coisas desse tipo que se defende a obrigatoriedade do diploma de jornalista. As diferenças intelectuais entre o jornalista que escreve com isenção e aquele que só escreve o que lhe mandam são evidentes. Mencken deve estar se revirando na sepultura.

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4 comentários sobre “Graduação em babaquice II

  1. o mais interessante é que eles descaradamente transparecem a falcatrua, certos de que a platéia, asinina como é, não sabe somar 1 e 1. por via das dúvidas, tamiflu eu só tomo se for dos laboratórios ellen roche.

  2. A questão é que se toma o espectador ou leitor como um cretino. Isso num tipo de banalização, de uma padronização. Explico: um jornalista é uma besta quadrada, e acredita piamente que os espectadores também o são. Entretanto, ele tem um microfone ou uma caneta, e passa a crer que isso lhe dá um ar superior. É um tipo de exaltação imaginativa, como se um microfone ou uma caneta traria um certo poder – e, claro, isso o torna um ser especial.

    O problema é que as pessoas perderam o respeito por elas mesmas; e por conseguinte, já que não respeitam a si mesmos, acabam por desrespeitar todas as outras.

    Ainda em tempo: Faculdade de Comunicação não ensina o sujeito a pensar, nem a escrever e tampouco a entender a responsabilidade das informações que veiculam. Não conseguem dar um passo além de um onanismo coletivo.

    abs,
    Diogo

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