Manifesto horizontalista

edificio
Um apartamento ou a cabine de um dirigível?

Santos acabou. Desconheço os detalhes políticos e burocráticos que causaram isso. O que sei é que há alguns anos políticos aprovaram a ampliação do gabarito dos edifícios nesta cidade e que antes havia prédios de no máximo 8 ou 9 andares e hoje há vários edifícios com mais de 20 andares surgindo como perebas no rosto de um adolescente.

(A imprecisão dos números deve-se ao fato de que a vertigem não me permite terminar a contagem: quando passo do décimo andar, o olhar se afasta definitivamente do chão e vem o desequilíbrio. Desisto de contar e de alimentar qualquer tipo de revolta diante de algo que é infinitamente mais sólido do que eu — sim, os arranha-céus continuarão ali quando eu já tiver ido.)

As obras são vistas como progresso. Os prédios são considerados mais bonitos porque são esguios. Sério.

Eu me pergunto como essa gente consegue viver sem sol. O bolor logo os expulsará de seus apartamentos, pouco importa a quantidade de lazer que haja ao redor, pouco importa o preço por metro quadrado. Se o bolor não o fizer, os carros os impedirão de chegar aos imóveis. Simplesmente não há como imaginar uma boa cidade que subitamente abre as comportas para a duplicação da população sem considerar a impossibilidade de ampliar sua malha viária — para citar apenas um item óbvio. É a coprofagia como lema urbanístico, só pode ser.

Quem se atreve a falar sobre isso como eu me atrevo acaba tendo três destinos diferentes em função de seu status social.

Se o sujeito é profissional da área, seu destino será o limbo. Ele será considerado um pária pelo simples motivo de se manifestar contra aquilo que sustenta a sua profissão e a de seus colegas — e será tratado como tal. A obrigação de construir é pesada demais e seus defensores não perdoam quem a contraria.

Se o sujeito é um político, com algum poder de transformar seu manifesto em ação, seu destino será a rotulação depreciativa, o que, na mente de seus detratores, é suficiente para invalidar seu manifesto. “É um ambientalista”, “é um defensor da natureza” ou “é do Greenpeace” são algumas das opções possíveis. Eu não dou a menor importância para o movimento ambientalista, para a defesa xiita da natureza e muito menos para o Greenpeace, mas tenho especial antipatia por quem combate idéias colando post-its nelas.

Se o sujeito é um cidadão comum, seu destino será a poesia ou algo parecido com isso. Todos o considerarão um romântico, alguém que não tem a menor noção do que é a realidade. Dirão a ele que a realidade determina que as coisas sejam assim, afinal, as pessoas precisam morar e Santos, oras, é um lugar com pouco espaço. Invariavelmente, essas explicações serão seguidas de sugestões para que o sujeito escreva sobre isso ou mande e-mails para o seu vereador, que é uma forma de mantê-lo (o autor dos e-mails, não o vereador, que nunca lê esses e-mails) calmo e ocupado — isto é, um estado de irritação socialmente aceitável, como a do sujeito que sente a gastrite diante dos telejornais e, no máximo, chupa um Pepsamar.

O meu destino tem sido uma mescla do primeiro e do terceiro, porque eu já fui arquiteto e hoje sou cidadão comum (arquitetos não são cidadãos comuns) que, diante dos arranha-céus não passa de um simples observador nauseado.

Não tenho a menor intenção de comover os empresários do setor. Conheço a classe dos arquitetos e não alimento esperanças em relação a ela — embora alguns indivíduos possam ser excepcionais. Investidores, espero que nem leiam isto. Proprietários, só me interessam aqueles que também são moradores, isto é, que têm uma relação com seus imóveis que ultrapassam os números e os logradouros — lembrem-se de que estou falando de uma cidade e de moradias, não do apartamento luxuoso de três quartos e com três vagas na garagem, a três quadras da praia.

Minha intenção com estas linhas é convidar os moradores de Santos — e de todas as cidades que passam por um processo de verticalização parecido com o desta cidade — a ver a cidade em que vivem. Ver é diferente de observar. Quem observa vê os edifícios, aqueles em construção e aqueles que já estão prontos, vê as ruas e a grande quantidade de carros, vê muitas pessoas nas lojas, nos mercados, mas não vê o conjunto, não vê a cidade que resulta da soma de todas essas partes — e, o que é mais sério, não vê as ligações entre todas essas partes e como cada parte é causa e conseqüência da outra.

Como disse o Alberto, “o verdadeiro cliente de qualquer projeto de arquitetura é todo mundo”. Todo o problema está no fato da maioria dos arquitetos projetar como se isso não fosse verdade, como se fosse possível projetar, construir e vender imóveis exatamente como eles são expostos nos stands de vendas. Todos os novos empreendimentos são colocados à venda como se fossem jóias isoladas no vazio urbano, que às vezes nem mesmo urbano é, como se não existissem vizinhos e uma avenida movimentada à frente, como se a escola dos filhos fosse logo ali, como se não fosse necessário usar o carro para comprar pão fresco e como se o condomínio (a maioria é vertical, no caso de Santos) fosse de fato “um santuário de bem-estar” (expressão usada no anúncio de um condomínio santista). Mas esses edifícios não são isolados, obviamente, e logo virá a falta de sol nos cômodos úmidos e minúsculos, a vizinhança que insiste em dar festas até alta madrugada, a vista para outro prédio, o roubo de vagas no estacionamento, a altíssima taxa de condomínio, o sistema de segurança, o acabamento ruim. Enfim, descobre-se depois que a localização privilegiada, o requinte e a sofisticação do empreendimento ficaram nos panfletos e nos stands e que, afinal, aquele é só mais um prédio, apesar do preço pago por ele.

Mesmo que esse éden publicitário existisse e os prédios realmente pudessem ter à disposição sítios ideais, livres de vizinhança, com céu azul e sol pleno o dia todo e próximos dos serviços essenciais, cedo ou tarde esse privilégio acabaria. É sensato imaginar que o êxito de um determinado empreendimento será seguido da realização de mais empreendimentos do mesmo tipo e, claro, isso afetará a qualidade do conjunto — a cidade. Para encontrar um exemplo simples, basta olhar para a Avenida Paulista e lembrar que houve um tempo em que todas as construções ali presentes eram mansões rodeadas de verde — algo bem diferente do que vemos hoje.

Voltando ao caso de Santos, não se trata apenas de uma questão de estética urbana. A cidade não fica apenas feia, a cidade fica realmente ruim. Ventos canalizados por gigantescos paredões, ruas e cômodos sem sol, habitantes que vivem uma coabitação forçada e acabam por se esquecer o que é ter um quintal, uma roseira, um pé de goiaba. Não quero soar romântico — embora esteja consciente dos riscos de ser interpretado assim — e não se trata apenas de experiências estéticas ou sinestésicas; aos que torcem o nariz para manifestos desse tipo, lembro que expressões desse tipo trazem em si questões práticas muito evidentes e importantes. Ter ou não ter a experiência de colher uma fruta no pé ou de poder sentir o cheiro de terra molhada altera o indivíduo. “Um santuário de bem-estar” não é, definitivamente, um 2-quartos-sala-cozinha-banheiro no 18º andar de um prédio onde moram mais 300 pessoas e de onde você só consegue ir para algum lugar se for de carro — sem falar no inferno que aquilo foi para os vizinhos nos dois anos que a construção levou. Bem-estar o caraleo.

Eu realmente não me importo muito se corretores imobiliários querem continuar vendendo apartamentos ruins ou se arquitetos querem continuar se lixando para o resto da cidade, do bairro ou da quadra. Eu me importo com a mentira. A idéia de que a intensificação da verticalização será uma bênção para Santos é no mínimo boçal; pior do que isso é afirmar que um imóvel miúdo num edifício de 22 andares é tudo que uma pessoa pode desejar para si e para sua família em termos de qualidade de vida. Santos ainda tem casas e é uma cidade relativamente segura para quem não deseja viver numa colméia, para quem ainda tem algum apreço pelo pé no chão, por um vida realmente terrena. O problema é que hoje todos têm as cabeças e os bolsos nas nuvens.

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12 comentários sobre “Manifesto horizontalista

  1. Christian,
    entendo o que você está dizendo. Eu moro nas Perdizes e, quando me mudei para cá, há 14 anos, minha rua parecia-se com uma ruazinha de interior, com poucos carros passando, uma delícia. Hoje? Um verdadeiro inferno, um paliteiro generalizado. Para cada lado que a gente se volte, há um novo “empreendimento” sentando fundações. Quinze, vinte andares, cada qual com pelo menos dois apartamentos cada, ou seja, pelo menos dois autos por andar … SOCORRO!! Simplesmente impossível de se viver.
    Santos e as cidades litorâneas estão ficando – que digo eu? JÁ ESTÃO! – inabitáveis. Uma pena …

  2. ano novo chegando, e eu penso, um pouquinho, naquele povo que vai ver o foguetório, algo ridículo, de suas gaiolinhas altas, achando que está causando, bem acima daquele povinho bunda na praia…

  3. É interessante. Aprova-se um novo plano diretor transformando Santos numa espécie de Miami brasileira sem considerar que um significativo aumento populacional traz também uma crescente demanda por serviços — hospitais, supermercados e segurança pública, afinal com mais pessoas os índices de criminalidade tendem a crescer.

    Além disso, há a questão de espaço. Falta-se espaço e a ideia mirabolante é o crescimento vertical, sem considerar que nos movimentamos horizontalmente, assim, seria necessário uma alternativa para o trânsito que já é caótico.

    Enfim, querem uma versão piorada da já intragável Miami.

    Parabéns, Christian! Excelente artigo!

  4. Em primeiro lugar parabéns, excelente reportagem!!!! Nasci e fui criado em Santos, e em CASA com quintal (graças!!!!!!) no velho Macuco hoje chamado de Encruzilhada. A casa ainda está lá, meus pais faleceram e estou tentando voltar a morar ONDE NASCI (privilégio a poucos…….). As pessoas não acreditam que no quintal ainda existem pés de “tamarinos, bananeiras, limoeiros” e mais um montão de árvores frutíferas e plantas diversas, elementos com certeza não encontrados nesses “cubículos”.
    Com certeza prefiro morar em uma casa no Macuco com todos os vizinhos se conhecendo e “trocando receitas” do que em “buraco” de frente para o mar. Abraços e novamente Parabéns. Darwin.

  5. Darwin,

    seu comentário me fez lembrar da casa de meus avós, que também ficava no Macuco e que também tinha um amplo quintal com árvores frutíferas. Hoje chega a ser estranho imaginar que lugares assim ainda existam em plena Baixada Santista, principalmente quando caminhamos pelas ruas e avenidas rodeadas de construções de prédios de mais de 20 andares…

    Infelizmente o apelo da ‘vista para o mar’, do ‘requinte e sofisticação’ e da ‘localização privilegiada’ tem sido forte. Eu prefiro um quintal.

    Obrigado pelo comentário, Darwin.

    ***

    E obrigado também ao Diogo, ao Gilvan e à Maria pelos comentários.

  6. Nossa, você leu meus pensamentos?

    Parabéns pelo texto tão consciente e bem escrito. Você exprimiu tudo o que penso e sinto, opinião também compartilhada pelo meu marido. Ouvi dizer que estaria em vigor uma lei proibindo em Santos, a partir de agora, prédios tão altos. Mas logo vi que só poderia ser ilusão. Já vi a publicidade de um uma “coisa terrível”, de 38 andares, que será construída lá pelos lados da Floriano Peixoto. Meu queixo está caído até agora. Por isso é que reverencio cada árvore e flor que ainda existem em minha amada cidade.E, pasme, tenho um verde lindo quase batendo no meu nariz, diante das minhas janelas. Mas é melhor mantermos segredo disso.

    Um forte abraço e fique com Deus.

  7. 38 andares é uma monstruosidade que apenas reforça o caos urbanístico que se anuncia. O que mais me preocupa é que quem participa disso — de engenheiros e arquitetos até compradores, incluindo empresários, vereadores (que, obviamente, permitiram isso) e publicitários — simplesmente não tem noção do problema que está causando.

    *
    Obrigado por seu comentário, Leda.
    Abraços e fique com Deus.

  8. O pior é que a gente não pode fazer nada mesmo. A não ser se indignar, se indignar e se indignar. Não temos como evitar esse caos que está fazendo Santos desaparecer e perder suas carcterísticas. Não temos como lutar contra tantos interesses. Muito chato isso.

    Beijo e obrigada por responder ao meu comentário. Agora estarei sempre aqui.

  9. Maria,

    o principal ato falho foi a lei aprovada pela Câmara Municipal de Santos, que ampliou de forma criminosa o gabarito dos edifícios. O resto é mera conseqüência.

    E assim chafurda a humanidade — imoral, mas dentro da legalidade…

  10. Discordo. Santos está ficando cada vez mais linda, com visual moderno e que, talvez um dia no futuro terá arranha-céus tão lindos e altos quanto New York ou Dubai. O que os arquitetos e urbanistas devem fazer, ao invés de ficar se lamentando pela perda de espaço lá embaixo, nas ruas, é planejar “saídas”, talvez um novo sistema de trânsito, com túneis subterrâneos e viadutos que atravessam edifícios, como os de Tóquio(que são lindos), possa aliviar e agilizar a movimentação dos veículos e da população, juntamente com “edifícios-estacionamento” para que os cidadãos possam ter onde deixar seus carros tranquilamente. Essas são sugestões que podem dar certo se houver interesse político.

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