Resumo

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— Retorno, finalmente.

— A rotina a dois experimentada durante as festas pode não ser o test-drive ideal para o futuro casamento — porque nenhuma rotina inclui preguiça e diversão ininterruptas —, mas que foi excelente, foi. Em verdade, poucas coisas poderiam ter sido melhores. Ela estava comigo.

— Apesar da boa companhia, sair da rotina não é tão bom quanto estar nela. Decerto trata-se de uma dificuldade muito minha, a de lidar com a alteridade. Começo o novo ano fazendo exatamente as mesmas coisas que fazia quando o ano passado se encerrou. Felizmente.

— Cidades grandes podem ser um bom lugar para viver, a despeito das maldições que já lancei contra elas. Condição necessária para isso é encontrar um modo de vida que dispense todas as atividades, hábitos e posses que nos expõem a esses problemas. Por exemplo, viver perto do trabalho permite andar a pé, que permitirá apreciar o lugar em que se vive e notar suas vantagens e desvantagens. Quem vive dentro de um carro obviamente não tem olhos para a cidade.

— De forma análoga, pouco adianta viver numa cidade pequena e manter exatamente os mesmos hábitos de uma cidade grande — incluindo o carro, a ignorância (i.e. o hábito de ignorar o que há ao redor) e o vício frenético do consumo. Turistas não compreendem isso, claro, e são a fonte de inspiração para quase todas as coisas ruins que afetam as cidades pequenas.

— Digo estas coisas porque ainda não fixei raízes onde quer que seja. Passo meus dias numa cidade grande, em caráter provisório. Olho com certa nostalgia e interesse as cidades pequenas, mas sei que a realidade desses lugares é menos deslumbrante do que parece. No fundo, sei que o problema maior é a brasilidade e que a qualidade de um lugar depende da capacidade que seus habitantes de levar uma vida positivamente alienada — isto é, com olhos voltados ao que realmente importa, àquilo que está ao redor, não nos telejornais.

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4 comentários sobre “Resumo

  1. existem muitas mistificações em torno da conceituação de cidade grande e cidade pequena, e os grupos, tanto detratores quanto defensores, de cada facção são, quase sempre, equivocados ou mal-compreendidos.

    ah, a alteridade! aikidoístas e chegados na filosofia oriental deveriam estar bem alinhados com a alteridade, dado que ela seria uma correlata da impermanência. por outro lado, a rotina superficial é o que define a maioria dos métodos de artes japonesas, a repetição como aprendizado, embora cada repetição seja um pouco diferente para quem a experimenta.

    divagações, enfim, e o desejo de um bom 2010.

  2. Hey Christian, a respeito deste último tópico, também penso muito sobre a questão da brasilidade, o “jeitinho brasileiro”, e quase sempre chego à conclusão de que, apesar de não conhecer pessoalmente o estilo de vida em outros países, aqui não é o lugar ideal pra mim.

    Sou nascido e moro em São Paulo. Há algum tempo vem aflorando em mim uma sensação negativa à respeito da cidade, principalmente depois de algumas viagens que fiz, tenho visto Sampa como uma cidade perversa e exageradamente caótica. Por esse motivo, fico à imaginar países onde talvez pudesse levar um estilo de vida mais compatível com minha personalidade. Fiquei curioso imaginando se você também já chegou a considerar a vida em outra nação.
    Se sim, qual(is) ?

    Um Abraço!

  3. Sim, já considerei. E continuo considerando. Tenho motivos para crer que o Brasil é um dos piores países do mundo para se levar uma vida honesta, segura e próspera. Um país que cospe na cultura e nos valores morais como o Brasil acaba encontrando apenas degradação em todos os sentidos — econômicos, sociais, ambientais. É mero acaso que o Brasil tenha algum êxito econômico em escala mundial. Esse êxito encobre a decadência em vários outros aspectos do país, não é difícil notar. 50 mil assassinatos por ano é sinal de que algo vai muito mal. E o Brasil vive sob uma ditadura — implantada lentamente através das ações afirmativas e da pesadíssima carga tributária e burocrática.

    Considero morar em qualquer país onde eu possa encontrar mais segurança, mais liberdade e mais moralidade do que o Brasil. Na América Latina, só o Chile parece ter esses atributos. Fora da América Latina, realmente não sei; tendo a olhar com atenção os países que não estão nos noticiários, como Irlanda, Romênia, países eslavos, escandinavos etc. Figurar nos noticiários não é um bom sinal — geralmente os países viram notícia quando participam demais de um modo de ser, de governar e de se desenvolver que não é deles, que tem cada vez menos a ver com a história daquele lugar e daquele povo.

    Qualquer país que seja capaz de prosperar, de se manter alheio ao globalismo e de preservar sua história, sua cultura e seus valores, me interessa muito.

    *
    Obrigado pelo comentário, Philipe.
    Abraço!

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