Voz divina

monk praying

As pessoas têm medo de si mesmas. O consumo, o barulho, a sociabilidade excessiva — todas estas coisas são formas de dissolver a atenção e de desviá-la da única coisa realmente importante: você mesmo. Nem mesmo as religiões mais antropocêntricas são capazes de ampliar a compreensão que o indivíduo tem sobre si mesmo. O diálogo entre Deus e o homem fica reduzido a uma gritaria sem sentido, em que se assume que os dois são plenamente conhecidos.

Oras, se parece razoável perguntar quem ou o que é Deus, é ainda mais razoável e necessário perguntar-se quem você é e se a voz que se dirige a Deus é a sua própria. Deus não se importa com a sua desonestidade. Ele sabe quando você mente ou diz a verdade. A sua mentira não faz a menor diferença para Deus, mas faz alguma para você. Não existe código moral que o obrigue a dizer a verdade, mas não há dúvidas da importância de saber intimamente se o que você diz é verdade ou mentira. Saber o que se sabe e saber o que não se sabe — a sabedoria constitui-se, em grande parte, da consciência sobre a extensão do próprio conhecimento. Seja o sim sim e o não não.

Em outras palavras, a pior forma de dirigir-se a Deus é aquela em que não reconhecemos nossa própria voz. O primeiro passo é, portanto, reconhecê-la. Não é algo simples.

Se faz frio e você pensa “estou com frio”, é relativamente fácil saber até que ponto trata-se de uma reação autêntica. Pode-se admitir que seu corpo é algo que você pode controlar razoavelmente bem (a rigor, as coisas não são bem assim, mas isto fica para outra ocasião). Problemas começam a surgir quando começamos a falar de emoções, desejos e aversões. Pensar “estou com frio” é algo bem diferente de pensar “vou comprar um paletó” ou “não gosto desta blusa”. Sentir frio e pensar em como está frio são reações bastante naturais e espontâneas. Atenuar a sensação de frio com uma blusa de lã ou uma xícara de chá são ações decorrentes de várias outras coisas além do frio e do efeito do frio em seu corpo. Seu corpo sente frio, mas não é só seu corpo ou só sua mente que decidem vestir uma blusa quente ou beber chá. O que quero dizer é que a autenticidade de um gesto é diretamente proporcional à “distância” percorrida desde o objeto ou fenômeno observado até o gesto propriamente dito — e não é difícil perceber que quando a voz é a nossa própria, essa distância costuma ser bem pequena.

Se você consegue distinguir a própria voz, terá mais condições de distinguir cada voz do mundo e, conseqüentemente, saberá reconhecer a voz de Deus quando Ele se dirigir a você.

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8 comentários sobre “Voz divina

  1. Um dos exercícios cênicos que experimentei , nas andanças teatrais, consistia em adequar a intensidade vocal de acordo com a sua localização no espaço e o objetivo final da ação: o público. Um exercício simples mas era espantosa a quantidade de marmanjos que não conseguia fazer este ajuste. Muitos berravam quando o público estava próximo, outros sussurravam com o público distante. A potência vocal geralmente não era o problema, mas a falta de orientação no espaço externo refletia a falta de orientação no espaço interno; a pessoa, mesmo tendo todas as condições para falar bem, ficava sem saber como soltar a voz e inviabilizava a comunicação. Quando li teu texto recordei desta experiência e a partir dela faço um paralelo com “a voz divina”.

    Penso que o primeiro passo para um diálogo sincero com Deus é perceber e assumir, com franqueza absoluta, o espaço que você ocupa e qual é o seu tamanho real perante Ele. A partir desta percepção, reconhecer a própria voz no meio da legião de interferências torna-se mais fácil… eu acho. A experiência da confissão é grande aliada neste processo de buscar a verdade objetiva em si e no mundo… e isso eu tenho certeza!

    Por fim pontuo que a única coisa verdadeiramente importante é Deus. Parece óbvio mas tenho a impressão de que este reino da mentira moderna nasceu quando o homem proclamou: ” Amar ao homem sobre todas as coisas!”.

    A humildade em assumir seu tamanho e aceitar que você só é alguma coisa por Misericórdia Divina, leva à coragem para acolher a responsabilidade de ouvir e antender a Ele ( a Santíssima Virgem é um grande exemplo disso!).

    Abraços fraternos,

    Mari*

    CAI O PANO…hehehe

  2. Detalhe 2: acabei de escrever um comentário longo mas quando postei o último o primeiro sumiu! Isto é possível? Ele foi encaminahdo para a moderação? Ou é um fenômeno da minha burrice para com estas ferramentas eletrônicas? Christian Rocha não me deixe nesta angústia!! ahahaha

    Mari*

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