O que ando fazendo

O blog em banho-maria indica que algo deve estar acontecendo longe daqui. De fato está.

Tem sido um período de transição para mim. Encontro-me em processo de mudança de cidade, mudança de trabalho e mudança de mentalidade. Nem eu acredito ter idade para crises e para a necessidade de mudar a mentalidade. Não tenho mesa própria para virá-la. Não tenho sequer um trabalho normal que torne uma mudança profissional realmente significativa. Não tenho nada. Tenho a mim mesmo, conto com a ajuda preciosa de umas poucas pessoas que amo e sigo somente porque ficar deitado não vai garantir minha tigela diária de açaí e ainda por cima eliminará qualquer possibilidade de ter um gato para cuidar um dia. Como se vê, tenho pretensões miúdas e há pessoas ao redor que dizem que isso é que me destrói as chances de realmente ser alguém um dia.

Eu não sei o que é “ser alguém”. Você sabe? Eu não sei. Deve ser algo bom, porque nunca vi uma pessoa desejando “ser ninguém”. Mas eu já desejei isto: passar despercebido, mergulhar em meditação, ficar quieto e em silêncio. Quem realmente já experimentou isso sabe que poucas coisas são melhores do que ser ninguém.

***

Pausa para falar de yoga.

Acredito que alguns dos seis leitores deste blog não estão acompanhando o que escrevo no Advaita Yoga. O que escrevo por lá (ainda) não revela a dimensão que o yoga tem em minha vida. Não posso falar de panacéia, porque diversos males ainda me afetam e um deles é lidar com pessoas que exigem que eu seja alguém — sob um ponto de vista exageradamente social, o que é diferente de ser alguém para as pessoas que amo ou para o gato de estimação que eu terei um dia. Mas, mesmo que o yoga não seja panacéia, é fato que para mim trata-se de algo necessário.

Não me refiro somente às práticas físicas, que melhoram a disposição física e a qualidade do sono, que beneficiam a saúde e me impedem de adoecer. É bem mais do que isso. Não há dúvidas de que um dos benefícios que o yoga proporciona é a revelação de um universo interior muito maior do que o universo exterior (mais adiante, percebe-se que há um benefício maior ainda: a revelação de que não há diferenças importantes entre o universo interior e o exterior). Então, após dedicar-se ao yoga por algum tempo, você percebe o que é imporante e o que não é, o que merece atenção e o que não merece, o que deve ser objeto de esforço e o que não deve ser. E assim você não perde tempo e energia porque derramou café na roupa, porque o seu time foi derrotado ou porque o cachorro está fazendo as coisas que todo cachorro faz. Você simplesmente vai lavar a mancha de café, enrola a bandeira e espera o próximo jogo do seu time e vai recolher a sujeira de seu cachorro. Em silêncio.

Como eu disse, não se trata de panacéia. Também não se trata de muleta, placebo ou buraco para avestruz (sim, sei que essa história da avestruz é mito). Yoga é tão-somente o paninho que você passa no pára-brisas do carro enquanto dirige em dias quentes e chuvosos — e você sabe que você não é o carro, não é o paninho e não é o passageiro ao lado. Mas tem gente que passa uma vida inteira cuidando do carro, sem chegar a lugar algum.

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Não foi à toa que falei do yoga logo depois que falei de ser ninguém. Na verdade o yoga tem ajudado bastante nesse período de transformações. Não que eu pretenda verdadeiramente ser ninguém e me “dissolver em Brahman”, como dizem os yogi. Mas é bem interessante observar-se o tempo todo diante de todas aquelas transformações. O yoga ensina a desidentificação, ensina que não somos nada daquilo que normalmente acreditamos que somos, como o corpo, a mente, dores e prazeres, idéias e desejos etc. O mundo ensina que somos tudo isso e várias outras coisas que nunca terão nada a ver conosco.

É bem simples desidentificar-se do novíssimo tênis lançado semana passada, principalmente quando você não o quer e não pode pagar por ele. Mas é bem difícil desidentificar-se do desejo de ter um objeto quando realmente o queremos ter e da frustração diante da impossibilidade de tê-lo. Também é difícil desidentificar-se da irritação decorrente de uma discussão familiar, da falta de perspectivas profissionais e financeiras, da sensação de impotência quando o corpo adoece e de tantas outras coisas que nos acostumamos a chamar de “eu” ou de “meu” — porque meus sofrimentos e necessidades sempre serão maiores do que os seus.

Essas dificuldades não tornam a desidentificação menos necessária. Não se trata de ligar o F para tudo e todos — o engraçadinho pode pensar: “se não sou corpo e não sou mente, se não sou filho de minha mãe e se não sou o sujeito que está devendo no banco, então…”. Então ele leva uma martelada no pé e lembra que tem um pé, o banco lhe toma os poucos bens que acumulou e ele lembra que tem dívidas, uma gripe o faz tremer e espirrar freneticamente e ele lembra que tinha um corpo saudável, ele se desespera com tudo isso e lembra que tinha paz de espírito. A desidentificação não nos dispensa de cuidar do corpo, da mente, das idéias, das emoções e dos desejos — porque todas estas coisas podem causar problemas. É uma questão de praticidade — assim como a faxina, embora não seja a ocupação mais adorável do universo, garante que não vamos escorregar em cascas de banana ou ter o estômago embrulhado pelo cheiro de coisas estragadas.

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Assim, o que ando fazendo é conciliar a vida mal resolvida que sempre tive com a necessidade de resolvê-la logo — porque passou a ser gentileza dizer que estou um pouco atrasado nisso — e com a necessidade de ver através disso tudo — porque, embora ter profissão e êxito sejam coisas importantes, saber quem sou é o que garantirá que eu não me perca numa profissão, num ostracismo, num êxito ou num fracasso. Posso não ser muita coisa, mas eu seria bem pior sem mim.

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5 comentários sobre “O que ando fazendo

  1. Olá, Christian!

    parabéns pelo discernimento…
    dá sempre prazer observar níveis elevados de consciência…
    eu sei que você acha que ainda não está nada elevado…
    caminhemos porque esse é o Caminho que é… :)

  2. Christian, escrevo com lágrima nos olhos e um nó imenso na garganta. Estou numa transição também. Percebo que algo está mudando em mim, porém não consigo me libertar de certas coisas. Fiquei emocionada com o texto por identificar nele o exato momento em que vivo.
    Parabéns, gostei muito do blog.

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