Adesismo e desobediência

Conseqüência, idéia, pólo, enjôo, tranqüilo, auto-estrada.

Estas e outras palavras continuarão a ser grafadas neste blog como sempre foram: com português correto, brasileiro, não-unificado e distante das mãos polutas de políticos que mal conseguem escrever “assessor” sem consultar o próprio.

O que impressiona na reforma ortográfica é o adesismo. Tão logo aprovada a reforma, ela foi prontamente adotada pelos meios de comunicação — todos eles. Desconheço exceções. Por que a pressa? Por que a pronta adesão a tudo que vem de cima?

(Não sei a quantas anda a população — a maioria também não sabe como escrever “assessor”, flerta com o miguxês e certamente ficou aliviada por poder dispensar o trema.)

De minha parte o que posso fazer é desobedecer e sugerir que mais e mais pessoas façam o mesmo. Por quê? Alguns motivos muito simples:

1) Políticos não têm autoridade para instituir o que quer que seja no que diz respeito ao idioma que usamos. Pode-se argumentar que foi formada uma equipe de lingüistas e que os estudos e opiniões deles é que determinaram a reforma ortográfica. Tanto pior, pois demonstra que políticos simplesmente não conseguem pensar sozinhos e não entendem dos assuntos que discutem, aprovam e desaprovam.

2) Um dos objetivos da reforma ortográfica foi unificar o português utilizado em países tão diferentes como Angola, Portugal e Brasil. Numa escala nacional, isto equivaleria a querer que os baianos parassem de falar “ó xente” e que os gaúchos parassem de falar “bah tchê”. Experimente dizer a um inglês que o idioma que ele fala é igual àquele falado pelos norte-americanos.

3) No que diz respeito ao idioma, existe algo muito mais importante e preocupante do que um punhado de acentos: a novilíngua que é o que proíbe que uma abortista seja chamada de abortista.

4) No que diz respeito às ações políticas (e a reforma ortográfica foi uma ação política), deve-se perguntar sempre duas coisas. Primeiro, quem está propondo; geralmente a simples identificação das pessoas, grupos ou instituições responsáveis pela proposta elimina qualquer dúvida sobre suas motivações reais (isto é, não divulgadas). Segundo, quem se beneficia com a proposta; não se surpreenda se houver um abismo separando as evidências e as intenções declaradas. A reforma ortográfica não sobrevive a estas duas questões.

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Um comentário sobre “Adesismo e desobediência

  1. belo apontamento: eu observei a adesão rápida em publicações como national geographic e hsm management, que usavam as novas regras assim que estas saíram, provavelmente até se antecipando, dado que um prazo considerável é necessário para produzir todo o conteúdo e colocar nas impressoras.

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