Caos — em breve, num hipermercado perto de você

Se não quiser se aborrecer, ignore o post abaixo.

O iogurte acabou.

Você vai ao mercado e ainda encontra bandejinhas deste tipo:

iogurte?

Na próxima vez que for ao balcão de laticínios leia com atenção as letras miúdas. Encontrou a palavra “iogurte”? Nem eu. Você encontra algo como “leite fermentado com polpa de fruta” (e a polpa de fruta, obviamente, tem mais “polpa” do que fruta). De oito marcas que usualmente encontro em mercados, apenas duas ainda afirmam ser iogurte.

“Mas parece iogurte, ainda é vendido em bandeja com seis potinhos, tem gosto de iogurte e não é iogurte?”. Não, não é. É leite fermentado com polpa de fruta. Escapam-me as diferenças nutricionais e biológicas (sei apenas que são bactérias diferentes que processam a fermentação do leite), mas se a indústria alimentícia fez a modificação da forma mais discreta possível, certamente é algo que não traz nenhuma vantagem para o consumidor. Recomendo ler as letras ainda menores, que explicam detalhadamente a composição do produto. E não se surpreenda ao constatar a consistência rala do ex-iogurte.

Exemplos semelhantes são encontrados no requeijão (agora ‘enriquecido’ com amido), nas bolachas (pacotes cada vez menores), no papel higiênico (em rolos cada vez menores), na manteiga com 50% menos colesterol (isto é, misturada com margarina), no queijo ralado (em que se encontra de tudo, menos o parmesão), nas barras de chocolate (embalagens cada vez menores) — todos esses produtos têm quantidades e qualidade reduzidas sem que haja redução proporcional no preço.

Já tratei deste assunto neste site — aqui. O tempo passou e notei algo curioso: os novos produtos estabeleceram novos padrões. No caso do chocolate, praticamente todas as barras hoje têm 170g. As embalagens de biscoito, 164g (no caso dos waffers esse padrão é ainda menor, em torno de 140g). O papel higiênico, 30m. E assim, qualquer lançamento nesses segmentos acaba seguindo o novo padrão, como se as barras de chocolate de 200g e os rolos de papel de 40m nunca tivessem existido. Não consta que o consumidor tenha parado de comprar esses produtos e que essas mudanças tenham causado alguma queda nas vendas.

Permita-me continuar minha lenga-lenga.

O assunto parece de somenos importância. Ele é bobo na medida em que podemos deixar de comprar certos produtos — é o caso dos biscoitos, do chocolate (a gama de guloseimas disponível no mercado é gigantesca) e do queijo ralado (basta comprar um pedaço de um bom provolone e ralá-lo em casa). Mas como escapar aos novos padrões no caso de produtos essenciais? Alternativa ao papel higiênico de 30m? Não há. Isto não significa não poder fazer uma compra digna de papel higiênico — o que também é assunto banal ou, como diriam alguns, de foro íntimo. Isto é um pouco mais sério: a indústria está cercando o consumidor, deixando-o sem alternativas, calando-o, atando suas mãos e seu poder de decisão.

Por que? Primeiro, porque a indústria sabe que o consumidor não lê e quando lê não entende. Segundo porque mesmo que leia e entenda, fará pouco com essa informação. E, terceiro, se fizer alguma coisa, poderá avançar muito pouco, no máximo fará algum barulho entre os vizinhos e colegas. Fim de papo. A indústria sempre ganha. Tudo que você tem a fazer é desistir do iogurte e começar a comprar o leite fermentado, alimentando assim sua credulidade na bondade da indústria.

(Digo indústria, genericamente, em vez de indústria alimentícia porque, claro, este caso não se limita aos alimentos, embora nestes esse tema se revele mais facilmente. No entanto, essa facilidade não foi suficiente para frear a maquiagem de produtos e manter os padrões de antes.)

Qual a saída? Como já apontei antes, a saída é esforçar-se para que o barulho feito em torno dessas coisas seja cada vez maior. Siga este tutorial:

1) Escreva um email expressando seu descontentamento com o produto e prepare-o para enviá-lo para o serviço de atendimento ao consumidor correspondente. A resposta padrão para emails desse tipo é o silêncio ou, no máximo, evasivas, sempre genéricas.

2) Para evitar o silêncio ou o desvio do assunto, ao enviar o email envie cópias abertas para órgãos de imprensa e blogs e sites especializados em defesa do consumidor. É fundamental que a empresa abordada saiba que o mico está sendo testemunhado por gente que entende do assunto e que pode tornar a coisa ainda mais pública. Para enviar cópias abertas para outros destinatários, basta adicionar seus endereços no campo CC do email; o destinatário principal recebe a mensagem sabendo que é para ele, mas consegue ver que outras pessoas receberam a mensagem e servirão como testemunha da pendenga.

3) Se o silêncio persistir, não é inadequado repetir a mensagem em tom mais forte — novamente, enviando cópia aberta para órgãos de imprensa e defesa do consumidor.

4) Se possível, contate associações de bairro e outras entidades oficiais de sua cidade de modo que elas também contatem essas empresas expressando seu descontentamento.

5) Claro, a expressão só faz algum sentido se é acompanhada de ação efetiva. A mais simples e necessária é o boicote: pare de comprar lixo.

6) Contatos telefônicos (quase toda empresa dispõe de um 0800) também devem ser utilizados. Atente apenas ao formulário padrão usado pelo atendimento via telefone. Se possível registre as informações obtidas via telefone e some-as ao email. Há alguns anos, quando questionei por telefone uma empresa sobre a redução dos rolos de papel higiênico, a atendente foi capaz de me dizer que a redução foi possível porque o papel teve sua qualidade melhorada; logo, segundo a empresa, era possível usar menor quantidade do produto. Ela disse isso sem gaguejar e sem cair na risada. Discurso pronto, claro.

Obviamente, a barulheira não o dispensa de usar mais do que dois neurônios quando for às compras. Leia as embalagens, sempre. Nada do que escrevi aqui foi-me revelado pelos jornais ou pela internet. Eu apenas tomei os produtos nas mãos e li as embalagens. Não li apenas a data de validade.

E, claro, agradeça ao fato das empresas ainda serem obrigadas a informar o que há dentro das embalagens. No ritmo em que vão as coisas, é bem possível que isso mude.

*

Complemento:

Não são só os consumidores que não lêem as embalagens dos produtos. Que tal subscrever uma lei sem saber do que ela trata?

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2 comentários sobre “Caos — em breve, num hipermercado perto de você

  1. a redução massiva do peso líquido das embalagens de biscoitos tipo wafer e recheado coincidiu com a minha decisão de deixá-los, de modo que observei a mudança de uma distância insensibilizante. o segmento de biscoitos integrais simplesmente aumenta o preço, sem esta hipocrisia de redução de peso.

    a dificuldade maior reside em comprar papel higiênico. é pior do que comprar refrigerante. se fôssemos um país sério, as crianças teriam aula de aritmética básica nos corredores onde fica o papel higiênico. o primeiro moleque que conseguisse determinar o melhor custo-benefício, demonstrando seus cálculos, estaria automaticamente aprovado, e nem precisaria voltar à sala de aula.

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