O anticristo

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Lembra da Segunda Guerra Mundial? Naquela época todo o mal do mundo era personificado por Adolf Hitler. Se você era a favor do bem, bastava apontar seus rifles para a Alemanha nazista, mais precisamente para a testa do führer. Não é coincidência que Hitler tenha acabado junto com a Guerra, ou vice-versa.

Do parágrafo anterior, peço especial atenção à frase “o mal do mundo era personificado”. Analise-a com cuidado por alguns instantes e, à luz dessa análise, pense em outros fatos históricos. Note que na maioria dos eventos importantes da história do mundo o mal esteve personificado em uma pessoa ou em um grupo. Isto é, historicamente o mal sempre teve uma cara definida o suficiente para que não errássemos a mira. Bastava mirar o rifle e atirar.

(Até onde pude entender, a teoria de René Girard sobre o bode expiatório explica essa personificação em detalhes. Por enquanto, me interessa menos explicar a teoria do pensador francês — que, aliás, estou longe de dominar — do que compartilhar uma percepção apenas.)

Talvez não seja mais assim. Logicamente ainda existe um esforço ingênuo, quase romântico, no sentido de dar uma cara para o mal. Por exemplo, a esquerda associa o mal ao capitalismo — corporações e empresários mormente — de uma forma semelhante a que os moralistas usavam para associar o mal às moças impuras e às músicas demoníacas. Mas noto que essa associação torna-se cada vez mais difícil, dissoluta, obscura, ao ponto de tornar risíveis as pessoas que insistem nela. São românticos, caricatos e tolos, enfim.

É evidente que essa associação, isto é, a concentração de um significado em uma única pessoa, grupo ou instituição faz cada vez menos sentido. O mal não está nisto ou naquilo. O mal está em toda parte, pulverizado, diluído no ar, nos hábitos, nas idéias, nas informações. O mal está em mim, em você, ao nosso redor.

Talvez isso tenha começado precisamente com o fim da Segunda Guerra Mundial. A concentração de forças poderosas nas mãos de um único homem realmente não tinha como acabar bem (para esse homem). Sorte de quem combateu esse mal: eliminado o homem que o personificava, eliminava-se todo o mal, ao menos temporariamente. A lição parece ter sido absorvida pelas pessoas dispostas a continuar projetos de poder tão ambiciosos quanto os dos nazistas: hoje não há dúvidas de que o mal está tão presente quanto estava durante a Segunda Guerra e no entanto não há uma pessoa, grupo ou instituição a quem se possa atribuir a responsabilidade por todo esse mal.

Da forma como compreendo o assunto, esse mal pode não estar personificado e pode não ser facilmente identificado, mas pode-se atribuir-lhe um nome: Nova Ordem Mundial. Aos poucos esse nome ganha forma, embora ainda não tenha um rosto ou um aspecto evidente. A Nova Ordem Mundial manifesta-se em tudo aquilo que parece poderoso e ao mesmo tempo invisível, em tudo aquilo que parece muito maior do que o indivíduo, em tudo aquilo que parece inatingível, onipotente e onipresente.

Governos de todo mundo têm-se alinhado com a Nova Ordem Mundial. Como o nome sugere, uma das diretrizes da Nova Ordem Mundial é o estabelecimento de um governo mundial, em que fronteiras, culturas e povos seriam dissolvidos, constituindo assim uma única nação. À primeira vista a idéia pode parecer boa, porque os sentimentos nacionalistas — movidos em grande parte pela territorialidade e pelas diferenças culturais — têm sido o estopim de muitas guerras. No entanto, como dito antes, não se constrói uma nova ordem mundial, pacífica e supra-nacional, sem um governo mundial. Como se constrói um governo mundial e o que ele significaria na vida das pessoas? Ele é construído com violência — discreta ou exacerbada — e, instalado, seria o governo mais totalitário que já existiu.

Observe, por exemplo, como é ser o cidadão de uma pequena cidade. Quando um problema surge em sua rua ou em seu bairro, você se dirige à prefeitura, comunica o problema e solicita as ações adequadas. Note as etapas necessárias e o tempo gasto entre detectar o problema e vê-lo resolvido. Note os percalços burocráticos, as microvilosidades e as sutilezas do poder público. Note o desnível entre o poder que você tem como cidadão e o poder que uma simples prefeitura possui. Note, por fim, que o prefeito e seus secretários ficam estrategicamente posicionados em lugares inatingíveis, ocultos, às vezes atuando de forma obscura. Note que quanto maior a cidade, mais marcantes são estas características do poder público; numa metrópole não existe a mais mínima possibilidade de um cidadão comum ter contato com um político do alto escalão. Quando extrapolamos o exemplo supra para o nível estadual e federal, o cidadão torna-se ainda menor e seu antagonista, maior.

A regra fundamental do poder público é não ter um rosto — o cidadão relaciona-se com um sistema, com leis, com códigos, com tributos, não com pessoas. Mesmo a pessoa que o atende atrás do balcão numa repartição pública não é uma pessoa, mas um representante de um sistema — o fato de ela própria não compreender inteiramente o sistema que representa demonstra que ela está totalmente inserida nesse sistema; engrenagens não podem ter consciência.

Um governo mundial segue os mesmos princípios, mas de forma muito mais terrível. Um governo mundial não poderá ter uma sede e não poderá ter um líder, não poderá ser influenciado pelas diferenças culturais de cada região do planeta, exigirá uma moeda única, a anulação das fronteiras e, claro, não se submeterá aos apelos populares. A instalação de um governo mundial significará a anulação do indivíduo e de tudo aquilo que ele possa representar dentro da estrutura da realidade. Em outras palavras, um governo mundial significará a destruição da própria realidade.

Evidentemente, não é o governo mundial que instala a Nova Ordem Mundial, é a Nova Ordem que instala o governo mundial — isto acontecerá sem resistência, praticamente com apelo e aplauso populares. Como isso é possível?

Quase todos os acontecimentos atuais cujas conseqüências ultrapassam os limites de uma cidade são reflexos da Nova Ordem Mundial. Manifestações a favor da descriminalização das drogas associadas a cruzadas anti-tabagistas são reflexos da Nova Ordem Mundial. A defesa do aborto associada à defesa dos direitos dos animais também é. Movimentos organizados em defesa dos direitos homossexuais e raciais e, de outro lado, movimentos em favor da igualdade, da justiça social e contra a violência também são. Some todas essas causas, analise-as umas à luz das outras: é evidente que elas não pretendem construir uma sociedade melhor, mas destrui-la desde dentro. Somadas, elas terminarão por se anular, levando com elas tudo aquilo que sustentou este mundo até hoje e lançando cada indivíduo no vazio absoluto. Eis que surge o governo mundial, com o objetivo declarado de salvar o cidadão desenganado por um mundo cada vez mais caótico.

*

Lembremos que esse governo não tem rosto, é inacessível, é inatingível, vê tudo, controla tudo e pode tudo. A Nova Ordem Mundial é um mundo de abstrações — um mundo em que todas as coisas serão substituídas por seus símbolos, inclusive pessoas e, logicamente, seus direitos e suas liberdades.

As informações são cada vez mais confusas, tornando cada vez mais difícil a percepção da realidade. O dinheiro é cada vez mais abstrato — note como a criminalidade, fracamente combatida pelo poder público, é argumento suficiente para que essa abstração prossiga. Movimentos raciais e homossexuais pressupõem que o Estado estabeleça normas e as fiscalize, colocando-o como intermediário nas relações humanas. A família, o berço do indivíduo, último bastião capaz de resistir à Nova Ordem Mundial, é fragmentada pela descriminalização progressiva das drogas, pela institucionalização do aborto e da eutanásia, pela derrocada dos poucos pilares capazes de fazer frente a esse estado de coisas. Estabelece-se um sistema em que o indivíduo é obrigado a participar, submetendo corpo e consciência a práticas, costumes e regras que terminarão por aprisioná-lo definitivamente (v. por exemplo a polêmica em torno do homeschooling: famílias são obrigadas a submeter seus filhos ao sistema educacional oficial).

Diante disso, o que o indivíduo pode fazer? Não me parece que há algo para fazer além de resistir com todas as forças disponíveis e manter-se alerta aos sinais que esse novo mundo oferece.

Para a maioria das pessoas nada há de errado na abstração de todos os aspectos da vida, tampouco lhes incomoda que grupos organizados afirmem que possuem direitos especiais. Também não incomoda a essas pessoas que crianças sejam obrigadas a ir para as escolas, que o aborto seja permitido e que as drogas sejam liberadas. Essas pessoas não se importam em entregar suas liberdades e seu dinheiro ao governo, desde que ele cumpra sua parte. O fato de receberem afagos oficiais parece que lhes é suficiente. Ganha-se por um lado, perde-se por todos os outros — eis o que essas pessoas não notam.

*

No séc. XIX Henry Thoreau recusou-se a pagar impostos porque viu que o Estado usava parte desses recursos para financiar uma guerra absolutamente injusta. Foi preso. Passou alguns dias na cadeia até que lhe pagassem a fiança. O famoso ensaio “Desobediência Civil” nasceu desse episódio. Difícil imaginar que isso pudesse ter algum impacto hoje. Sob a ditadura silenciosa que se amplia diariamente, seria bem fácil Thoreau morrer na prisão ou, ao sair de lá, tornar-se mais um anônimo a quem se atribui loucura ou personalidade conspiratória.

Eu não duvido que a maioria das pessoas tenha uma inclinação natural para o bem. O problema é a cegueira voluntária diante do mal. Todas buscam o anticristo, para combatê-lo ou para mantê-lo afastado de suas vidas, mas ainda buscam uma figura vermelha, com chifres e rabo pontudo. O mal adaptou-se, tornou-se disforme, diluiu-se, impregnou-se em nossas vidas. Você não o vê, mas ele está tão vivo como nunca. Chama-se Nova Ordem Mundial.

***

Notas:

1) a Nova Ordem Mundial é tratada por muitas pessoas como uma teoria conspiratória, o que causa a impressão de que estamos falando de uma vila de gnomos ou do homem do saco. A quem prefere crer que se trata de uma teoria conspiratória, recomendo ler os jornais com atenção redobrada. Por exemplo, recentemente Cuba ganhou a vice-presidência do Conselho de Direitos Humanos da ONU; quem quer que tenha ouvido falar da situação dos direitos humanos em Cuba sabe que o que a ONU fez é uma piada grotesca. Exemplo semelhante é o do Irã e sua cadeira na Comissão de Direitos da Mulher, da mesma ONU.

2) Além da ONU, um dos estandartes da Nova Ordem Mundial, recomendo ao leitor uma breve pesquisa em torno do Grupo Bilderberg. Este artigo do filósofo Olavo de Carvalho continua aberto a réplicas dos mais céticos.

3) Há poucos anos David Rockefeller, um dos principais apóstolos da Nova Ordem Mundial, declarou:

Somos gratos ao Washington Post, ao New York Times, à Time Magazine e a todas as outras publicações cujos diretores atenderam aos nossos pedidos e respeitaram as suas promessas de discrição por quase 40 anos. Teria sido impossível para nós desenvolver o nosso plano para o mundo se nos tivessem colocado nas luzes da ribalta durante todos estes anos. Mas o mundo está mais sofisticado e preparado para caminhar no sentido do Governo Mundial. A soberania supranacional de uma elite intelectual e banqueiros mundiais é preferível ao nacionalismo e auto-determinação praticados nos séculos passados. (link)

4) O leitor poderá argumentar que isso não prova a existência de planos especificamente criados para a instalação de um governo mundial, para a criação de uma nova ordem e para a reinvenção do mundo. No entanto, é razoável considerar que o maior risco é de que o advento de tais coisas inviabilizará até mesmo a obtenção de conhecimentos e de provas sobre esse assunto.

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2 comentários sobre “O anticristo

  1. Embora hoje possa parecer irresistível a ascensão dessa Nova Ordem Mundial desenvolvida pelo Ocidente, eu, sinceramente, quando penso no longo prazo, consigo apenas imaginar o Islam esmagando essa gentinha e estabelecendo ele a sua própria Nova Ordem. Agora, se este Novus Ordo Seclorum dos islamitas será também, como o ocidental, o império da inconsciência coletiva sobre a consciência individual, aí já é outra história.

  2. De fato, o Islam parece ser, hoje, a única força capaz de fazer frente à NOM. Resta saber se o que eles têm a oferecer não será semelhante — como afronta à consciência individual — à NOM. Na dúvida, não baixo a guarda para nenhuma das duas correntes.

    Obrigado por seu comentário, Ricardo.

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