Verdade oculta, mentira mascarada

eleitor

O que é dito esconde o que não é dito; o que você vê esconde o que você não vê. Estas duas frases ganham peso quando a política volta a ser o centro das conversas e dos debates.

O maior risco a que uma pessoa se expõe num ano eleitoral é o de perder de foco o que realmente importa. E o que realmente importa? Qualquer coisa, desde que cada um cuide da sua vida da melhor forma possível, sem causar problemas a outrem. O Estado e a imprensa defendem algo diferente disso: para eles o que realmente importa é estar atento aos candidatos, avaliar propostas e carreiras e votar com consciência. A “festa da democracia” consiste em celebrar e renovar um sistema em que a pessoa que menos cuidará da sua vida será você mesmo.

Todos os debates — formais ou informais — que precedem uma eleição têm como excipiente uma legião de pessoas que perderam a conexão com a realidade. A realidade, veja bem, não é feita de pesquisas eleitorais, de trocas de farpas, de coligações e de propostas para um futuro maravilhoso. Nada disso tem relação com a realidade — o que tais coisas pretendem é precisamente substituir a realidade. O palavrório que precede uma eleição cumpre dupla função: a ocultação da verdade e o mascaramento da mentira. Mas é este palavrório que decide uma eleição, é a ele que as pessoas recorrem quando são intimadas a votar.

Não existe outra forma de chamar a atenção para esse estado de coisas senão declarando enfaticamente que:

1) todo eleitor é burro até que ele próprio decida provar o contrário para si mesmo e para seus pares;

2) acreditar no voto como a maneira mais eficaz de praticar a cidadania apenas reforça a proposição anterior;

3) a deformação do senso de realidade e a quantidade de esgoto contida no buraco em que nós, pessoas comuns, somos lançados depois de uma eleição são proporcionais à intensidade com que nos dedicamos a uma eleição e a tudo que “tradicionalmente” lhe diz respeito, como, por exemplo, pesquisas eleitorais e debates sobre as diferenças entre o Alien e o Predador.

Se você não consegue perceber pelo menos uma destas três coisas, não será capaz de ver a trave em seus próprios olhos e passará o resto de seus dias mendigando atenção e cuidados de pessoas que, na melhor das hipóteses, se interessam apenas em aumentar a massa de mendigos ao redor delas.

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Publicado no jornal Canal Aberto. link da imagem

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4 comentários sobre “Verdade oculta, mentira mascarada

  1. Christian, como sou teu leitor habitual, acompanho a tua insistência em colocar os devidos pingos nos “is” em relação a este assunto. Confesso ficar um pouco desiludido em ver você sempre voltar a ele, não por insistência, claro, mas apenas por dever, digamos, pedagógico. Interessante é que, embora seja um tema chato e irascível, você, brilhantemente, consegue torná-lo, assim digamos, mais palatável.

    Abs,
    d.

  2. Exato, Diogo.

    Como diziam na antiga revista Mad, “é uma serviço de m****, mas alguém precisa fazê-lo”. A maioria de meus amigos e leitores já saca todas essas coisas há muito tempo, mas pode ser que passe por aqui algum leitor que ainda não saca — o texto, portanto, poderá cair como uma luva pra ele. Não terá sido por falta de aviso que ele continuará chafurdando em pesquisas e campanhas eleitorais.

    Valeu, Diogo!
    Abraço!

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