Da arte de votar

A democracia é um sistema que se define por números e por maiorias simples. A regra é clara: se um grupo de 100 pessoas precisa escolher entre A e B, ganha quem tiver 51 votos. Se de 100 pessoas, 90 decidem não escolher nada ou decidem fazer panelaço no dia da escolha, as 10 que se dispuseram a escolher decidirão quem ganha — A ou B. E com apenas 10 votos disponíveis, para ganhar bastará receber 6 votos dos 100 votos iniciais. Lindo.

Pode-se dizer que é um sistema cruel, mas essa é a definição de qualquer sistema de maioria simples — o que me faz lembrar daquela famosa frase de Internet: «coma merda; um bilhão de moscas não podem estar erradas».

Essa ficha me caiu muito tarde. Eu estava na sala de aula, na faculdade, quando surgiu um impasse sobre o andamento de uma disciplina. Depois de muita discussão, não houve nenhum consenso. Então logo surgiu alguém com aquela frase. Você sabe, «aquela frase»: «vamos fazer uma votação!». O professor resmungou (não com a intenção de interromper a mixórdia que acabara de se intensificar, mas em tom suficiente para ser ouvido): «ótimo, vamos partir para a democracia burra!». Em seguida a votação foi realizada. Independentemente de qual tenha sido o resultado — que eu não lembro — nenhum fato posterior trouxe alguma coesão ao grupo. Não havia isso antes da votação e depois dela a desunião só aumentou.

O que ninguém notou — nem eu, naquela ocasião — é que a votação só aconteceu porque o professor decidiu discutir e decidir o assunto (também não lembro qual era) com os alunos. Isso só se faz abdicando da hierarquia entre professor e alunos. Pior do que isso: quem abdica da hierarquia entre professores e alunos está abdicando também dos princípios e valores que estabelecem essa hierarquia. Por definição, o professor é responsável por conduzir os alunos e não deixar que eles se percam (e não percam tempo) com discussões que já devem ter sido definidas antes mesmo dos alunos ingressarem na faculdade. No exemplo supra, o erro maior foi do professor. O erro menor (mas importante também) foi dos alunos, porque não cobraram (não cobramos, eu também deixei a coisa acontecer) do professor o pleno exercício de sua condição de professor.

Pode-se dizer que se trata um exemplo limitado, porque um país não é uma turma de faculdade. Além disso pressupõe-se nas democracias presidencialistas que o líder seja uma pessoa como eu ou você — isto é, talvez um pouco mais dotada de inteligência e habilidades políticas e administrativas, mas pessoa normal, não diferenciada com base em suposições mitológicas ou em hierarquias óbvias, como aquela que existe entre professor e aluno.

Mas não é isso que diferencia a sala de aula, no exemplo supra, do país inteiro. O que realmente diferencia uma coisa da outra são os resultados a que cada situação conduz. No caso da sala de aula, não houve conseqüências sérias na omissão do professor. Como todo mundo ali já tinha mais de 18 anos, o fato do professor abrir mão de sua condição de condutor daquela turma não levou ninguém a beber desinfetante ou a enfiar o dedo na tomada. Quando um governante não cumpre seu papel mais fundamental — respeitar e defender o Estado de direito — o país mergulha no caos para, então, o governante emergir como restaurador da ordem, desta vez com carta branca para fazer e desfazer.

*

Receio que não haja eleições auspiciosas — a deste ano tem ultrapassado todos os limites da falta de boas perspectivas. O resultado de uma eleição não coloca o país no prumo, embora possa piorá-lo bastante.

Além disso, nem toda eleição é democrática — no sentido de que uma maioria simples elegerá um governante. Como assinalei acima, há sempre a possibilidade de que o governante aja de modo a permitir que o país mergulhe no caos e, mesmo que seja improvável a dissolução do sistema eleitoral, é possível que o caos seja de tal dimensão que o resultado da eleição seja deformado e totalmente anti-democrático. Como na explicação do primeiro parágrafo, não é impossível que um governante cause uma situação tal que leve 90% dos eleitores a fazer um panelaço em vez de votar — o que leva a eleição a ser definida por 6% dos votos originais.

Oras, se o que define a democracia são apenas eleições diretas, para que a democracia se mantenha pouco importa

1) se consciências são manipuladas nesta ou naquela direção — ontem cestas básicas, hoje a mesada oficial;

2) se todas as instituições, mesmo aquelas que constituem os pilares do Estado de direito, são demolidas desde dentro;

3) se a informação não circula livremente e o exercício da liberdade de expressão e de informação é chamado de golpe;

4) se a maioria simples, que elegerá o novo governante, realmente constitui uma maioria, isto é, se o voto reflete aquilo que as pessoas pensam;

5) se as pessoas não pensam.

Nada disso parece importar num país que entende o exercício da democracia apenas como ir à zona e escolher uma pessoa (esta frase é propositalmente ambígua). Não surpreende, diante disso que hoje seja absolutamente normal afirmar que 2+2=5 — basta obter uma maioria simples que concorde com essa afirmação.

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