De símbolos e tradições

Igreja Matriz de Ilhabela e o Cristo

Países, sociedades e civilizações são erguidos sobre valores, símbolos e princípios. A França apóia-se nos ideais iluministas. Os Estados Unidos foram fundados sobre valores cristãos. A história e a cultura do Japão estão fortemente ligadas ao Budismo, ao Xintoísmo e ao Budô (a tradição samurai). Ainda que muito do que conhecemos destes países hoje não corresponda a essas origens, deve-se a elas a força que estes países ainda têm.

O mesmo vale em escalas menores. A resistência das cidades, das sociedades e das instituições aos golpes do tempo depende do que mantém as pessoas unidas e do que as inspira. Algumas pessoas chamam essa «cola» de tradição. Colocado de forma breve, tradição é a parcela de passado que chegou até o presente, que leva as pessoas a trabalhar com gosto de modo a construir um futuro melhor e que ao mesmo tempo as impede de perder tempo com idealizações e ideologias a respeito desse futuro.

No que diz respeito ao espaço urbano, a tradição é representada pelos espaços públicos, pelas estátuas e patrimônios edificados e também pelos nomes de ruas, praças e edifícios públicos. Em Ilhabela, o centro da cidade é marcado pela Igreja Matriz, pela estátua de Nosso Senhor Jesus Cristo (dois símbolos da ascendência cristã desta cidade) e pela antiga cadeia (que simboliza o poder público). A rotatória de acesso à cidade, por sua vez, é marcada por uma escultura que nem com muita boa vontade representa o caiçara típico de Ilhabela; o simples fato da estátua ainda estar lá simboliza algo, é claro. Outros exemplos são a Praça da Mangueira, marcada pela árvore imponente que nomeia o espaço, e a Praça Allan Kardec, usada com incômoda freqüência para vender carros usados.

Independentemente de juízos de valor, é suficiente saber que todos os espaços públicos de uma cidade — assim como os nomes que eles recebem — simbolizam algo e ajudam a construir e sustentar (ou destruir) os valores e tradições do arquipélago e destes valores e tradições dependem toda a cidade e as pessoas que aqui vivem. Para o bem ou para o mal, qualquer coisa colocada em destaque num espaço público sempre significará algo e transmitirá alguma lição.

Estas idéias são oportunas para avaliar a infeliz idéia de dar o nome do atual presidente da República ao futuro teatro de Ilhabela, conforme informado por este Canal Aberto há algumas semanas. Para encontrar algum alívio diante de tão desarrazoada idéia, este mesmo Canal Aberto já sugeriu a justíssima e necessária homenagem a Nivaldo Simões para nomear o futuro teatro — alguém que realmente defendeu os valores e as tradições de Ilhabela e que sabia a importância que essas coisas têm para o arquipélago. Faço coro à proposta deste jornal, claro. Feliz o povo que pode contar com uma pessoa desse quilate, mesmo por tão pouco tempo. O mínimo que se pode fazer é eternizar seu legado de todas as formas possíveis.

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Artigo publicado no jornal Canal Aberto em 30 de setembro de 2010. Link da imagem.

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2 comentários sobre “De símbolos e tradições

  1. peraí: dar o nome, a um teatro, de uma personalidade que se vangloria de ser um inculto? no mínimo incoerente, para não entrar no setor dos xingamentos chulos e baixos.

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