O petismo II

absurd gun

Pior do que eleição é ter que discutir com quem entrou no debate sem qualquer condição de debater.

Oras, para ser candidato o sujeito só precisa provar que é alfabetizado e, se o tal Ficha Limpa é a sério, que não está sendo processado por alguma merda que fez recentemente. Ou seja, se o sujeito for analfabeto funcional e tiver feito merda mas não estiver sendo processado, sinal verde para sua candidatura a qualquer cargo político.

Então, reprise: pagodeiros, ex-guerrilheiras, atores e atrizes pornô, palhaços, sindicalistas profissionais, professores grevistas, jogadores de futebol, corruptos e mentirosos assumidos — todos estão aptos a se candidatar e alguns se elegem e se reelegem.

E não é apenas com eles que você precisa discutir caso queira manter vivas as esperanças de que a política adquira alguma decência: você precisa discutir também com os eleitores deles.

***

Exemplo colhido a esmo:

Tópico: o caso da demissão da psicanalista e colunista do jornal O Estado de S. Paulo, Maria Rita Kehl.

Fatos:

1) Em 25 de setembro último, em seu editorial, o jornal expressa seu apoio à candidatura de Serra.

2) Em 2 de outubro, é publicado o artigo de Maria Rita Kehl. O texto é uma clara apologia ao governo do PT e, portanto, à candidatura de Dilma. Em seguida é demitida do jornal.

3) Logo em seguida o caso ganha grande repercussão na mídia, sobretudo na Internet.

Numa discussão numa rede social, demonstrei que não houve censura, por causa destes outros dois fatos:

4) O artigo da colunista continua disponível online.

5) A psicanalista já concedeu diversas entrevistas sobre o caso e, obviamente, continua livre para fazer isso e para defender o voto no PT.

Eis que surge na discussão uma eleitora do PT:

— Não é uma questão de direitos, é uma questão de postura. Pra você, o jornal apoiar o Serra quer dizer que agora só se fala bem e só dele, é isso?

Sim, mais ou menos isso.

Ficou claro — e eu disse isso à moça — que o jornal agiu precipitada e porcamente no caso. Mas se a questão é se o jornal tinha direito de fazer isso e de exigir que seus colunistas se alinhassem com o editorial, a resposta é sim. Atitude antipática, rígida, mas de pleno direito. E, até aqui, nada de censura. Imprensa só é livre de verdade se for livre inclusive para ser parcial.

Ademais, quem censura é o Estado, lembrem-se.

Em seguida a moça continuou:

— É claro que tem direito. E quem é que questionou esse direito deles?

De «não é uma questão de direitos» para «é claro que tem direito» é uma mudança e tanto, não? Pedi um pouco de coerência e temperei o pedido com sarcasmo, esquecendo que todo esquerdista é mal-humorado por natureza.

— Faça uns ajustes no seu software. Primeiro você diz «Não é uma questão de direitos, é uma questão de postura». Depois você diz «É claro que tem direito. E quem é que questionou esse direito deles?». Assim fica difícil.

Em seguida a moça respondeu me acusando de baixar o nível, dizendo que não tinha dito nada de contraditório e sugerindo que eu lesse direito.

Reli.

De fato, ela não questionou os direitos do jornal e sei das diferenças retóricas entre «questão de direitos» e «ter direito», mas sei também das semelhanças objetivas: se o jornal tem direito de fazer o que quiser — como a moça reconheceu –, não é questão de postura, mas de direito mesmo.

O que importa aqui não é o tópico propriamente dito. Como se costuma dizer, a pendenga é questão de foro íntimo: o jornal e a colunista que se esfolem e se resolvam. A imagem que realmente fica, na discussão, é a do desprezo pela razão, da absoluta falta de lógica e coerência e da facilidade em se contradizer e se irritar com quem lhe mostra isso.

Adendo: durante a discussão, a moça mudou a foto de seu perfil e a substitui pela logomarca do partido.

Petismo, c.q.d.

***

Mas é bom dar um desconto para esse pessoal. Eis sua musa inspiradora:

***

Eu estou sendo injusto, é claro, porque a ruindade não é atributo exclusivo deste ou daquele partido político, tampouco é exclusivo da política. A política apenas potencializa certos atributos e faz com que eles se manifestem vivamente.

Li há uns dias — infelizmente não consigo localizar o trecho — que, por definição, o sujeito que se candidata e que quer muito ser eleito para um cargo qualquer não tem nenhum interesse na Verdade. Ele não quer conhecer a realidade, não quer saber o que realmente é o mundo e por que as coisas e as pessoas são como são. Ele quer ser eleito.

O que arruina a democracia é o fato simples de que esses dois atributos não se anulam e não são avaliados, isto é, não fazem a menor diferença quando o sujeito se dispõe a participar de uma eleição.

O desejo de ser eleito é um pressuposto óbvio. O desprezo pela verdade não pode ser avaliado senão pela própria consciência. Se somarmos estes dois atributos, chegaremos ao seguinte paradoxo: as pessoas mais aptas a colocar qualquer sistema político nos eixos são aquelas com menos condições de se eleger.

Diante disso tudo, não há reforma política que baste.

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