Consulte um burocrata

burocracia

Época de eleição expõe com requintes de crueldade os piores vícios sócio-políticos dos brasileiros: o voto por conveniência, a venda e a compra de votos, a panfletagem salafrária, o campeonato de esquerdismo em que a política nacional se transformou etc. Mas o pior de todos os vícios é a idéia de que os políticos é que devem resolver nossos problemas.

Não importa quem tenha vencido as eleições, não importa se a disputa é para presidente ou para vereador: nós, eleitores, sempre saímos perdendo pelo simples fato de entregar nosso destino nas mãos de um punhado de pessoas que, no mais das vezes, não são mais esclarecidas, honestas e responsáveis do que nós. Por hora, basta dizer que, por definição, quem disputa um cargo político não tem o menor interesse na verdade ou, se o tem, submete este interesse ao esforço necessário para obter aquele cargo — estou certo de que o leitor consegue identificar vários casos que ilustram o que estou dizendo.

Essa entrega de nosso próprio destino pode ser observada em diversas situações, das mais simples às mais complexas — da educação à alimentação, incluindo o lazer, a circulação e a própria cultura em todas as suas manifestações. Não quero dizer que em todos esses setores haja ideólogos reunidos nos porões dos edifícios públicos arquitetando os rumos da sociedade (embora em alguns casos haja mesmo). Quero apenas dizer que estamos de tal forma acostumados a essa entrega que já não nos damos conta do que isso significará em curto, médio ou longo prazo. E é provável que já não saibamos o que estamos entregando.

Um exemplo disso é a saúde. Como numa eleição não há compromisso com a verdade, discute-se a saúde somente sob seus aspectos legais (leis, direitos, responsabilidades etc.) e estruturais (como equipar a rede pública de saúde, como torná-la mais eficiente, como regular o setor privado etc.). A saúde como tal jaz incompreendida e tudo a que temos acesso — das discussões políticas ao Globo Repórter, incluindo as políticas anti-tabagistas do governo, campanhas de vacinação e toda a mídia sobre o tema — apenas reforça a idéia de que somos incapazes de cuidar da própria saúde. Portanto, quem deve cuidar da sua saúde é o Ministério da Saúde, a OMS, a indústria farmacêutica e, no máximo, o seu médico. Você mesmo nem é consultado e em pouco tempo esquece de consultar seu próprio corpo para saber como anda sua saúde. Em pouco tempo, você estará acostumado a consultar intermediários para compreender seu corpo, algo que é seu desde que você nasceu.

Assustadoramente, a lógica acima vale para tudo que é objeto de políticas públicas. E mesmo o que hoje parece território exclusivo do próprio indivíduo torna-se cada vez mais assunto para políticos, burocratas e especialistas. A essas pessoas damos autoridade, votos e dinheiro, muito dinheiro.

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Artigo publicado no jornal CanalAberto em novembro de 2010

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