A redenção através da música

Quando me aproximei do Budismo — como amador, isto é, alguém que se lhe chega por estar sofrendo de dores não-físicas — meus dias eram entremeados de escrita pessoal, música e longos períodos caminhando e pedalando.

Todas estas coisas contribuíram imenso para construir o que alguns chamam de «paisagem interior». Revirando a memória, noto que até então eu não possuía nada que se parecesse com uma «paisagem interior», o que facilmente abre espaço para a criação de inúmeros «infernos interiores» (perdoem o pleonasmo) e, claro, lança o indivíduo em buscas que invariavelmente dão em nada, nas melhores hipóteses.

Houve leituras importantes, textos importantes (nenhum deles publicável, felizmente, porque não me agrada a idéia de que as pessoas possam se interessar genuinamente por coisas que escrevi logo depois de sair da adolescência), caminhadas importantes, viagens de bicicleta importantes. Mas houve principalmente músicas importantes.

Dizem algumas pessoas que os aromas trazem as memórias mais ricas que uma pessoa pode ter. No meu caso, a música é o que me causa esse resgate. E não me refiro apenas às músicas propriamente ditas. O chiado de um velho LP ao fundo de uma simplória valsa de Chopin pode ser tão importante quanto o próprio piano para que eu consiga redesenhar a paisagem interior daquela época. Este redesenho também se apóia na paisagem exterior e, ouvindo músicas de outrora, é bastante fácil ver-me novamente trilhando caminhos que já trilhei e esmiuçando idéias antigas.

Não há nisso qualquer traço de nostalgia, apenas a vontade simples de compreender o que já foi, porque, como diz o clichê, se há alguma chance de antever o próprio destino, esta chance está na observação despojada da própria história e da história dos próprios pensamentos. Embora seja impossível saber de onde eles vieram, sempre é possível ouvir novamente os sons que lhes inspiraram — e me redimir.

***

A propósito, algumas músicas que moveram este texto:

De Dvorak, 2º movimento da Sinfonia nº 9 «From the New World»

De Chopin, Balada nº 4, parte 1 e parte 2

De Albeniz, Córdoba e Sevilla.

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2 comentários sobre “A redenção através da música

  1. De Dvorak, 2º movimento da Sinfonia nº 9 «From the New World»

    Caramba y carambita, isso é música !!! Não bate a 9.a do meu amado Ludwig, mas é linda!!
    Aliás, é de bom-tom gostar de Sheerazade, do Rimsky-Korsakov? Eu gosto.

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