Cultura salva vidas

Nos dias que sucederam o terrível maremoto que assolou o nordeste do Japão, jornais brasileiros noticiaram — sem esconder uma certa surpresa — o preparo e a organização do povo japonês para resistir a tais tragédias. Todos sabemos que o Japão é tecnologicamente preparado para lidar com os terremotos e maremotos, mas a maioria de nós não tinha noção de que a organização social e individual poderiam ter tanta importância nessas situações. Entre os sobreviventes, ordem e solidariedade. Não houve saques de casas e lojas, não houve caos ou histeria, apenas o firme sentimento de que as pessoas deveriam se ajudar a reconstruir suas casas e suas vidas.

Da Ásia para a África, observemos Uganda. Todos sabemos que a África é o continente recordista em casos de AIDS. Enquanto a maioria dos países baseava suas políticas de combate à epidemia na distribuição de remédios e de preservativos, no final da década de ’90 Uganda lançou campanhas para a construção de uma cultura de abstinência sexual e fidelidade — sem, é claro, dispensar as formas habituais de combate e prevenção da doença. Isto se tornou uma espécie de «vacina social», que se mostrou muito mais eficiente do que as políticas usuais. Resultado: entre 1990 e 2007 a incidência de AIDS na população caiu para 5% — ainda alto, mas menor do que os mais de 15% observados antes das campanhas pela fidelidade e pela abstinência e muito menor do que os índices observados em outros países africanos, onde se observam índices superiores a 30%.

No Brasil, enchentes e outras tragédias naturais deixam a população em polvorosa — uma parte pronta para saquear casas e lojas, outra parte para resguardá-las dos saqueadores. Embora eficiente para distribuir remédios e preservativos, as políticas oficiais brasileiras ignoram o papel das condutas sexuais na disseminação do HIV e não se atrevem a falar de abstinência sexual e fidelidade. Há mais de uma década não há quedas significativas no número de novos diagnósticos a cada ano.

Os exemplos daqueles dois países seriam suficientes para compreendermos que cultura não é apenas lazer e entretenimento, mas algo muito maior, que realmente pode decidir o destino de uma nação. Graças à cultura o Japão se reergueu depois da Segunda Guerra e se reerguerá mais uma vez depois do maremoto que o atingiu (alguém duvida que o Japão estará reconstruído enquanto o Brasil ainda estará finalizando os estádios para a Copa de 2012?). Da mesma forma, graças à cultura Uganda tem tido êxito no combate ao que outrora era uma epidemia.

Japão e Uganda têm lições valiosas a ensinar ao resto do mundo e demonstram, para quem ainda duvidava, que a cultura salva vidas. E o Brasil, o que tem a ensinar? Carnaval, samba, futebol? Não estamos falando de divertir e entorpecer pessoas com banalidades, mas de salvá-las. Mais do que tempo e recursos, perdem-se vidas enquanto escolas, universidades, oficinas e centros culturais, secretarias e ministérios seguem acreditando na idéia de que cultura é oba-oba e, no máximo, estofo intelectual. Enquanto o Brasil segue firme como o país da permissividade e ocupa o penúltimo lugar no desempenho escolar, leis de apoio à cultura patrocinam filmes sobre traficantes e prostitutas.

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Artigo publicado no jornal Canal Aberto em 1º de abril de 2011. Link da imagem.

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2 comentários sobre “Cultura salva vidas

  1. muito bem colocada a viabilidade de aprendermos com os bons exemplos de dois países bem distintos no aspecto IDH. e uma risada pelo resmungo no final do texto; é um resmungo que poderia soar simplesmente rabugento, mas que é uma realidade no brasil. eu, entretanto, resmungaria antes com aqueles projetos culturais que sempre têm de carregar um viés social. o cara sempre tem de fazer a manifestação cultural com as crianças do morro, como se toda a demanda de cultura, aquela da fruição, tivesse de ser direcionada para o pobrismo. há verbas sociais, há culturais, porque diabos misturar? o resultado é tamanha mediocridade que me dói. e não me venham falar de vik muniz…

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