Do silêncio

Talvez um dos dramas interiores mais peculiares pelos quais uma pessoa pode passar seja o de perceber certas verdades e não conseguir explicá-las às outras pessoas. Embora as palavras às vezes possam amenizar o problema, isto tem pouco a ver com a oratória ou a habilidade literária (ou a falta destas coisas), porque há também momentos (não raros) em que as palavras agravam o problema e mais confundem do que esclarecem.

Há um frase célebre de Wittgenstein que diz «onde não se pode falar, aí é preciso calar». Seria um conselho supimpa se o diálogo interior não fizesse parte da natureza mesma da mente: tão logo a percepção da realidade se conclui, a mente começa a se desdobrar num jogo dialético interminável, em busca de frases, fórmulas, julgamentos, slogans. Querer falar, mesmo quando não se pode, é algo genuinamente humano.

Onde não se pode falar, oras, buscam-se palavras adequadas (conforme ensina Olavo de Carvalho).

Místicos, mesmo os que não conhecem Wittgenstein, dirão que o silêncio a que o filósofo austríaco se refere é contemplativo. Ok. Mas eis que em algum momento você precisará olhar nos olhos de outra pessoa e dizer coisas sérias — suponhamos, coisas que não aconteceram, mas que você sentiu e que, portanto, não são menos verdadeiras apenas porque não se manifestaram como sons de sininhos ou como uma fome devastadora ou como uma topada num móvel num quarto escuro.

*

Quando Pôncio Pilatos perguntou a Jesus «quid est veritas?», o Nazareno silenciou. A verdade estava ali, encarnada, inteira e plena diante de Pilatos, que, ao invés de reconhecê-la, me vem com um «posso ver o cardápio?».

Eu também peço o cardápio. A maioria das pessoas pede. Mas no fundo todos queremos ver a verdade encarnada diante de nós, mesmo que isso signifique ajoelhar, silenciar e chorar.

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