Verdade e moral

Confesso, já me abstive de analisar os conteúdos alheios porque o sujeito que os expunha participava de um clube que eu abominava. Àquela altura, se um Hitler me dissesse que 2+2=4 eu consideraria avaliar seriamente se 2+2=5.

Exemplos como esse são sintomas de duas características bastante humanas:

1) Para a maioria de nós, verdade e moral se equivalem: fazer o bem significa estar do lado da verdade e o exercício da verdade é necessariamente bom.

2) Como conseqüência disso, a maioria de nós não concebe que pessoas inerentemente más possam às vezes estar do lado da verdade e acertar ao descrever a realidade. Isto nos leva a dispensar os conteúdos antes de avaliá-los, o que é um passo firme para faltar com a verdade e sustentar um estado de coisas que permite que o mal atue com liberdade cada vez maior.

Um exemplo comum entre filósofos sobre a relação entre verdade e moral é aquele que nos coloca como dono de uma casa onde se escondem judeus em plena Alemanha nazista. Um soldado nos pergunta se estamos escondendo judeus. Dizer a verdade, é claro, significa condenar aqueles judeus à morte.

Dizer a verdade não é o mesmo que reconhecê-la. A expressão da verdade estabelece uma relação entre duas pessoas — emissor e receptor. O reconhecimento da verdade é ato solitário por sua própria definição.

A verdade não se altera, alteram-se seus usos. A moral começa onde o silêncio e a contemplação terminam.

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