Realidade for dummies

Como muitos devem saber, inclusive porque a informação aparece nos rodapés de alguns artigos meus, sou professor de yoga e de aikido. Para a maioria das pessoas estas duas disciplinas têm uma aura de serenidade e gentileza e são reconhecidos como caminhos de paz, harmonia e autoconhecimento.

Muitos devem saber também que, embora eu ensine tais coisas e pareça ser um sujeito «calminho», escrevo com relativa freqüência sobre política e atualidades, áreas de interesse em que tenho lá minhas preferências. Isto já foi motivo de espanto para pessoas que acreditam que estes temas são incompatíveis com as disciplinas que ensino.

Eu realmente não vejo qualquer incompatibilidade nisso. Não creio que a dedicação às questões «deste mundo» invalide o esforço dedicado às questões «do outro mundo» (aliás, dou cada vez menos valor a esta divisão, mas prosseguirei com ela neste texto por razões didáticas). Do mesmo modo, a dedicação a um caminho espiritual como o aikido ou o yoga não torna ninguém incapaz de compreender e resolver as questões deste mundo. Ao contrário, um traço relativamente comum à maioria das pessoas que atingem um certo grau nestas disciplinas é o aumento da compreensão que elas têm da realidade, o que no mais das vezes as torna mais habilitadas a lidar com as questões mais práticas do dia-a-dia. No mínimo, aprender a usar o próprio corpo e exercitar a auto-observação são coisas indiscutivelmente boas e úteis.

É claro que nem todos os mestres de yoga e de aikido são especialistas em administrar as próprias vidas e não é raro nos depararmos com alguns que têm dificuldades para cumprir as obrigações «deste mundo» — sem falar que eu não sou um mestre, é claro. O mesmo ocorre com sábios, santos e mestres de outras tradições. A vantagem destas pessoas é que elas conhecem a Verdade.

Todos aqui concordam que conhecer a Verdade é algo bom, não? Se concordam, concordam também que é bom colocar-se na direção dela. Se isto estiver claro e bem estabelecido, prossigamos.

O que foi dito até aqui permite dividir as pessoas em cinco tipos:

    1) As que não conhecem a Verdade e não têm noção de sua existência.

2) As que não conhecem a Verdade, têm noção de sua existência, mas não acreditam realmente nela e, conseqüentemente, julgam-se incapazes de conhecê-la. A crença na existência da Verdade é, neste caso, como acreditar em dragões: admite-se a sua existência como seres mitológicos, fictícios, não como entes reais. A maioria das pessoas cujas vidas espirituais estão estritamente vinculadas às rotinas e dogmas das religiões de massa é deste tipo. Note, por exemplo, como estas pessoas depositam suas consciências nas mãos dos líderes dessas religiões. Elas não se crêem capazes de conhecer a Verdade fora da religião de que fazem parte.

3) As que não conhecem a Verdade, têm noção de sua existência, acreditam nela, mas nada fazem em relação a ela. A maioria das pessoas que se dizem «gnósticas» ou «espirituais, mas sem vínculos com uma religião», e mesmo certas categorias de ateus enquadram-se neste tipo.

4) As que não conhecem a Verdade, têm noção de sua existência, acreditam nela e a buscam.

5) As que conhecem a Verdade.

No que diz respeito à exposição ao erro, os dois primeiros tipos encontram-se na pior condição: pessoas destes tipos estão expostas aos próprios erros e aos erros alheios. Estes dois tipos diferem apenas nas ações, não nas essências.

O tipo 3 tem vantagens em relação aos dois primeiros, mas com freqüência falha ao adotar uma atitude que oscila entre o misticismo (rasteiro por definição) e a arrogância. Pessoas deste tipo não realizaram nada para o bem da própria compreensão da Verdade. Encantam-se igualmente com mantras bonitos e com textos de Leonardo Boff, de Osho e do Dalai Lama. Encantam-se também com «sensações» em «reuniões espirituais», embora raramente consigam compreender estas sensações; perguntadas sobre isto, respondem apenas que «o importante é sentir». No yoga, as pessoas deste tipo são aquelas que repetem genérica e incansavelmente que «yoga é união», sem saber a que a frase se refere. No aikido, são as pessoas que repetem o slogan «aikido, o caminho da harmonia», mas não notam a contradição óbvia quando recebem uma torção forte no pulso. São deste tipo também os católicos que lêem Kardec, os budistas de fim de semana, os «meditadores de CD», os defensores da Natureza (com inicial maiúscula mesmo) e todos aqueles que acreditam que reunir um grupo de pessoas amáveis em torno de uma celebração qualquer é o suficiente para tudo nesta vida e na próxima.

Externamente o tipo 4 pode ser muito semelhante ao 3, a não ser pela menor disposição de se reunir — o que pode ser encarado como arrogância ou misantropia pelos indivíduos do tipo 3. No entanto, a diferença importante está na atitude interna em relação à Verdade. Os indivíduos do tipo 4 realmente querem enxergar a Verdade e se esforçam para isso porque sabem que é possível e muito fácil tornar-se cego para ela. São dotados de disciplina (abhyasa no yoga, shugyo no aikido), que é algo que transcende (mas inclui) a mera repetição de técnicas e rituais.

Sobre o tipo 5 nada direi, por razões óbvias.

(O leitor deve ter sentido falta de um sexto tipo: o das pessoas que acham que conhecem a Verdade. Sobre isto também nada direi, pois não se trata do que as pessoas de cada grupo pensam sobre si mesmas, isto é, sobre sua relação com a Verdade, mas da relação mesma — a condição real da pessoa em relação à Verdade, não a opinião que essa pessoa tem sobre essa condição. Em princípio, os três primeiros tipos tendem a crer que conhecem a Verdade, até mesmo quando não a percebem ou quando não crêem nela. O quarto tipo reconhece que não a conhece, embora às vezes possa cometer o erro de crer que o mero direcionamento para a Verdade é suficiente.)

Interessa-me sobremaneira o tipo 3. Em razão do esvaziamento de algumas igrejas e do crescimento de um tipo de espiritualidade desvinculada de qualquer tradição, é este o tipo de pessoa que tende a predominar hoje em dia. Mesmo entre pessoas dotadas de alguma dose de espiritualidade genuína e que de fato têm alguma ascendência religiosa é comum uma atitude bastante despojada e crédula, atributos comuns nas pessoas do tipo 3. É a elas que dirijo os parágrafos seguintes.

***

A defesa da Natureza é um dos únicos pontos de contato entre as pessoas do tipo 3 e «as coisas deste mundo» (temas como política e atualidades). É óbvio que estas pessoas pagam suas contas, limpam a casa, compram comida no mercado, mas, com exceção destes momentos, parecem não viver na realidade, sobretudo quando certos temas tornam-se mais e mais abstratos. Estas pessoas também votam e às vezes se manifestam pró ou contra determinadas causas ou idéias, sem notar duas coisas bastante importantes:

    1) Assim como não compreendem o que é «uma sensação numa reunião espiritual», também não têm noção de onde vêm suas idéias e da direção em que estas as colocam.

2) O desconhecimento da origem e do destino das próprias idéias é causa e conseqüência do desconhecimento de si mesmas.

Os dois itens acima seriam razões suficientes para essas pessoas calarem as respectivas bocas sobre qualquer assunto e se limitarem às próprias vidas e obrigações. Não obstante ocorre o contrário: a ignorância absoluta sobre temas atuais parece ser suficiente para validar suas opiniões sobre eles.

Um exemplo simples é a reação de algumas pessoas à proibição crescente das sacolas plásticas em mercados. Muitas pessoas aplaudiram a iniciativa porque acreditaram que se tratava de algo «bom para a Natureza». Estas mesmas pessoas ignoram que 1) o lixo doméstico continuará sendo acomodado em sacos plásticos e 2) estes sacos continuarão sendo pagos por quem os usa, como sempre foi. É evidente que elas também ignoram o que é «bom para a Natureza».

A mesma análise pode ser feita sobre o Códido Florestal e a Usina de Belo Monte, que foram temas de enxurradas recentes de e-mails, posts, «tweets» etc. Não havia nestas manifestações o menor sinal de que as pessoas (sobretudo as que eram contra o novo Código Florestal e contra a usina) tivessem acompanhado estes temas desde o início. Portanto, vendiam um peixe que não era delas e, portanto, mereciam ser ignoradas, na melhor das hipóteses. Felizmente o direito à opinião não exclui o direito de ignorar essa opinião.

Além de votar e de se acreditarem no direito de expelir opiniões, estas pessoas também pagam impostos altos e também se incomodam com os problemas que afetam toda a sociedade, mas continuam não sabendo muito bem como tudo isso funciona. E mesmo assim, no que diz respeito às próprias idéias, convicções e crenças, levam suas vidas como se todas as coisas fossem mágicas e misteriosas e como se as próprias coisas mágicas não fizessem parte da realidade. Na melhor das hipóteses, estas pessoas são massa de manobra nas mãos de quem entende um pouquinho como tudo isso funciona.

Como mencionei acima, atribuo este estado de coisas ao absoluto desconhecimento que as pessoas têm sobre si mesmas e sobre aquilo que as compõe. Por exemplo,

    i) «Defender a Natureza» não é algo que se deva fazer sem compreender o que é a «Natureza» que se pretende defender;

ii) Repassar um texto de Leonardo Boff não dispensa o indivíduo de saber que Boff é um comunista e, portanto, anticristão, repudiado inclusive pela Igreja em nome de cuja doutrina ele se pronuncia às vezes — mesmo que você adore seus conteúdos e abomine a Igreja Católica, não poderá negar que a falta de coerência é um problema;

iii) A mera repetição psitacídea de um mantra não trará iluminação e, mesmo que eventualmente sobrevenha uma sensação que o faça pensar nesta hipótese, a sensação será sempre uma sensação que, em vez de anular, antes reforça a importância de investigá-la.

É claro que o mistério existe e nem tudo pode ser conhecido. É claro também que os ritos sociais e os ritos espirituais raramente se misturam. O problema, bastante sério aliás, é acreditar que não existe nenhuma conexão entre eles quando, na realidade, você mesmo é essa conexão encarnada. Mesmo que a cegueira seja sedutora ou mesmo inevitável, pelo menos preserve a capacidade de se enxergar e de compreender os próprios pensamentos, desejos, emoções, sensações e idéias.

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2 comentários sobre “Realidade for dummies

  1. Oi Christian,
    Tudo indica que vc não quer mais falar comigo. Entretanto, vamos deixar nossas divergências e vamos conversar mais.
    Gostaria de voltar a conversar sobre o Yoga.

  2. André,

    lembra disto?

    Vc dá aulas de Yoga e diz que Yoga não é filosofia!?
    Eu tenho certeza de que quem não sabe o Yoga que prática é vc.

    Se você está certo de que não conheço o Yoga que eu pratico, por que quer voltar a conversar?

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