Desabafos

«Desabafe». Cresci ouvindo essa recomendação tola. Perdi um tempo precioso acreditando que o que eu sentia devia ser colocado numa mesa, à vista de todos, aberto para discussão. Caí na armadilha do sentimentalismo. Cheguei a achar que depressão era algo bom (embora irônica e felizmente nunca tenha sido atacado por ela) e que atrair a compaixão alheia com essa exposição seria vantajoso. E no entanto não produzi uma única poesia nesse período. Na verdade não produzi nada que pudesse atestar que a recomendação fosse realmente boa. Porque não era.

Continuei sendo solipsista e misantropo. Embora irreais em grande medida, tais atitudes me ajudaram a perceber que quem realmente se sente bem com o desabafo é a pessoa que está perto, não quem desabafou. A sensação de alívio de quem desabafa não se compara com a sensação vitoriosa de quem acabou de ouvir um desabafo.

No mais das vezes, desabafo é falsa confiança e falsa confissão. Quem realmente quer confessar algo, confessa-a para si mesmo. Quem realmente quer confiar em alguém, sabe que a confiança integral só é possível em si mesmo e em Deus.

A confissão para si mesmo não permite recortes narrativos. A confissão para outrem, sim. Você não quer parecer um patife total. Mesmo que você cause essa impressão, no fundo espera que sobressaia a maravilha contida em «minha vida é um livro aberto», atributo que compõe quase todos os desabafos.

A confiança em outrem é uma espécie de miopia, porquanto quem realmente pode fazer algo por você (Deus e você mesmo) foi colocado num plano inferior ao do «ombro amigo», cuja vida emocional pode ser muito pior do que a sua, mas você não sabe porque seu desabafo o deixou um pouco surdo também.

Quem chega a sentir a necessidade de desabafar e recebe conselhos neste sentido precisa apenas de duas coisas: calar a boca e escutar as vozes que realmente dirão algo. O que quer que venha de fora tem pouca utilidade. Embora mais discretas do que amigos conselheiros, embora sussurrem às vezes em vez de berrar, emoções também estão «fora».

Desabafar muda a casca, não muda o miolo: é como trocar de máscara e de fantasia nos dias de Carnaval, sem perceber que a festa já terminou e que o que você está vivendo na verdade nada tem a ver com usar máscaras e fantasias. A vida avança, o tempo passa e você continua choramingando porque lantejoulas caíram da sua manga, porque a maquiagem borrou e porque você não quer ver quem você é.

O desabafo é uma espécie de bulimia: você vomita porque não suporta o que está dentro, mas volta a comer em seguida. O fato de você não conseguir limpar o vômito sozinho e de não conseguir mais comida sozinho não são suficientes para demonstrar o hiato que há entre o impulso autoafirmativo do vômito e a situação deplorável de total dependência, sujeira e fome que se lhe sucede. É evidente que isto não é solução de forma alguma.

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8 comentários sobre “Desabafos

  1. Não concordo em totalidade, mas respeito muito essa visão. Ainda creio que um bom desabafo ajuda, mas tornamo-nos egocêntricos reclamões, perdidamente apaixonados por falar de nós mesmos, irresponsáveis pelas nossas dores e inúteis e inábeis diante delas.

    Cansei dessa gente. É o egoísmo disfarçado de supersensibilidade. Um canto enfadonho de superficialidades com roupa filosófica. Calem-se.

  2. Oi Christian,

    Não concordo integralmente, que dizer, não sei se entendi bem: você propõe o extremo oposto, lidar sozinho com tudo? Se for isso, tampouco acho saudável. Mas está tudo muito bem escrito e me fez refletir sobre o que a gente faz com a nossa intimidade. Quem se abre com todos, ão tem intimidade real com ninguém. De fato, existem muitas pessoas que repetem tanto as mesmas histórias tristes para tanta gente que elas perdem o conteúdo emocional. A pesssoa acaba se tornando alguém superficial e sem introspecção. O próprio sentido da palavra confiança também se perde se a sua vida é um livro aberto ao julgamento de todos.
    Parabéns pelo bom texto, você descreveu um personagem muito comum nos dias de hoje que eu chamo de o pseudo-sensível.

  3. Olá, Ana Beatriz.

    muito obrigado por seu comentário.

    Realmente não proponho o extremo oposto — sem falar que não é adequado propor extremos, embora haja momentos em que até eles são necessários. O ponto é precisamente o que você indicou: a «intimidade generalizada» (desconsiderando o fato de que isso é um oximoro) é o mesmo que intimidade nenhuma, com ninguém, e é o primeiro passo para não ter initmidade consigo mesmo — esta, sim, fundamental.

  4. “Quem realmente quer confiar em alguém, sabe que a confiança integral só é possível em si mesmo e em Deus.”
    Sabe? É uma afirmativa. Mas não tem consistência na frase.
    Desculpe a necessidade de réplica, muito embora o texto seja tão positivo quanto desalentador. Você há de compreender…

  5. Não sei se compreendi, Carlos.

    Compreendo o positivo e o desalentador. Inconsistente, apenas se assumirmos que toda afirmação pretende virar regra universal. Embora meu tom possa causar essa impressão de pretensão de universalidade, é evidente — pelas próprias limitações de minhas experiências como indivíduo — que não é este meu objetivo.

    Esteja à vontade para falar mais sobre isso.

  6. Errei. Suas palavras são: “Quem realmente quer confiar em alguém, sabe que a confiança integral só é possível em si mesmo e em Deus.”. Bem, eu questionei a palavra “sabe” entretanto me passou despercebida a palavra “integral” que dá todo o sentido ao que você vinha dizendo.

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