Realidade for dummies II

Encontro problemas toda vez que tento discutir um tema com alguém, sobretudo quando a discussão não é iniciada pessoalmente, mas filtrada pelas distâncias da Internet.

O principal problema que encontro é a total ausência de noção de como uma discussão deve funcionar. Refiro-me àquela dose mínima de racionalidade para que a discussão não apenas funcione e renda frutos para as pessoas envolvidas na discussão, mas também para que a discussão mereça este nome. Quando, por exemplo, você expõe um fato ou um argumento e a outra pessoa responde acusando você de grosseria ou arrogância, realmente não se trata de uma discussão, trata-se de um encontro casual entre duas entidades que não pertencem à mesma espécie.

Você mesmo, caro leitor, movido pela leitura de minha última frase acima, poderá pensar que um comentário desse tipo constitui grosseria pura e simples. Para que não pense assim, lembre-se dos atributos que costumam ser usados para definir o que é um ser humano: um ser humano é um indivíduo dotado de razão e capaz de conhecer a realidade. Isto inclui saber perceber as diferenças que há entre dois seres/entes/objetos diferentes — por exemplo, um tomate e um cachorro — no momento mesmo em que observa esses dois seres. Certamente distinguir grunhidos, opiniões, argumentos e descrições de fatos não é algo tão rápido e simples como distinguir tomates e cachorros, mas é condição necessária para que um ser humano se considere apto a se comunicar com outros seres humanos. Por exemplo, a diferença entre «ai!» e «ajude-me, estou com uma dor forte no peito!» pode ser a diferença entre viver e morrer.

***

A primeira condição para discutir um tema é ter interesse nele. Óbvio. Na maioria das vezes uma pessoa inicia uma discussão não porque tem genuíno interesse no tema, mas apenas porque queria expressar-se e chamar para si a atenção dos ouvintes/leitores/espectadores.

Sabemos que a maneira mais fácil de atrair a atenção das pessoas ao redor é expressar-se com eloqüência, preferencialmente de forma opinativa/controversa. Para esse fim, bater panelas ou pendurar uma melancia no pescoço funciona melhor do que um bom argumento. Às vezes é difícil detectar, à primeira observação, se a pessoa expressou-se porque realmente tem interesse no tema exposto ou porque simplesmente queria chamar a atenção para si. Se o segundo caso se confirma, o máximo que essa pessoa merece é compaixão — nunca descrições consistentes sobre a realidade do tema sugerido, muito menos argumentos. Em outras palavras, não se deve discutir com quem preza mais o barulho e o calor do conflito do que o tema em si. O tempo é valioso.

A segunda condição para discutir um tema é respeitá-lo. Respeitar um determinado tema significa permitir que ele seja o que é, não aquilo que você gostaria que ele fosse. Dois exemplos:

1) Militantes pró-gays esforçam-se para demonstrar que existe um holocausto gay em andamento; uma breve verificação das estatísticas é suficiente para demonstrar exatamente o oposto. Mais detalhes (e também números) podem ser encontrados aqui e aqui.

2) Cada vez que um policial é flagrado cometendo algum excesso, muitas pessoas alardeiam o retorno da ditadura, o que, é claro, subentende que aqueles eram tempos obscuros e indesejáveis. Porém, verificando estatísticas criminais de hoje e de 30 ou 40 anos atrás, é fácil saber que o Brasil da ditadura era bem menos assassino do que o Brasil de hoje. Logo, o Brasil da ditadura era muito menos obscuro e indesejável do que aquelas pessoas alardeiam.

O esforço para demonstar algo que simplesmente não existe é sintoma de desprezo pela realidade. Quem despreza a realidade, sobretudo quando ela é colocada diante de seus olhos, já não merece compaixão, merece mesmo uma camisa de força. É claro que é possível discutir um tema como quem discute fragmentos de um conto de fadas com a Rainha de Copas, mas também é humanamente necessário evitar discussões desse nível e com pessoas desse tipo.

A terceira condição para discutir um tema é conhecê-lo. Conhecimento é conseqüência do respeito. É natural que queiramos saber mais sobre um tema que respeitamos. Note, aliás, como, nos dois parágrafos acima, a ignorância não é o que se pretende combater com a discussão, mas precisamente o que se quer afirmar, como se ignorância e conhecimento fossem espécies do mesmo gênero. Ignorância é o estado em que o conhecimento está ausente.

***

Fecha-se assim a primeira tríade: interesse –> respeito –> conhecimento. É esta tríade que torna o indivíduo um debatedor digno de ser ouvido ou lido.

O interesse e o respeito permitem que o indivíduo se sente à mesa, mas só o conhecimento efetivamente o autoriza para o debate. A ausência de conhecimento só é um problema se o indivíduo faz questão de ser ouvido e ao mesmo tempo ignora o direito que as pessoas ao redor têm de ignorar o que ele pretende dizer.

***

Tenho consciência de que vivo num mundo que despreza esses três atributos. Ignora-se a importância deles assim como se ignoram as pessoas que os possuem.

Todo estudante genuíno é um marginal.

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2 comentários sobre “Realidade for dummies II

  1. Nossa, que nojo! Você citou Olavo de Carvalho!!! Quem é você, Christian Rocha?

    Comentando apenas um pequeno trecho do artigo citado, “aritmética da fraude”, que já no título parece ser realmente fraudulento.

    1. Quem disse que os homossexuais são 14% da população?
    2. As estatísticas precisam levar em consideração o estilo de vida de cada pessoa ou grupo social. Se não fosse assim, não haveria motivo para que os seguros de carros fossem o dobro do preço, quando o motorista tem entre 18 e 25 anos. Em relação à violência, eu diria que os gays são um grupo relativamente mais resguardado. Enquanto homens heterossexuais se matam no trânsito porque levaram uma fechada, os gays se preservam muito mais. Creio que compreendeu a linha de pensamento.
    3. Nem toda violência contra gays é denunciada, nem todo assassinato em que a vítima é gay traz esta informação no boletim de ocorrência. Na verdade, é bastante difícil encontrar termos relacionados ao universo homossexual em um boletim de ocorrência.

    [—ofensas excluídas pelo webmaster—]

    Abraços!

  2. Luan,

    ou você quer argumentar e discutir educadamente ou quer ofender. Se tentar fazer novamente as duas coisas ao mesmo tempo ou apenas ofender, seus comentários serão apagados. Esta é a única chance que lhe darei para debater.

    1) Você tem razão. Não são 14%, são 10%, conforme estimativas de ONGs gays. O que, aliás, não muda em nada a argumentação do filósofo no artigo que indiquei.

    2) Não, não compreendi. Você diria que gays são mais resguardados com base em quê? E com que objetivo? Qual seu ponto?

    3) Trecho do artigo que você não leu: «Pior ainda é quando esses pilantras, vendo a fragilidade da gazua retórica que empregam, tentam se vacinar preventivamente contra a evidência matemática, alegando que têm poucos dados porque o medo de sofrer violência leva os gays a ocultar sua preferência sexual, diminuindo sua presença numérica nas estatísticas. A fraude aí é tripla. Primeiro, dá-se à falta de provas o valor de prova. Segundo, a presunção de violência anti- gay generalizada, que se alardeava provar mediante os altos números, é dada por provada a priori e usada retroativamente como prova de que os números baixos valem como se fossem altos. Terceiro: inverte-se brutalmente o significado estatístico da homossexualidade oculta. Se, como presume o raciocínio, a maior parte das vítimas reais é invisível por se constituir de homossexuais secretos, então só pode ter acontecido uma destas três coisas: ou seus assassinos não sabiam que eles eram homossexuais, ou o souberam por algum tipo de inside information, sendo freqüentadores usuais do ambiente gay e portanto gays ou simpatizantes eles próprios, ou então tinham dons paranormais. As duas primeiras hipóteses excluem, por definição, a possibilidade do ódio anti-homossexual como motivação dos crimes. Na terceira reside a única esperança matematicamente viável de provar que existe um estado endêmico de homofobia assassina no Brasil.»

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