Para quem sofre

Sede? Beba água.


Todos os meus sofrimentos sérios terminaram no dia em que passei um longo tempo deitado olhando o teto, digerindo aquilo que eu considerava ser a maior angústia pela qual passei.

Naquela época eu tentava encontrar um lugar neste mundo, tornar-me independente e ser bem-sucedido. A história de fracassos e o futuro sem perspectivas pareciam me deixar como única opção um presente absolutamente miserável.

Então algo surgiu. Vamos chamar isto de percepções. Como estas percepções surgiram é mais importante do que as percepções propriamente ditas.

Essas percepções surgiram quando me dei conta da realidade daquele momento. Era absurdamente simples. A história de fracassos é, como o nome diz, uma história. A perspectiva de um futuro é, novamente como o nome diz, uma perspectiva. Como todos sabemos, história e perspectiva são criações mentais, não realidades palpáveis. Esta foi a primeira percepção.

A segunda percepção surgiu quando coloquei estas duas criações mentais (história e perspectiva) nos seus devidos lugares. Se são criações mentais, não há motivos para tratá-las como se fossem a realidade palpável e objetiva. Então, tudo que fiz foi deixá-las fora de meu círculo de percepções imediatas.

A terceira percepção foi sem dúvida a mais importante, mas, claro, sem as duas anteriores eu não a teria obtido. Eu simplesmente observei o que sobrava quando as criações mentais eram colocadas nos lugares certos. O que sobrava?

1) Um corpo com saúde (se você não está preso a uma cama e/ou a aparelhos e não depende de remédios para se manter vivo, você definitivamente tem saúde);
2) Uma mente dotada de clareza e inteligência (se você lê este texto e está conseguindo entendê-lo, você tem estes dois atributos);
3) Segurança e um teto para morar (a não ser que você esteja navegando debaixo da ponte, o que é muitíssimo improvável, é claro que você dispõe de um teto);
4) Três refeições diárias (às vezes quatro, cinco…);
5) Higiene e roupas em quantidade necessária (você certamente não anda nu e tem condições de tomar banho pelo menos uma vez por dia).

A quarta percepção, embora fosse um tipo de criação mental, referia-se ao fato de que a perda desses cinco itens (ou de um deles) exigiria tempo e algum trabalho. Em outras palavras, eu sabia que era altamente improvável que estes cinco bens pudessem se desfazer no dia seguinte.

Esse conjunto de percepções foi decisivo para que eu pudesse me instalar na realidade.

É claro que isso não foi o fim de todo sofrimento. Coisas ruins acontecem com razoável freqüência na vida de todo mundo, na minha também. Um ônibus que atrasa, problemas no trabalho, uma comida que não cai bem, desentendimentos ocasionais, chuva fora de hora sem um guarda-chuva à mão. Todas estas coisas continuam acontecendo.

O que mudou, então? Mudou minha visão de todas essas coisas. O que me colocou no chão de um quarto e me fez choramingar não foi a realidade. A realidade me mostrava alguém com saúde e disposição para fazer e pensar coisas, que tinha onde morar, o que comer e vestir.

Continuei me deparando com ônibus atrasados, com problemas no trabalho, com desentendimentos e chuvas fora de hora, mas o sofrimento que essas coisas proporcionavam tornou-se diferente. Era como se eu não precisasse mais fazer nada para os resolver, como se o fato mesmo de eu tentar resolvê-los fosse um fator de problematização, como se todos os problemas tivessem um ritmo próprio que inevitavelmente os levaria à extinção sem que eu precisasse interferir.

Perceber tudo isso fez com que minhas ações e meus pensamentos mudassem substancialmente. E quando estas coisas mudam, a vida muda — geralmente para melhor.

***

Observem que eu não estou dizendo que o sofrimento não existe. Estou dizendo apenas que

1) O sofrimento deve ser colocado no lugar certo.
2) A realidade palpável não deve ser colocada no mesmo plano do sofrimento.
3) A visão deve priorizar aquilo que está diante dos olhos.

Em resumo, o que quero dizer é que o sofrimento é sofrimento e a realidade palpável é realidade palpável. Óbvio, não? Para muitas pessoas não é.

Suponhamos que você corte a mão ao descascar um tomate. Há pelo menos duas opções imediatas. A primeira é começar a gritar de dor. A segunda opção é tratar do ferimento. É obviamente impossível manter a gritaria e ao mesmo tempo tratar o ferimento. O que é mais necessário? O que você faz?

Perceba que nesse exemplo você só terá condições de partir para a segunda opção se reconhecer o que realmente está acontecendo. Com isso você perceberá a inutilidade da gritaria histérica e a necessidade de tratar o ferimento o mais rápido possível.

A maioria de nós age não apenas como se a gritaria fosse a opção realmente importante e necessária, mas também como se essa fosse a única opção. Mas é evidente que esta opção não é importante, nem necessária, muito menos a única.

O problema mais comum é, portanto, a facilidade que a maioria de nós tem para colocar um falso problema no topo de uma lista de prioridades. Isto não significa apenas confundir prioridades e, como no exemplo acima, achar que gritar é mais importante do que fazer um curativo. Isto significa também tornar-se cego para quem você realmente é. Ora, você não é o relacionamento que se desfez, o emprego que perdeu, a nostalgia, a saudade, a carência afetiva, o mimimi sem fim, a baixa auto-estima, a tristeza que você está sentindo neste momento.

Quem você é afinal? A resposta é óbvia, mas eu não a posso dizer. Se eu fizer isso há a chance de você, mais uma vez, achar que a resposta está fora de você, do mesmo modo que você faz com namorados, carreiras interrompidas, amizades desfeitas, desentendimentos no trabalho ou na família, picuinhas, fofocas e sonhos de consumo frustrados e não realizados. Se você quiser que a sua vida seja isso tudo, é claro que ela será.

***

Nota:

1) Dificilmente você encontrará estas idéias em livros de auto-ajuda, sejam eles modernos ou de origem «tradicional». Por uma razão simples: são idéias deste tipo que fazem com que o indivíduo abandone qualquer ajuda externa, como a que encontramos livros de auto-ajuda. Mas é claro que às vezes os livros ajudam, assim como algumas disciplinas e tradições. Por exemplo:

Bill Watterson sugere um título: «Cale a boca e pare de choramingar: como fazer algo com sua vida além de pensar em si mesmo». Impagável.

«O Poder do Agora», livro de Eckhart Tolle, que é um pequeno tratado contemporâneo de Advaita Vedanta disfarçado de best-seller.

O hatha yoga tradicional, um dos melhores métodos para autoconhecimento. Minha experiência com o hatha yoga serviu de inspiração para compor este texto.

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14 comentários sobre “Para quem sofre

  1. Excelente, Christian.

    Estou procurando Yoga para relaxar melhor o corpo durante minha prática de shamatha. Qual a diferença que tem o Hatha Yoga com outras modalidades?

    Valeu, abraço

  2. Obrigado pelo comentáriom Henrique.

    Suponho que você esteja se referindo a uma meditação de origem budista, correto? Até onde sei, a shamatha é muito semelhante ao primeiro estágio da meditação yogi, dharana (do sânscrito, concentração).

    No yoga tradicionalmente são três estágios: dharana (concentração), dhyana (que é o que se traduz como meditação; etimologicamente, para ilustrar: dhyana > ch’an > zen) e samadhi (liberação). Estes três estágios são precedidos por outros grupos de técnicas. Três deles é que poderão ser do seu interesse: asana (posturas físicas), pranayama (técnicas de manipulação da energia vital, geralmente realizado com exercícios respiratórios) e pratyahara (retenção dos sentidos, «voltar-se para dentro»).

    De fato, o preparo físico e energético proporcionado pelo Hatha Yoga pode facilitar a meditação. Pelo menos esta é a experiência que tenho tido comigo e com meus alunos — alguns, inclusive, praticam a shamatha e outras formas de meditação budista e já me relataram isso.

    O Hatha Yoga, na verdade, é a fonte de inspiração de todos os métodos que vemos hoje em dia. Digo «fonte de inspiração» em vez de «origem» porque a maioria dos métodos contemporâneos isolou e enfatizou alguns elementos do Hatha Yoga em detrimento de outros. Isto faz deles bons métodos para melhorar a condição física e para obter disposição e calma, mas não é suficiente para que sejam considerados yoga.

    Portanto, mesmo sob o risco de soar arrogante, o que posso dizer é que o que diferencia o Hatha Yoga de outras modalidades de yoga é que o Hatha Yoga é yoga (isto é, situa as práticas numa linha cujo fim é a libertação) e as outras modalidades raramente são. Se se trata de alguma modalidade criada da década de 1950 para cá, certamente não se trata de yoga.

    Abraço!

  3. Gostei do texto, aliás, tenho lido os textos do blog e gostado muito, parabéns. Percebo que a importância do autoconhecimento vai além da mística a que isso é relacionado hoje em dia, por se situar em uma dimensão prática da vida. Minha dúvida é o que fazer quando a angústia ou os mimimis relacionados a fatos passados ou a perspectivas futuras (pleonasmo, ok) começam no seu subconsciente, te atingem emocionalmente e mesmo que você saiba disso não consegue controlar. Abs, Thiago.

  4. Olá, Thiago.

    obrigado por seu comentário. Seja bem-vindo.

    O que se pode fazer — e, pela minha experiência, é uma das poucas coisas que ajudam — é observar a angústia. De onde ela veio é menos importante do que observá-la tal como ela é, mesmo que só possamos observá-la quando achamos que é «tarde demais».

    Com a observação você perceberá algumas coisas importantes:

    1) Alguém observa a angústia. Esse alguém é você, é óbvio.
    2) Por definição, tudo que você pode observar não é você.
    3) Logo, a angústia não é você, mas algo que você possui/carrega.
    4) Talvez seja difícil evitar que a angústia surja, mas é certamente possível «deixá-la cair» quando você percebe que você e aquilo que você sente não são uma única coisa — da mesma forma que você tira uma mochila das costas.
    5) A angústia possui uma natureza. Você não pode modificar ou controlar essa natureza, mas talvez possa modificar suas causas e conseqüências.

    Particularmente dos itens 3 e 4 decorrem algumas questões que considero importante: por que você possui/carrega a angústia? Há algo que o obrigue a fazer estas coisas? Até que ponto tais coisas são inevitáveis?

    Normalmente esses cinco itens são suficientes para mudar pelo menos a forma como nós encaramos nossas emoções.

    Desnecessário dizer que a disciplina faz diferença: realizar esse processo uma vez é diferente de realizá-lo freqüentemente. É importante torná-lo tão comum e freqüente quanto os hábitos de higiene. Meditação ajuda.

    É isso aí, Thiago.

    Abraço!

  5. Gostaria de sugerir dois livros que abrangem praticamente todas as percepções retratadas:

    – Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes – Stephen R. Covey

    Apesar do título automaticamente disparar nosso gatilho “anti auto-ajuda” o livro é para mim uma referência constante de conduta e amadurecimento da personalidade. Apesar de em alguns momentos dar enfoque profissional, o livro de fato detalha HÁBITOS que fazem toda a diferença em uma vida. Deixando claro que o mais importante é basear suas ações e aspirações em princípios e valores que você acredita. Afinal, viver em desacordo com o que é essencialmente importante pra nós, é o que nos distancia da paz interior.

    – O Caminho do Guerreiro Pacífico – Dan Millman

    A história do jovem ginasta retrata uma jornada de amadurecimento e auto-conhecimento guiada por seu mentor (Sócrates, o mentor que todos nós gostaríamos de ter).
    Este livro (e filme) me impressionou por seu autor ser americano e conseguir retratar de forma tão profunda princípios da filosofia zen.
    Acredito que as distinções observadas nos títulos sugeridos pelo Christian, também estão contemplados nesta pequena história.

    TENTEI fazer observações o mais impessoal possível, mas posso dizer que ambos os títulos mudaram minha forma de pensar e agir.
    Espero que faça o mesmo para quem decidir explorá-los.

    Christian, sei que um post demanda tempo e inspiração, mas sentimos falta quando você se ausenta por muito tempo!

    Um abraço

  6. A. As posturas se repetem nos diferentes tipos de Yoga, mas com diferenças. O objetivo do ásana muda de uma linha a outra? B. Conhecer as particularidades de cada método pode ajudar o praticante a definir melhor sua preferência? A. É verdade. O objetivo imediato da prática, seja do tipo que for, deveria estar em função de outro objetivo maior, que nem sempre é evidente na sala. Esse objetivo maior é o estado de iluminação ou libertação, chamado moksha em sânscrito. B. Certamente. Mas essa escolha deveria estar pautada pela própria experiência da pessoa. Ou seja, todos nós deveríamos testar vários tipos de prática diferentes, se tivermos dúvidas sobre qual seria a mais adequada. Algumas pessoas encontrar a prática ideal, adequada e correta para elas mesmas logo na primeira aula. Outras, naturalmente, precisam experimentar varias modalidades para ver qual responde melhor a seus objetivos e necessidades. Nessa ordem de coisas, o professor cumpre um papel muito importante, pois a empatia entre o praticante e o professor também é determinante para que o aluno elabore uma relação pessoal com o Yoga e aprenda a gostar de praticar sozinho.

  7. Obrigado a todos pelos comentários e perdoem a demora para retornar.

    *

    Panama,

    sobre suas perguntas e respostas, alguns comentários:

    a) O objetivo do asana é preparar o corpo e as energias sutis para a meditação, isto é, criar o assentamento externo e interno que permitirá a meditação. Qualquer outro objetivo é secundário e alheio ao yoga.

    Uma das características dos métodos modernos inspirados no Hatha Yoga é a quantidade excessiva de posturas físicas inspiradas nos asanas. Esse excesso leva invariavelmente a uma ignorância em relação ao objetivo e ao significado dessas técnicas. O sistema hathayogi tradicional usa 84 asanas. Hoje facilmente se encontram manuais que mostram mais de duas centenas de asanas. Quando questionados sobre isso, os professores atuais explicam essa diferença de quantidade com argumentos confusos, a maioria limitada ao uso terapêutico (posturas para a lombar, posturas para relaxamento etc.).

    b) Antes de perguntar sobre as particularidades de cada método, deveríamos perguntar: método de quê? Digo isso porque se o objetivo é libertar-se do sofrimento, como você mesmo assinalou corretamente, é fácil notar que nem todo método dito «de yoga» tem essa libertação como objetivo. Como de costume, é importante saber quais são nossos objetivos e aonde podemos chegar com aquilo que decidimos fazer. v: http://www.yogailhabela.org/2011/01/tres-recomendacoes-para-iniciantes.html

  8. Rodrigo fez um exposição muito interessante sobre o Ashtanga Vinyasa de Pattabhi Jois. Nao acredito que ele esteja querendo acabar com o método, expondo a sua visão e sua vivência com esta prática. Devemos ter um senso de reflexão daquilo que realizamos em nossa vida, vejo isso nesse artigo: refletir nao somente sobre a prática, mas sobre o que a prática está nos passando, o que estamos aprendendo com ela. Esse é o primeiro sinal de crescimento. Acho interessante a forma como as pessoas defendem um método, admirável até certo ponto, porém creio que os argumentos devem ser expostos com uma base sólida. O Ashtanga Vinyasa, assim como o Iyengar e o Vinyasa Flow, trazem muitas coisas boas para a prática, mas também coisas menos boas. Acredito eu que esses métodos são bons para os diferentes momentos da vida de cada um; mesmo para algumas pessoas podem ser para uma vida inteira, porém se pular as duas primeiras etapas que o Ashtanga de Patañjali propõe, então a prática não estará sendo realizada com a consciência, que devemos nutrir. Só mais um detalhe: o que pode ser bom para mim, pode não ser bom para meu aluno, ou para um outro amigo. Usar o bom senso é importante principalmente se o objeto deste debate é a reflexão. Hari Om! Muita paz!

  9. Este enfoque da Ioga é radicalmente contrário ao cristianismo, onde claramente há uma distinção entre Criador e criatura, entre Deus e homem. No cristianismo, Deus é transcendente e totalmente distinto de sua criação e o único sentido em que Ele é imanente à ela, decorre do seu ato criador, isto é, nada existe e não subsiste senão pelo efeito de um contínuo influxo do poder criador. O apóstolo Paulo descreve a imanência de Deus como sendo a manifestação de seus atributos inefáveis na forma de atributos sensorialmente perceptíveis: “Pois os seus atributos invisíveis, o seu eterno poder e divindade, são claramente vistos desde a criação do mundo, sendo percebidos mediante as coisas criadas” (Romanos 1:20).

  10. Muito legal o texto, Cris, para controlar a situação mental sempre colocar a presença do eu que dissipa as turbulências mentais.
    O Poder do Agora é um livro claro e importante, como vc falou, travestido de best seller. Sentimos sua falta aqui em Ilhabela. Continuo com a prática.
    Um abraço
    Emanuel

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