Strogonoffobia

penne02O strogonoff é meu e eu faço como eu quiser.

Uma das discussões mais divertidas que já vi na Internet foi sobre strogonoff (alguns leitores preferirão a grafia «estrogonofe», ou ainda o original russo строганов, que romanizado fica «stroganov», que por sua vez pronuncia-se «strogonoff», que é a grafia mais popular atualmente; caso busque em sites estrangeiros, a grafia no inglês é «stroganoff»). Aconteceu numa das comunidades do Orkut relacionadas a esse prato — «Amo Strogonoff», «Adoro Strogonoff» ou algo do tipo. Infelizmente não consegui localizar a discussão, mas o resumo é mais ou menos o seguinte.

O tópico tratava da receita original de strogonoff.

Uma pessoa iniciou o tópico mencionando a origem russa do prato e como ele devia ser preparado sempre com carne bovina, creme azedo (uma variação do creme de leite fresco), mostarda em pó e vinho branco seco, além de outros ingredientes pouco conhecidos das pessoas acostumadas com as inúmeras variações brasileiras desse prato (um bom ponto de partida para saber mais sobre isso é o verbete na Wikipedia).

Em seguida algumas pessoas que acompanhavam o tópico postaram suas próprias receitas de strogonoff: com catchup e mostarda, com milho, com conhaque, de frango, de carne de soja, de lingüiça, strogonoff doce etc. O festival de gastronomia naïf terminou quando a pessoa que havia postado a receita original retornou para dizer o óbvio: aquelas receitas não eram strogonoff. Então houve choro e ranger de dentes e a pessoa da receita original deixou de ser bacana por ter compartilhado uma informação que poucos conheciam e passou a ser «o dono da verdade», «o babaca tradicionalista», «o senhor sabe-tudo» e outras expressões menos educadas. Então, mr. Know-it-all has left the building; foi esperto o suficiente para não discutir com as hordas.

As hordas são essa gente bonita por natureza que sabe diferenciar uma maçã de uma caneca, mas considera uma desumanidade usar nomes e descrições diferentes para objetos diferentes. Eis mais alguns exemplos de situações que fazem essa gente bonita por natureza espernear e sair às ruas para fazer bundalelê:

1) Se você diz que existem diferenças incontornáveis entre homem e mulher e que um menino é um menino e deve ser tratado como um menino e que uma menina é uma menina e deve ser tratada como menina, isso é heteronormatividade e você está sendo machista. E não pretenda discutir ou definir heteronormatividade e machismo.

2) Se você diz que um casamento, pela própria definição do termo, é a união entre homem e mulher com a finalidade de ter descendentes e constituir uma família e que qualquer outra união (heterossexual ou homossexual) não é casamento, você está sendo homofóbico. E não pretenda discutir ou definir homofobia. Olhar feio para um gay é homofobia.

3) Se você diz que o homossexualismo é pecado e que a própria noção de pecado está estabelecida apenas por e para cristãos, você está incitando a violência contra homossexuais e está cometendo um crime contra a humanidade (sim, crime contra a humanidade). Novamente, não pretenda discutir ou definir homofobia. Discordar de um gay é homofobia.

4) Se você diz que as políticas de cotas raciais enquadram-se perfeitamente na definição de racismo — uma obviedade que dispensa demonstrações –, você é que está sendo racista. E não pretenda discutir ou definir racismo.

5) Se você diz que o funk carioca é uma das piores expressões culturais que o Brasil já produziu e enfatiza que tais peças nada mais são do que apologia ao crime e aos tipos mais baixos de comportamento existentes — outra obviedade que dispensa demonstrações –, você está sendo elitista e, mais uma vez, racista. E não pretenda discutir ou definir elitismo e apologia ao crime.

6) Se você diz que o aborto é por definição a interrupção de uma vida humana e que, portanto, ele não deve ser praticado e tampouco permitido, você está sendo opressor, dogmático e fascista. E não pretenda discutir ou definir opressão, dogma e fascismo.

O que há de comum nestes seis exemplos é o desprezo pelo objeto que supostamente se pretendia discutir. Da mesma forma que os cozinheiros revoltados do Orkut desprezavam a origem do strogonoff e desprezavam mais ainda quem tentasse mostrar essa origem, para muitas pessoas realmente não importa conhecer a definição das coisas que constituem o mundo, não importa conhecer fatos, não importa organizar o próprio conhecimento naquela escala intelectualmente saudável que sai da mentira e segue na direção da verdade.

Como lidar com pessoas desse tipo?

Eu, imerso em minha profunda ingenuidade, por muito tempo quis educá-las. Afinal, quem defende a indiferenciação dos objetos sabe no mínimo o que é uma defesa, o que é uma indiferenciação e o que são objetos. Todo esse conhecimento, por mínimo que fosse, seria (eu acreditava nisso) a porta de entrada para outros conhecimentos e para a admissão de realidades simples e óbvias.

Mas logo percebi a inutilidade de dar explicações a quem não tem interesse nelas. Para essas pessoas, saber o que é uma defesa (e todas as coisas que elas próprias afirmam) não implica saber o que são as outras coisas — por exemplo, se o sujeito sabe o que é uma defesa, poderíamos supor que sabe o que é o contrário de uma defesa, isto é, um ataque. E se essas pessoas ignoram os opostos imediatos dos objetos que mais lhe agradam, ignoram ainda mais o caminho que as levou até o conhecimento desses objetos. O mesmo vale para qualquer outra coisa que saia da boca dessas pessoas, porque, no fim das contas, a realidade é que elas não fazem a menor idéia do que estão falando.

Era exatamente esse o caso da não-discussão sobre o strogonoff. Com exceção de uma pessoa, ninguém naquela lista de discussão sabia o que era um strogonoff. Decerto todos tinham uma noção disso, mas ter uma noção é diferente de saber. Claro que isso não é importante no caso do strogonoff, porque cada um prepara o que quiser, cada um come o que quiser e isso tudo, como se diz, é questão de foro íntimo.

As coisas ficam um pouco mais sérias nos seis exemplos citados antes, porque leis são escritas, políticas públicas são elaboradas, dinheiro é gasto e, pior do que isso tudo, a sociedade é moldada de cima para baixo com base no desprezo pela realidade.

Vejamos, por exemplo, o caso da militância pró-homossexual. Ela se baseia no pressuposto de que homossexuais são vítimas de opressão e violência e de que o Brasil é um país homofóbico. Conclui-se assim — e é nisto que consiste a militância — que é necessário estabelecer leis e políticas públicas que protejam os homossexuais. O que diz a realidade? Se olharmos as estatísticas de homicídios no Brasil, veremos que neste particular os homossexuais constituem um grupo muito privilegiado. Se de fato os homossexuais fossem um grupo de risco no que diz respeito aos crimes de homicídio, a proporção de homossexuais entre as vítimas desses crimes deveria ser maior do que a proporção de homossexuais na população brasileira. Não é o que se verifica: de acordo com números da própria militância, 14% da população brasileira é composta de homossexuais, mas correspondem a pouco mais de 0,5% do total de homicídios — no Brasil, todos os anos são assassinadas de 40 a 50 mil pessoas; desse total, menos de 300 são homossexuais. Logo, gays estão muito longe de ser um grupo de risco.

Mesmo que esses números fossem diferentes e mostrassem um alto número de assassinatos de gays, para provar a tese da homofobia seria necessário conhecer as circunstâncias em que esses crimes ocorreram. Fatos: muitos desses crimes estão relacionados ao tráfico de drogas (como tantos homicídios no Brasil) e/ou foram cometidos por homossexuais.

Um complemento à tese da homofobia é aquele que atribui aos cristãos a culpa pelo ódio contra homossexuais. Para um deputado homossexual brasileiro, o Papa é um «genocida em potencial» por se pronunciar contra o casamento gay. A ligação entre o cristianismo e a homofobia é tão forte quanto a ligação que há entre o automobilismo e, digamos, a ritifobia. Para que se possa afirmar qualquer coisa sobre esta ligação é necessário conhecer a noção cristã de pecado, os discursos contra atos pecaminosos e a forma como estas coisas se combinam e se transformam em ação pelas mãos de cristãos genuínos. Fazendo isso, logo descobre-se que não há violência contra homossexuais movida por discursos ou pregações cristãs.

E assim, permitindo que a realidade se manifeste, encerra-se o vitimismo gay.

O desprezo pela realidade é regra nos setores mais diversos da vida. Vejamos mais alguns exemplos.

Como alguns de meus leitores sabem, sou professor de yoga. Yoga significa basicamente duas coisas: um sistema prático e filosófico com objetivos específicos e também é a condição existencial que se obtém através da dedicação a esse sistema. Isto é bem claro para mim e para qualquer estudante sério dessa tradição indiana. Contudo, é absurdamente grande a quantidade de professores e de praticantes avançados que tomam o yoga como um sistema de ginástica ou um sistema de auto-ajuda. Quem quer que tente explicar estas coisas num círculo dedicado ao estudo do yoga — sobretudo no ambiente das redes sociais — é considerado desrespeitoso e agressivo. Como no caso do strogonoff, que façam como quiserem no caso do yoga — mas não digam que dois objetos diferentes devem ser chamados pelo mesmo nome.

Na polêmica questão das armas, mídia em peso e intelectuais esquerdistas alinham-se a pessoas de bem como Hitler e Pol Pot e defendem o desarmamento da população. Recentemente um deputado federal chegou a dizer que um policial armado é uma ameaça para a sociedade. E o slogan da Campanha Nacional do Desarmamento (uma iniciativa do seu dinheiro, digo, do Governo Federal) não podia ser mais demente: «Proteja sua família. Desarme-se.» Cinco segundos de realidade seriam suficientes para perceber o vazio intelectual dessas iniciativas. Afinal, o problema não são as armas, mas o fato de que quem as possui em maior número são criminosos, não cidadãos responsáveis, corretos e que pagam seus impostos.

Nestes e em vários outros casos a pergunta que raramente se faz é «do que estamos falando?» Excluída a pergunta fundamental, cria-se um emaranhado de slogans e frases soltas, palavras de ordem são repetidas à exaustão. Não ficarei surpreso se em breve estivermos todos comendo strogonoff de ovo e jornal velho — por força da lei.

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6 comentários sobre “Strogonoffobia

  1. Sou uma eremita urbana, vivo a maior parte do tempo isolada das outras pessoas porque não consigo achar isto tudo normal; podem comer seus strogonofes com feijão preto à vontade, mas não me obriguem a ouvir “umas coisas” que chamam de música, assistir a seus “programas” de tv, ler suas revistas “super informativas”. Pelamordedeus, não! Aqui no meu sagrado espaço de isolamento, tenho a imensa felicidade de poder encontrar um texto tão bem escrito como este. Coisa prá ler e pensar. Parabéns, Christian, sou profundamente grata.

  2. O parlamentar também disse se recusava a tratar do tema, pois tinha compromisso com os votos evangélicos. Ele ainda reclamou que assim como não existia tratamento especial para as pessoas “cristãs”, não há porquê requerê-lo para os homossexuais.

  3. Pelo contrário. Independentemente do mérito da decisão, a forma abrupta como o Ministério da Cultura retirou de seu site o símbolo do Creative Commons — uma decisão, repito, banal — teve o dom de afastar do governo algumas centenas de militantes virtuais que, com seu conhecimento das redes sociais, eram responsáveis pela reprodução e multiplicação de textos, fotos, vídeos e notícias de apoio às políticas públicas do novo governo.

  4. EU SOU UMA PESSOA QUE RESPEITA OS GAYS, LSBICAS E BISSEXUAIS E REALMENTE, O NOSSO PAIS HOMOFOBICO SIM. MAS AINDA PRA REVERTER A SITUACAO. O PAIS TA COM UM INDICE DE CRIMINALIDADE MTO GRANDE LA FORA E DENTRO DA MARINHA TB. EU SEI QUE A MARINHA NAO TEM NADA A VER COM HISTORIA, MAS TA UMA VERGONHA. ATE LAVADOR DE LAVAJATO TA GANHANDO MAIS QUE UM TENENTE DE ALTA PATENTE DA MARINHA DO BRASIL. ATENCIOSAMENTE ANA. QUEM QUISER ME ADICIONAR NO MEU FACE DEIXEI MEU EMAIL NO INICIO

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