Por que você odeia a arquitetura contemporânea

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E, se você não odeia, por que deveria…

Por Brianna Renix e Nathan J. Robinson
Traduzido por Christian Rocha[1]
Publicado originalmente em Current Affairs, em Outubro de 2017
https://www.currentaffairs.org/2017/10/why-you-hate-contemporary-architecture

 

O escritor britânico Douglas Adams costumava dizer sobre aeroportos: «Aeroportos são feios. Alguns são muito feios. Alguns têm um nível de feiúra que só pode resultar de um esforço especial.» Tristemente, esta verdade não se aplica apenas a aeroportos: pode-se afirmar isso sobre a maior parte da arquitetura contemporânea.

Veja a Tour Montparnasse, um arranha-céu negro com painéis de vidro liso, emergindo sobre a bela paisagem de Paris como uma peça de dominó prestes a cair. Os parisienses odiaram tanto esse edifício que a prefeitura foi logo em seguida obrigada a lançar um decreto proibindo a construção de arranha-céus com mais de 36 metros.

Ou a Praça da Prefeitura de Boston. O centro de Boston é um lugar atraente de um modo geral, com edifícios antigos, a orla e um belo jardim público. Mas a Prefeitura de Boston é um edifício de concreto medonho, de formas incompreensíveis, como um componente nefasto que você encontra depois de ter montado cuidadosamente um eletrodoméstico complicado. Em 1960, antes mesmo que a primeira viga de concreto tivesse secado na fôrma, muitas pessoas já imploravam antecipadamente para que a coisa toda fosse demolida. Há todo um complexo de edifícios de órgãos federais ligados à mesma praça, projetados por Walter Gropius, um arquiteto cujo sobrenome engraçadinho contradiz a melancolia de seus projetos. O edificio John F. Kennedy, por exemplo — inexpressivo e sombrio externamente, irritante e confuso internamente — é onde, entre outras coisas, imigrantes aterrorizados encaram audiências de deportação e onde veteranos traumatizados vêm solicitar seus benefícios. Um edifício tão desagradável transmite uma mensagem muito clara: o governo quer que seus requerentes mais humildes sintam-se confusos, marginalizados e amedrontados.

image003.jpgA Tour Montparnasse. Quem conseguiria defender isto? E se há algo obviamente errado com isso, e realmente há, o que é e por que não falamos mais sobre isso em outros casos?

O fato é que a arquitetura contemporânea dá arrepios à maioria das pessoas comuns. Tente dizer isto a arquitetos e seus acólitos, no entanto, e você ouvirá um sermão sobre como sua impressão é equivocada, produto de algum preconceito constrangedor sobre os fundamentos da arquitetura. Uma defesa, muito comum, diz que esses exemplos de feiúra são, na verdade, incríveis proezas de engenharia. Afinal, «blobitecture»[2] — que, lamentamos dizer, é uma linha da arquitetura contemporânea que realmente existe — é criada usando complexos algoritmos de computador! Você pode achar que a estrutura em forma de ameba que é criada desta forma parece com um cocô com tentáculos ou com um lenço de papel amassado, mas isto é porque você não tem o olhar treinado de um arquiteto.

Outra coisa que você ouve com freqüência de acadêmicos é que a arquitetura contemporânea é honesta. Ela não depende de formas e usos do passado e não está interessada em agradar você e seu sentimentalismo bobo. Acorde, ovelhinha! Seu chefe odeia você e seu locador sanguessuga também, e tudo que o seu governo quer é esmagá-lo em suas engrenagens. Este é o mundo em que vivemos! Acostume-se com isso! Fãs do Brutalismo — o estilo de arquitetura dos grandes volumes de concreto aparente — são hábeis ao enfatizar que esses edifícios mostram a realidade como ela é, como se isto de algum modo pudesse compensar o fato de que eles parecem, na melhor das hipóteses, abomináveis e, na pior, como a sede de algum tipo de ditadura totalitária pós-apocalíptica.

image005.jpgO New York Times diz que este é o edifício que mostrou que o Brutalismo podia ser «brincalhão». Isto pode ser verdade, mas apenas no sentido que um gato atormentando um rato ou um torturador cantando «uni-duni-te» para escolher qual testículo cortar primeiro é «brincalhão».

 

Sejamos honestos: uma breve olhada em qualquer estrutura projetada nos últimos 50 anos deveria ser suficiente para convencer qualquer pessoa de que algo está dando terrivelmente errado. Alguma entidade ou força oculta parece decidida a literalmente substituir todas as coisas belas e atraentes por coisas feias e desagradáveis. A arquitetura produzida pelo capitalismo global é provavelmente a evidência mais óbvia e notável de que isso pode ter conseqüências perversas sobre a alma humana. É claro, não é possível quantificar o gosto, e pode haver pessoas entre nós que são profundamente dispostas a apreciar amebas e blocos. Mas algumas enquetes sugerem que os devotos da arquitetura contemporânea constituem uma esmagadora minoria: a não ser por alguns monumentos, poucas estruturas preferidas pelo público são do período pós-guerra. (Quando os resultados da enquete foram divulgados, alguns arquitetos pigarrearam que aquilo não «refletia o julgamento dos especialistas», mas meramente as «emoções» das pessoas, uma distinção que deixa clara qual é a questão.) E quando se trata de arquitetura, como algo distinto de outras formas de arte, não basta dar de ombros e dizer simplesmente que as escolhas pessoais diferem: no que diz respeito a edifícios públicos, ou espaços públicos que têm um caráter notável e ressonâncias históricas para as pessoas que ali vivem, impor a vontade excêntrica do arquiteto sobre as massas e forçá-las a passar seus dias em espaços que elas consideram feios e inabitáveis, é na verdade opressivo e cruel.

Além do mais, a política desta questão está toda invertida. Por exemplo, como explicamos que, logo após a tragédia da Grenfell Tower, em Londres, comentaristas conservadores pediam mais habitações sociais confortáveis e de menores dimensões, enquanto articulistas de esquerda defendiam firmemente o espírito populista dos grande edifícios de apartamentos, apesar de muitas evidências de que a maioria das pessoas prefere não ser forçada a viver em lugares desse tipo? Conservadores que criticam as habitações sociais podem ter segundas intenções, é fácil demonstrar, mas por que tantos na esquerda estão comprometidos em defender estilos arquitetônicos e urbanísticos impopulares, é algo menos óbvio.

image007.jpgEste é um hospital em Barcelona.

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Este é outro hospital. Se estivesse doente, onde você preferiria ser tratado?

 

Tem havido momentos, afinal, na história do socialismo — como o movimento Arts & Crafts no final do século XIX, na Inglaterra — onde a criação de coisas belas era vista como parte da construção de um mundo mais justo e amável. Um empreendimento de igualdade social compartilhada, idealmente, deveria ser permeado de alegria e esforço: em tempos de desespero, certamente há mais imperativos incontornáveis do que simplesmente tornar o mundo belo, mas recusar-se a tornar o mundo mais belo quando se tem o poder de fazer isto, ou destruir algo belo sem qualquer motivo, é uma perversão grotesca do ideal cooperativo. Isto é especialmente verdadeiro quando se trata de arquitetura. O ambiente que nos rodeia tem o poder de modelar nossos pensamentos e emoções. Pessoas aprisionadas em ambientes feios com freqüência são infelizes sem nem mesmo saber por quê. Se você viver em um lugar sem luz, natureza e cores, sem contato freqüente com outras pessoas, você se sentirá deprimido, solitário e sem esperança. A questão é: como a arquitetura contemporânea chegou a este ponto? E como isso pode ser corrigido?

Por cerca de 2000 anos, tudo que os seres humanos construíram era bonito, ou pelo menos irrepreensível. O séc. XX interrompeu isso, o que fica evidente pelo fato de que as pessoas com freqüência viajam em férias para cidades «históricas» (leia-se: bonitas) que contêm o mínimo possível de arquitetura do pós-guerra. Mas por que? O que mudou? Por que parece haver uma quebra evidente entre os milhares de anos antes da Segunda Guerra Mundial e o período pós-guerra? E por que isso parece ser verdadeiro em todos os lugares?

image011.jpgSede do Caltrans District 7, Morphosis Architects. Oh, meu Deus, olhe para isso. Olhe para isso! Isto deixa você feliz? Isto alimenta seu espírito? O que são essas pequenas saliências aleatórias? Aaaaaaaah!

Algumas mudaças estilísticas óbvias caracterizam a arquitetura do pós-guerra. Para alguns, o que é (agora de modo debochado) chamado de «ornamento» desapareceu. No início do séc. XX, o arquiteto norte-americano Louis Sullivan proclamou a famosa máxima que diz «a forma segue a função». Ainda que os edifícios de Sullivan sejam com freqüência bastante ornamentados, adornados com uma elaborada serralheria em estilo Art Noveau e alvenaria de inspiração celta, «a forma segue a função» foi rápida e erroneamente interpretado como um apelo à simplicidade utilitária. Poucos anos depois, o arquiteto e teórico Adolph Loos, num ensaio escrito em 1908 chamado «Ornamento e crime», declarou dramaticamente que a falta de ornamentação é um «sinal de força espiritual». Estas duas idéias rapidamente se tornaram dogmas da profissão de arquiteto. Uma geração inteira de arquitetos com inclinações políticas socialistas e fascistas viam a ornamentação como um sinal de decadência burguesa e de fraqueza cultural, e começaram a descartar qualquer elemento de design que pudesse ser considerado como «mera decoração».

image013.jpgEste é o tipo de coisa que Louis Sullivan projetou e no entanto as pessoas pensam que «a forma segue a função» significa que você não pode fazer isso nunca mais por razões que permanecem inexplicadas.

Um desprezo pelo ornamento infundiu-se na imaginação daqueles arquitetos que entendiam a profissão mais como engenharia social do que como criação de belas bugigangas. Essa mentalidade é melhor exemplificada pelo arquiteto franco-suíço Le Corbusier, que ganhou fama ao caracterizar a casa como «máquina de morar». As idéias de Corbusier sobre planejamento e projeto foram tomadas a sério mesmo quando ele propôs seu «Plan Voisin» para Paris, que exigiria a demolição de metade da margem norte do rio Sena e sua substituição por cerca de uma dúzia de gigantescos arranha-céus uniformes. (Felizmente, ninguém o tomou a sério ao ponto de deixá-lo realizar a obra.) Corbusier pode ter feito mais do que qualquer outro arquiteto no sentido de convencer seus colegas que eles não podiam mais ornamentar suas criações, lançando pronunciamentos inquestionáveis, como «o desejo de decorar tudo é um espírito errôneo e uma pequena perversão abominável» e «quanto mais uma pessoa é culta, mais a ornamentação desaparece.» Ele condenava «objetos valiosos e inúteis que se acumulam nas estantes» e denunciava «as sedas murmurantes, os mármores espiralados, os cordões vermelhos, as lâminas prateadas de Bizâncio e do Oriente… Fartemo-nos disso!»

image015.jpgDetalhes intrincados costumavam ser um sucesso. Agora não são mais. Deveriam ser. Veja o sensacional lobby do Guardian Building em Detroit — isto é Art Déco, o último movimento realmente impressionante em arquitetura. Por que não podemos mais fazer obras como esta? Por que isto é apenas um edifício em vez de todos os edifícios? Ninguém sabe. Pergunte às pessoas que premiam obras desse tipo.

Esta repulsa paranóica contra a estética clássica é menos uma linha de pensamento do que um comando: de agora em diante, o arquiteto deveria se preocupar somente com a forma geral da estrutura, não com trivialidades tolas como gárgulas e detalhes de serralheria artística, não importa o prazer que tais coisas possam proporcionar aos observadores. É impressionante quão uniforme tornou-se a rejeição aos «ornamentos». Desde o eclipse do Art Déco no final da década de 1930, os desenhos intrincados que caracterizaram séculos de construções, em várias civilizações, da Índia à Pérsia, passando pelos Maias, foram banidos da arquitetura. Com umas poucas exceções, como o êxito da arquitetura neoclássica em reviver formas greco-romanas, e as tentativas irritantes da arquitetura pós-moderna de parodiá-las, nenhum edifício moderno inclui a complexidade da pintura, carpintaria, marcenaria, serralheria e escultura que caracterizaram as mais belas estruturas de eras anteriores.

image017.jpgTeto do Templo do Céu em Pequim, China.

O consenso anti-decorativo também estava de acordo com o consenso artístico sobre qual tipo de «espírito» a arquitetura do séc. XX deveria expressar. A idéia de uma arquitetura transcendentalmente bela começou a parecer ridícula num mundo pós-guerra marcado pelo caos, pelo conflito e pela alienação. A vida era violenta, conflituosa e incompreensível. A arte não deveria ter aspirações fúteis como a transcendência, mas, ao invés, deveria tentar expressar os duros e com freqüência feios e brutais fatos da existência material dos seres humanos. Por isso, chamar um edifício de «feio» não era mais um insulto: para um objeto, o conceito de feiúra não tinha mais qualquer significado. Mas na mesma medida que isso se consumava, a arte poderia e deveria ser feia, porque a vida é feia, e o principal dever da arte é ser honesta sobre quem nós somos em vez de nos iludir com fábulas agradáveis.

Esta idéia, de que a arquitetura devia tentar ser «honesta» em vez de ser «bela», é bem expressa em um infame e acalorado debate de 1982 na Harvard School of Design entre dois arquitetos, Peter Eisenman e Christopher Alexander. Einsenman é um famoso «starchitect», cujos projetos são inspirados na filosofia deconstrutivista de Jacques Derrida e cujas formas são intencionalmente caóticas e quadriculadas. Eisenman assumiu seriamente sua tarefa de criar «desarmonia»: uma das casas projetadas por Eisenman era tão deslocada do conceito normal de uma casa que seus proprietários escreveram um livro inteiro sobre as difuldades que eles enfrentaram tentando morar nela. Por exemplo, Eisenman separou a suíte principal em dois de modo que o casal não podia dormir juntos, instalou uma escada precária sem corrimão, e inicialmente recusou-se a incluir banheiros.[3] Numa oposição violenta à idéia simples de que um ser humano real pode de fato tentar viver (e defecar, e fazer sexo) em uma de suas casas, Eisenman recorda o auto-importante arquiteto alemão do romance «Declínio e Queda», de Evelyn Waugh, que fica irritado diante da necessidade de incluir uma escada entre os pavimentos: «Por que as criaturas não podem permanecer em um único lugar? O problema da arquitetura é o problema de todas as artes: a eliminação do elemento humano da consideração da forma. O único edifício perfeito é a fábrica, porque foi construído para abrigar máquinas, não pessoas.»

image019.jpgUma obra de Peter Eisenman. Observe a total falta de vegetação. Vegetação pode acidentalmente fazer você se sentir feliz e confortável, e felicidade é uma ilusão burguesa. As pequeninas figuras à esquerda parecem estar tentando fazer um piquenique sobre o piso curvo. Provavelmente estão sendo fustigados pelo vento e estão com frio — como deve ser.

Alexander, em contraste, é uma das poucas figuras importantes na arquitetura que acreditam que um padrão objetivo de beleza é um valor importante para a profissão; suas obras, que são na maioria projetos de pequena escala como jardins ou pátios de escolas ou casas, buscam ser calorosos e confortáveis e com freqüência pautam-se em práticas de projeto tradicionais — que ele chama «atemporais». No debate, Alexander arrasou Einsenman por querer edifícios que são «espinhosos e estranhos» e defendeu uma concepção de arquitetura que prioriza emoções e sentimentos humanos. Eisenman, obviamente tentando ao máximo comportar-se como um artista pretensioso de um desenho animado, declarou que achava a catedral de Chartres tão entediante que não merecia sequer uma visita: «de fato», ele afirmou, «fui a Chartres algumas vezes para almoçar no restaurante do outro lado da rua — bebi um vinho Mersault tinto de 1934, que era excelente —, nunca entrei na catedral. Vi a catedral en passant. Uma vez que tenha visto uma catedral gótica, você viu todas.» Alexander respondeu: «Acho isso incompreensível. Acho isso irresponsável. Acho isso doido. Lamento por ele. Também me sinto incrivelmente irritado porque ele está ferrando o mundo.»

image021.jpgUma obra de Christopher Alexander. Não digo que é necessariamente melhor, mas sentimos que é de certo modo menos provável que aqui sejamos tomados espontaneamente por algum tipo de temor existencial.

 
O debate de 1982 foi talvez uma das mais agressivas discussões na história da arquitetura. Também é esclarecedor, tanto pela honestidade de Eisenman ao defender edifícios que tornam as pessoas infelizes e desconfortáveis — «se deixarmos as pessoas tão confortáveis nestas pequenas e belas estruturas», ele declarou, «acabaremos embalando-as na idéia de que tudo está bem, Jack, o que não é verdade» — como pela profecia selvagem e imprecisa de Alexander, ao afirmar que arquitetos e o público em geral logo conseguiriam enxergar através da embromação desconstrucionista de Eisenman e voltariam a apreciar formas e valores tradicionais. Na verdade, aconteceu o contrário: Alexander mergulhou numa relativa obscuridade e Eisenman tornou-se cada vez mais famoso, vencendo o National Design Award e conquistando comissões de prestígio mundo afora.

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image024.jpgA paixão do arquiteto é alinhar elementos de formas intencionalmente irritantes, desordenadas e frustrantes.

image026.jpgArquitetos costumam ficar irritados quando não-arquitetos confundem os termos «modernismo», «pós-modernismo», «Brutalismo» etc. Eles adoram explicar às pessoas algo como, digamos, «Frank Gehry está na verdade se opondo ao pós-modernismo». Estas controvérsias terminológicas podem obscurecer o fato de que tudo que está em discussão é na verdade uma variação menor do mesmo lixo.

 Mas estas duas tendências arquitetônicas, a confortante e a perturbadora, podem coexistir pacificamente? Afinal, Eisenman insistiu que havia espaço no mundo tanto para sua arquitetura monumental, discordante e pós-estruturalista como para a de Alexander, de pequena escala, tradicional e artesanal. O extraordinário sobre a arquitetura no último século, entretanto, é o quão dominante certas tendências têm se mostrado. A uniformidade estética entre os arquitetos é notavelmente rígida. A arquitetura contemporânea rejeita o uso clássico de múltiplas simetrias, intencionalmente evitando alinhar janelas e outros elementos de design e preferindo formas geométricas incomuns a formas agradáveis e ordenadas. Ela segue um número de tabus estritos: abóbadas clássicas e arcos são proibidos. Uma coluna jamais deve apresentar texturas ou frisos, telhados simétricos de duas águas são uma impossibilidade. Esqueça as cúpulas, pináculos, cornijas, arcadas ou qualquer outra coisa que lembre a civilização pré-moderna. Nada construído hoje pode ser confundido com qualquer obra de 100 anos atrás ou anterior. A ruptura entre nossa era e o passado é absoluta e este espaço intransponível deve ser visível por meio das coisas que construímos. E como as coisas eram adoráveis no passado, elas devem, necessariamente, ser feias agora.

 image028.jpgSe não o faz sentir-se desesperado, arrasadoramente solitário, provavelmente não se trata de um exemplar de arquitetura contemporânea digno de premiação.

 
Para muitos socialistas do séc. XX, abdicar dos elementos decorativos e das formas tradicionais parecia ser a conseqüência natural de um espírito revolucionário baseado na simplicidade, solidariedade e sacrifício. Mas a piada recaiu sobre os socialistas, de verdade, porque, como ficou evidente, esta obsessão com o minimalismo também era compatível com o miserável culto da eficiência, típico do capitalismo. Afinal, cada dólar gasto em balaústres chiques ou janelas com vitrais coloridos precisavam gerar algum tipo de contrapartida ao investimento. E como é garantido que tais coisas não geram quase nenhum retorno ao investimento, elas tinham que ser abandonadas. Há um bom motivo por que, historicamente, a arquitetura religiosa tem sido a mais preocupada com a beleza pelo bem da beleza; quanto mais tempo se gasta para tornar uma catedral bela e elegante, mais ela atende à função de celebrar a glória de Deus, enquanto que quanto mais tempo se gasta decorando um edifício de escritórios, menos dinheiro sobrará para o empreendedor.

Mas vamos deixar a glória de Deus de lado — e a simples felicidade humana? Um dos aspectos mais irritantes da arquitetura contemporânea é seu desdém intencional para com a democracia. Quando as pessoas são consultadas, elas tendem a preferir edifícios antigos a edifícios do pós-guerra; pouquíssimos edifícios do pós-guerra figuram na lista dos lugares mais apreciados. Mesmo assim arquitetos são relutantes ao adotar estilos que as pessoas consideram mais bonitos. Por que? Bem, Peter Eisenman falou por muitos arquitetos ao ser indiferente à democracia, dizendo que o papel dos arquitetos não é dar às pessoas o que elas querem, mas o que elas deveriam querer se fossem inteligentes o suficiente para ter bom gosto. Eisenman diz que ele prefere trabalhar com clientes de direita, porque «a visão de esquerda nunca construiu nada de valor», por causa de sua preocupação constante com as necessidades e os processos públicos. (Uma observação: não é coincidência que Howard Roark, protagonista do livro «The Fountainhead», de Ayn Rand, e arqui-herói do cânone literário conservador americano, é um arquiteto que intencionalmente dinamita um conjunto habitacional porque alguém teve a ousadia de acrescentar varandas a seu projeto original sem sua autorização.) Eisenman sugere que, se cedemos ao gosto do público em música, estaríamos todos ouvindo Mantovani em vez de Beethoven, e usa isto como um indicativo de que os arquitetos deveriam impor gostos superiores em vez de ceder aos desejos democráticos. De fato, há sempre um «problema Thomas Kinkade» ao acreditar que a arte deveria ser «democrática».[4] Se você concordar com o gosto popular conforme indicado pelo volume de vendas, Kinkade seria o maior artista do mundo. Taylor Swift seria a melhor cantora e a série dos Transformers seria o melhor cinema já feito. Claro que não confiamos no julgamento democrático em questões de gosto, porque com freqüência as pessoas gostam de coisas desprezíveis.

 image030.jpgA Penn Station original, um espaço de tirar o fôlego para viajantes comuns. Era belíssima, por isso precisou ser destruída. Há uma proposta para reconstruí-la exatamente como era, mas em vez disso é quase certo que algo muito pior será construído em vez.


Mas a arquitetura é muito diferente de outras formas de arte: pessoas que odeiam Beethoven não são obrigadas a ouvi-lo das 9 da manhã às 5 da tarde todos os dias úteis, e pessoas que odeiam a série Transformers não são obrigadas a assistir a esses filmes todas as noites antes de dormir. O ambiente físico no qual vivemos e trabalhamos, contudo, é ubíquo e inescapável; quando se trata de arquitetura, é quase impossível para as pessoas simplesmente evitar o que elas odeiam e procurar o que elas gostam. Também é verdade que intelectuais são apressados demais ao classificar o público como estúpido e incapaz de tomar decisões por si próprio. Há muitos casos em que, quando algo realmente ótimo surge, o público é perfeitamente capaz de reconhecê-lo. As peças de Shakespeare, por exemplo, tem sido incrivelmente populares, apesar de serem obras de literatura complexas e com profundidade intelectual — isto se dá porque elas funcionam em múltiplos níveis. Trata-se de obras suficientemente acessíveis para serem amplamente admiradas e apreciadas, mas profundas o suficiente para alimentar séculos de reflexão e análise. Da mesma forma, as massas tendem a gostar, por exemplo, das catedrais góticas e das mesquitas persas, que são obras de arte complexas e admiráveis.

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A esquerda, em particular, deveria ansiosamente abraçar uma idéia de arquitetura ao mesmo tempo democrática e sofisticada. Muitas das piores partes da arquitetura contemporânea ecoam as partes «ruins» do esquerdismo: a obscuridade da União Soviética, a tendência desumanizante de tentar impor desde cima uma idéia grandiosa de nova ordem social. Elas ilustram o que James Scott chama de «alto modernismo»: o esforço distorcido de «racionalizar» os seres humanos em vez de aceitá-los como são e construir lugares que atendam suas necessidades e que eles apreciem. A parte boa do esquerdismo, por outro lado, consiste em operar de baixo para cima em vez de operar de cima para baixo; ajuda as pessoas a criar seus próprios lugares, em vez de criar estruturas monolíticas nas quais elas serão enquadradas para seu próprio bem. É algo que se assemelha mais a uma vila do que a uma torre de apartamentos, descentralizada e com uma forte ligação entre as pessoas que produzem o lugar e as pessoas que vivem nele.

image034.jpgTodo lugar público deveria fazer o máximo para por você para cima.

Atualmente, as necessidades e os desejos das pessoas que efetivamente precisam usar edifícios raramente são considerados. Escolas de arquitetura não ensinam realmente qualquer coisa sobre construção e sobre emoções; a maioria dos cursos é extremamente matemática, dedicada a engenharia e teorias da forma em vez de ao entendimento dos modos de construção tradicionais ou ao entendimento do que as pessoas esperam de suas obras. A não ser que sejam clientes muito ricos, os usuários raramente têm acesso ao processo de criação das obras que serão realizadas para eles. Estudantes não podem dizer qual o tipo de escola eles gostariam de ter; pessoas que trabalham em escritórios não podem dizer se preferem trabalhar numa torre de vidro ou em um extenso complexo de quiosques de madeira equipados com wi-fi. Algumas destas soluções podem surgir do processo de projeto. Ao contrário da era do artesanato, hoje há uma forte separação entre o processo de projeto e o processo de produção do edifício. Frank Gehry projeta suas obras usando um software CAD, então uma outra pessoa tem que sair e efetivamente construi-las. Mas esta ruptura significa que a arquitetura tornou-se algo imposto às pessoas. Não é um processo participativo e por isso a arquitetura não se adapta às necessidades delas. Trata-se de algo pré-fabricado, montado previamente fora do terreno e então despejado sobre a população inconsciente. Não fomos feitos para viver em edifícios modernos; eles são feitos para pessoas que não fazem cocô. A boa arquitetura torna-se melhor quando abriga as vidas das pessoas para as quais ela foi feita, mas, numa estrutura contemporânea, imagina-se que o lugar poderá ser maculado com a sujeira e os odores dos usuários.

Na verdade, a boa arquitetura cotidiana nem deveria girar em torno do edifício, mas em torno das pessoas. Se não existe a necessidade da obra constituir-se como um tipo de monumento público ou elemento central, ela não deveria chamar muita atenção. Frank Gehry é um irresponsável violador desta regra: quando ele decidiu projetar casas para o Lower Ninth Ward em New Orleans, depois da passagem do furacão Katrina, ele criou um conjunto de casas hiper-contemporâneas destoante da arquitetura vernacular tradicional do bairro. Em vez de preocupar-se em dar às pessoas casas confortáveis adequadas ao entorno e aos interesses dos moradores, Gehry projetou casas que gritavam pedindo atenção e que falavam basicamente de si mesmas em vez das pessoas com as quais ele estava preocupado. Bons edifícios integram-se perfeitamente ao seu entorno; os de Gehry ecoam como uma sirene industrial. De modo análogo, quando um edifício como o Kunsthaus de Peter Cook e Colin Fournier, na Áustria (o edifício que aparece no início deste artigo), é erguido no meio de uma vila antiga, o tecido urbano original inteiro é rompido. O Kunsthaus (um exemplo significativo da «blobitecture») não pode coexistir pacificamente com os edifícios que o rodeiam, porque é impossível parar de olhar para ele. Como o invasor de um jogo de futebol, o Kunsthaus desfila diante de nós com tanto descaramento que nenhuma força de vontade será suficiente para afastar nossos olhos dele.

image036.jpg«Ei! Olha pra mim! Eu sou uma série de blocos dissonantes como quaisquer outros!»

 

 O fato da arquitetura abandonar o princípio da «coerência estética» está criando sérios danos à paisagem das cidades antigas. A crença de que «o aspecto do edifício deve corresponder ao seu tempo» em vez de «o edifício deve parecer com os edifícios existentes no lugar onde ele será construído» leva a uma confusão imensa, com todas as conseqüências decorrentes da destruição de um estilo local, distinto e organizado, por alguns poucos edifícios que danificam a coerência do todo. Até certo ponto, esta é uma função da abordagem do livre mercado em relação ao design e ao desenvolvimento urbano, que sacrifica definitivamente a possibilidade de produzir um espaço urbano que tenha uma coerência estilística relevante. Um certo nojo (isto vale para individualistas, sejam eles progressistas ou capitalistas) da idéia de «uniformidade forçada» leva ao abandono de qualquer tradição estética local, com todos os edifícios se encaixando igualmente bem na cidade do Panamá, Dubai, Nova York ou Xangai. Como as decisões sobre o que construir são deixadas para o proprietário, e como com freqüência pessoas ricas têm mau gosto e simplesmente preferem coisas grandes e imponentes, todas as possibilidades de criar uma outra cidade com as singularidades de uma Veneza ou de uma Bruges foram eliminadas para sempre.

Houve um tempo em que os socialistas gostavam de fazer coisas bonitas; as obras de William Morris, John Ruskin e Oscar Wilde são repletas de celebrações da estética clássica, bem como de apelos para que os seres humanos sejam libertados das misérias da privação econômica. A idéia central do esquerdismo é que as pessoas possam ser livres para prosperar, física e mentalmente; para que isso ocorra, elas precisam estar aptas a realizá-lo também materialmente, espiritualmente, intelectualmente e artisticamente. Artesanato e ornamentos não são burgueses, eles são democráticos — uma sociedade de artesãos é uma sociedade em que as pessoas conseguem maximizar suas capacidades criativas, enquanto que uma sociedade de pessoas em arranha-céus limpinhos ao estilo de Corbusier é uma sociedade de pessoas reduzidas a manchas, cuja individualidade foi roubada e separada de sua capacidade de construir o mundo por si mesmas.

Como, então, consertamos a arquitetura? O que contribui para um mundo mais bonito? Se tudo é feio, como consertamos isso? Livrarmo-nos de todas as justificativas teóricas para a arquitetura contemporânea, todas enormemente equivocadas, é um projeto audacioso. Mas alguns princípios podem ser úteis.

image038.jpg Precisamos construir mais destes…

 


 SUPERANDO MEDOS


A arquitetura do pós-guerra tem sido marcada pelo medo e pelo tabu. Alguns arquitetos têm medo de produzir algo como uma coluna estriada porque eles acreditam que seus colegas pensarão que eles são estúpidos, nostálgicos e pouco sofisticados. Como resultado, eles produzem estruturas que são tão incompreensíveis e irracionais quanto for possível, de modo que as pessoas pensem que eles são inteligentes. Mas eles não precisam ter medo! Seus colegas os acharão estúpidos se eles utilizarem uma arcada decorativa. Mas nós não acharemos.

  1. O MEDO DO BELO — Há um mal-entendido que diz que a beleza é «subjetiva» e que, portanto, ela não existe ou não pode ser discutida. Isto está errado; o fato das pessoas discordarem de algo não significa que não possa ser discutido, assim como o fato de não haver nenhum «filme objetivamente perfeito» não nos impede de discutir quais filmes são melhores. Mesmo que a beleza seja subjetiva, ainda podemos discutir isso, assim como podemos discutir questões morais ainda que os valores das pessoas sejam diferentes.

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O conjunto habitacional brutalista «Alexandra Road», em Londres, que Sam Kriss considerou mais bonito que a Catedral de São Paulo.

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A Catedral de São Paulo, em Londres.

Há uma idéia generalizada, reafirmada por classicistas conservadores, que diz que «beleza» é apenas um eufemismo para arte imperialista européia. O (agora desacreditado) escritor esquerdista Sam Kriss, que absurda e incorretamente afirmou que o conjunto habitacional brutalista Alexandra Road é mais bonito que a Catedral de São Paulo [ambos em Londres], escreve: «tradicionalistas sentimentais falam muito sobre beleza, mas se beleza significa proporção, regularidade e harmonia, então o modernismo tem-se saído muito bem. Mas, claro, não é isso que eles querem dizer com beleza; eles estão se referindo a alguma conexão orgânica inefável com a vida e às ambições da nação.» Não se trata somente de simplicidade e proporção, pois há muitas coisas que são simples e proporcionais que não são belas. E não se trata de nacionalismo, porque há templos e mesquitas que estão entre as mais belas estruturas já erguidas. Quando falamos de beleza arquitetônica, estamos falando de uma qualidade que muitas civilizações têm em comum, uma que une indianos, maias e espanhóis.

As pessoas sentem-se verdadeiramente desconfortáveis com a noção de belo porque pensam que se trata de algo subjetivo. Mas não podemos nos livrar disso; há lugares que consideramos bonitos e lugares que não consideramos, e é importante conversar sobre isso se pretendemos parar de produzir lugares que não consideramos bonitos. Sem desenvolver uma linguagem para falar da beleza, acabaremos confundindo o impressionante com o atraente e criando espaços que são extraordinários sob o ponto de vista da engenharia, mas ao mesmo tempo desconfortáveis e sem vida.

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Em geral, quanto mais elaborado e complexo, mais fascinante…

  1. O MEDO DO ORNAMENTO — Ornamento não é indulgência; é uma parte essencial da prática da construção. Na verdade, «ornamento» significa apenas atenção à experiência estética de micro-escala. São as coisas pequenas, e coisas pequenas são importantes. A idéia da decoração como algo decadente é particularmente ridícula na era das obras monumentais. Quantos recursos ainda serão desperdiçados para colocar em pé o mais recente pretzel de Frank Gehry e quantos seriam necessários para instalar belo trabalho de cantaria numa estrutura muito mais simples? Quando sacrificamos a possibilidade da decoração nós nos privamos de um oceano de ferramentas estéticas extraordinárias e abdicamos da possibilidade de ter experiências visuais incríveis. A alergia ao ornamento condena a humanidade ao tédio eterno, com nada interessante para observar, nada que se possa notar em um edifício numa segunda vez que já não tenha sido notado na primeira.

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  1. O MEDO DA TRADIÇÃO — Criar uma teoria que proíbe de uma vez por todas o uso de estilos tradicionais foi uma das coisas mais surpreendentemente arrogantes e irresponsáveis já feitas pelos arquitetos. A tradição é importante; separar-se dela é uma atitude suicida e sem sentido. Herdamos um leque de possibilidades da prática arquitetônica de todas as culturas anteriores e desperdiçar isso é desnecessário e um sinal de ingratidão. Memória e continuidade não são mera nostalgia. Claro que a tradição ganhou má reputação, simplesmente porque a maior parte da arquitetura «neo-tradicional» é ruim e tem um quê de Disneyworld. Releituras e pastiches não são a solução e o amor cego dos conservadores por tudo que seja grego, romano e vitoriano é um erro. O ponto não é amar cegamente coisas antigas; desta forma o máximo que se consegue é produzir «McMansões». Melhor, em vez de recriar o aspecto exato da arquitetura tradicional, devíamos tentar recriar as sensações que essas obras produziam em seus observadores. Não construa uma versão de plástico de Veneza. Construa uma cidade com canais e passarelas e ornamente casas em tons pastéis que se balançam sobre a água — e dê a essa cidade uma identidade própria e especial. «McMansões» são uma tentativa superficial de lembrar as pessoas sobre coisas belas em vez de realizar o trabalho necessário para fazer coisas belas. Mas a tradição é crucial, coisas antigas eram em geral melhores e se as abandonarmos, estaremos nos condenando a criar incessantemente novas formas sem sentido.

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image054Do mundo árabe ao hindu, passando pelas sinagogas da Europa e o metrô de Moscou, simetrias complexas sempre nos impressionaram. Não é algo greco-romano. É algo humano.

  1. O MEDO DA SIMETRIA — A tendência da dissonãncia precisa acabar. A simetria é bela. A sobreposiçao de múltiplas simetrias pode ser algo deslumbrante. Um edifício não precisa ser assimétrico. Você pode alinhar janelas. Tudo bem. Ficará melhor. Não se preocupe. Não contaremos para seu professor.
  2. O MEDO DE PARECER TOLO — As pessoas que desprezam com mais veemência a arquitetura tradicional são as mais preocupadas em convencer os outros a respeito de sua seriedade intelectual. Projetar um espaço acolhedor, agradável e, sim, nostálgico não é algo suficientemente inteligente. Muitas pessoas têm medo de dizer que não «compreendem» uma obra ou que a consideram feia. Soa infantil dizer que você queria que o edifício fosse pintado em tons pastéis ou que os dois lados dele combinassem ou que ele não tivesse um aspecto ameaçador. Mas não deveria haver qualquer problema em dizer tais coisas. Edifícios não devem ser ameaçadores. Decerto não devem ser esquisitos e não devem irritar os olhos. Eles devem ser agradáveis e atraentes, porque temos que viver neles.image056.jpg

COMPLEXIDADE E SIMPLICIDADE
AO MESMO TEMPO


Um dos atributos que tornam um lugar verdadeiramente bonito é um cuidadoso equilíbrio entre complexidade e simplicidade. A arquitetura contemporânea com freqüência oferece coisas simples e esquece a complexidade, ou prioriza a simplicidade da aparência com a complexidade nos processos técnicos necessários para realizá-la. Mas os antigos edifícios que nos agradam tanto em geral são simples no todo e complexos nos detalhes. Por exemplo, os edifícios do French Quarter, em New Orleans, não são muito elaborados. A maioria é muito simples, são estruturas retangulares alinhadas ao longo de uma rua. Mas elas receberam cores admiráveis e foram adornadas com venezianas coloridas e intrincadas varandas de ferro, decoradas com flores e plantas tropicais. É essa mescla de elementos que dá vida ao lugar. O equilíbrio harmonioso entre simplicidade e complexidade, a complexidade de arranjos florais combinada com a singeleza de um edifício simples e bem pintado tornam o lugar extrememante convidativo para um passeio.


INTEGRANDO A NATUREZA


A vegetação é de fato um dos mais importantes elementos da arquitetura. Um dos problemas mais sérios da arquitetura do pós-guerra é o fato de quase toda ela ser desprovida de natureza. Ela nos contempla com muros brancos e amplos espaços livres sem uma única árvore ou arbusto. De um modo geral, quanto mais houver vegetação, mais bonito o lugar será, e quanto menos vegetação houver, mais feio será. Isto se deve ao fato da natureza ser muito melhor criando coisas do que nós somos. Com efeito, até obras brutalistas tornam-se quase habitáveis quando deixamos plantas crescerem ao redor delas; elas poderiam tornar-se realmente belas se deixássemos as plantas cobrirem até o último metro quadrado de concreto. Todo edifício deveria parecer como os Jardins Suspensos da Babilônia. Precisamos de plantas e de água para sermos felizes. Um dos motivos que tornam as torres de apartamentos e escritórios tão pérfidas é o fato delas impedirem que as pessoas tenham contato com jardins. Jardins deveriam ser integrados a tudo; há um motivo pelo qual ser banido de um jardim foi o destino mais terrível que Deus pôde pensar em impor à humanidade.


SENSAÇÕES EM VEZ DE FORMAS


Há, por assim dizer, uma expectativa muito grande de que a arquitetura transmita idéias. Arquitetos costumam ser obcecados com as idéias com as quais seus edifícios são incorporados. Mas a maioria das pessoas que utilizam um edifício não entende a idéia abstrata que o arquiteto estava tentando transmitir. Muito mais importante do que «idéias» são as sensações que o edifício produz, as experiências que as pessoas terão nele e são estas coisas que deveriam ser priorizadas.

Do mesmo modo, insiste-se muito na «forma»; muitos arquitetos preocupam-se muito mais com a forma do edifício do que com o conforto dos habitantes. Daí a «blobitecture»: o arquiteto projeta com precisão uma bolha específica, usando usando recursos digitais e ferramentas de engenharia, sem parar para pensar se as pessoas realmente gostam de bolhas. O site do Zaha Hadid Architects orgulha-se que o projeto de um de seus novos edifícios é «icônico tanto na escala como na ambição… criando uma silhueta entrelaçada que perfura o skyline». Mas os arquitetos não deveriam ter interesse em criar coisas que são «icônicas na escala» ou que «perfuram o skyline». Isto é exatamente a última coisa com que se deve preocupar; isto sugere que o arquiteto apenas está procurando atenção em vez da criação de beleza e conforto perfeitos. Ninguém quer que você perfure nada! O que se espera de você é que consiga adicionar mais uma perfeita e delicada nota na maravilhosa sinfonia do skyline.

A maior parte das justificativas teóricas para estas formas são nonsense absoluto. Veja Frank Gehry explicando como ele não queria «produzir» ornamentações ou «coisas históricas» e, em vez disso, decidiu inspirar-se nas formas de um peixe:

Eu estava procurando um meio de lidar com as qualidades humanizantes da decoração sem ter de recorrer a ela. Fiquei incomodado com isso — toda essa coisa histórica, o pastiche. Eu disse a mim mesmo: se você precisa recuar no tempo, por que não voltar 300 milhões de anos antes do surgimento do homem, ao peixe? A partir daí comecei com esse conceito de peixe, pelo menos do modo como o compreendo, e comecei a desenhar estas coisas todas e percebi que elas eram arquitetônicas, expressando movimento mesmo quando não estão se movendo. Não gosto de retratar esse processo como um esforço intelectual complexo. Muitos arquitetos evitam curvas duplas, como eu fiz, porque não temos a linguagem adequada para transformar isso num edifício viável e econômico. Creio que o estudo de um peixe me ajudou a criar um tipo de linguagem pessoal.

Se este discurso viesse de uma pessoa comum, nós o dispensaríamos como delírios de um maluco. Mas Gehry é o arquiteto preferido dos arquitetos, por isso ele não precisa admitir que estava apenas rabiscando um peixe e as pessoas pensarão que ele é muito profundo.


A NECESSIDADE DE COERÊNCIA


O Museu Guggenheim, de Frank Lloyd Wright, é um edifício impresionante. Infelizmente, trata-se de uma obra que não estabelece nenhuma relação com seu entorno; poderia ser colocada em qualquer outro lugar. Outra obra de Wright, a Casa da Cascata, por outro lado, foi projetada de forma coerente com seu entorno. Coerência estética é muito importante; a própria noção de lugar depende do modo como cada elemento que o constitui funciona quando situado em um conjunto. As ruas de Beacon Hill, bairro histórico de Boston, são belas porque, embora haja ali diversos elementos, eles estão esteticamente unificados. Por outro lado, a Tour Montparnasse, em Paris, é horrível porque sua presença não estabelece sintonia com os edifícios ao redor; ao contrário, trata-se de um edifício que atrai toda a atenção para si mesmo. O capitalismo alimenta-se de cultura e torna os lugares feios. Dinheiro não tem sabor.

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Beacon Hill, onde tudo se encaixa perfeitamente.

 


VALORES DEMOCRÁTICOS


Podemos ver os frutos da filosofia anti-democrática de Peter Eisenman nos lugares que ele construiu. Um ex-aluno da Cooper Union[5] lembra de ter visto o projeto de Eisenman para o alojamento estudantil da universidade e pensado «eu não quero morar aí», porque Eisenman havia usado paredes com ângulos esquisitos, o que tornava impossível posicionar adequadamente a mobília, e colocado janelas no nível do chão, de modo que seria necessário ajoelhar-se para olhar para fora do edifício. A pessoa que pensa que sabe o que as pessoas devem querer na verdade não sabe muita coisa. Lugares precisam ser apreciados e devem deixar as pessoas à vontade. Arquitetos precisam identificar de quais edifícios as pessoas mais gostam (dica: geralmente são os mais antigos) e precisam tentar fazer novos edifícios que proporcionam às pessoas as mesmas sensações prazerosas. O brutalismo é o contrário da democracia: implica impor às pessoas algo que elas detestam, tudo por causa de um esquema conceitual arbitrário, formalista e limitado. Concordar com o gosto popular não significa recriar Las Vegas, mas talvez possa significar criar catedrais bem elaboradas e jardins com fontes.

image060.jpgजैसलमेर का किला (o Forte de Jaisalmer, também conhecido como «cidade dourada da Índia»)

 


A ABOLIÇÃO DO ARRANHA-CÉU


Devia ser óbvio para todo mundo que arranha-céus deveriam ser abolidos. Afinal, eles materializam praticamente todas as tendências ruins da arquitetura contemporânea: não são parte da natureza, são monolíticos, monótonos, sem complexidade e anti-democráticos. Além disso, há muito espaço disponível na superfície terrestre para espalhar-se horizontalmente; as únicas razões para espalhar-se verticalmente são fálicas e freudianas. O arquiteto Leon Krier sugere que, embora não se deva impor limites de altura aos edifícios, nenhum deles deveria ter mais do que quatro pavimentos — deste modo, pináculos e campánarios poderiam ter qualquer altura desejada. Parece uma idéia inteiramente sensata.

Porém, mais do que simplesmente abolir os arranha-céus, devemos criar um mundo de maravilhas cotidianas, um mundo no qual todas as coisas sejam belas. Pode soar impossível, mas não é; por milhares de anos quase todas as estruturas humanas feitas eram belas. É apenas uma questão de resgatar velhos hábitos. Devemos nos perguntar: por que é que não conseguimos construir outra Praga ou Florença? Por que não podemos construir edifícios como as mesquitas persas e os templos da Índia? Bem, não há nenhum motivo que torne estas coisas impossíveis. Não há nada que nos impeça de fazer tais coisas, a não ser a prisão de nossas idéias e nosso horrível sistema econômico. Devemos fugir dessa prisão e destruir o sistema econômico.

Há um teste simples para saber se um edifício é belo ou não. Pergunte-se: se esse edifício pudesse falar, ele soaria como o Rubaiyat ou como as obras de Shakespeare ou ele emitiria algum som como «blorp»? Por cerca de 100 anos estivemos presos na Era do Blorp. É hora de aprender a falar novamente.

***

 Correção: a versão impressa deste artigo indicava que Peter Eisenman havia projetado um alojamento para a Cooper Union que se mostrou muito impopular. Aparentemente ele foi apenas um dos finalistas do concurso de projetos — seu projeto era impopular demais para sequer ser construído.

 


[1] Esta tradução orgulhosamente ignora o Acordo Ortográfico de 2009. Todas as outras notas que acompanham este artigo são do tradutor.

[2] Termo originado da junção de «blob» (bolha) e «architecture», que se refere a um estilo de arquitetura gerado por computador com formas semelhantes a bolhas ou amebas.

[3] House VI, Cornwall, EUA, 1975.

[4] Thomas Kinkade (1958-2012) foi um pintor norte-americano muito popular, mas muito criticado por comercializar sua arte, que era considerada sem profundidade.

[5] Universidade situada em Nova York onde Eisenman graduou-se e depois veio a lecionar.

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